Recentemente, o rap brasileiro entrou em mais uma grande discussão sobre o machismo que permeia os ambientes onde ele é tocado, as pessoas que o tocam, seus vídeos e, principalmente, suas letras.

No disco do Xamã, “Pecado capital”, disponibilizado no dia 22/05, mais especificamente na música “Preguiça”, Nog, do Costa Gold, rimou que “deixa ela dormir que se ela vira, eu como”.

Xamã com Costa Gold nesse beat loco
Tira o sono
Deixa ela dormir que se ela vira, eu como
Boto o cano na goela e atiro gozo

Não cheguei a ver quem foi a primeira pessoa a compartilhar a linha e iniciar os questionamentos, mas bem pouco tempo depois já estava por todo lado. Foram tantas críticas que a música foi deletada do disco no Youtube e o Costa Gold foi cortado de alguns eventos que faria por aqueles dias.

O rapper chegou a se explicar através de um comentário em seu Facebook dizendo que ele está “falando da sensação que a música traz, que é uma música oposta à preguiça. E se alguém moscar, dormir, somos assim, disposição pra tudo” e que “a metáfora foi uma mina dormindo e eu na vontade de transar, na sede; não está explícito forçar ninguém a nada”.

Vou fingir que não vi a parte do “não está explícito forçar ninguém a nada” porque é ridícula; uma pessoa dormindo não pode dar consentimento, logo, está sendo forçada.

Quanto à metáfora, se você vai envolver estupro, você precisa mostrar a parte ruim do estupro, você não pode glorificá-lo, dando a entender que você o está praticando. Qualquer referência a você ou alguém estar estuprando alguém é repugnante, não existe metáfora que sobreviva.

Vi muitos questionamentos sobre o fato de essa linha ter passado desapercebida pelas pessoas que ouviram e mesmo assim decidiram manter no CD. O grande problema, na verdade, é que essas pessoas não veem esse tipo de linha como algo ruim, é a linguagem do dia a dia; a brincadeira do grupo de amigos.

Isso não significa que elas são coniventes a estupros ou, pior, que sejam estupradoras, mas que não conseguem (ou não querem) tomar a real dimensão do problema em colocar esse tipo de comportamento em sua música. Escondem-se atrás da liberdade de expressão ou do “é só uma rima” e esquecem completamente que vivem numa sociedade que os números do feminicídio só aumentam.

O rap é tão machista quanto é a sociedade. É um reflexo, como o é de tantas coisas boas e ruins que seus pertencentes enxergam no dia a dia. No entanto, no auge da competição de MC contra MC, na demonstração de força, essas rimas de “poder” e malandragem se destacam porque visam enaltecer o gângster que cada rapper acha que tem nele.

As coisas estão mudando, é verdade. Talvez o maior expoente disso seja a afirmação do próprio Mano Brown sobre hoje não cantar mais alguns versos que admite serem completamente machistas. Quando o cara que ajudou a moldar o gângster no rap brasileiro ressalta a importância de coibir versos machistas, a mudança de paradigma é nítida.

Mas, não pode ser só na fala. O desejo de mudar e desconstruir certos pensamentos precisa ser aplicado. Como foi com o Nog, deveria ser com todo e qualquer outro rapper (de qualquer gênero musical, na verdade, mas aqui estamos falando de rap) que usar desse tipo de rima.

Os rappers precisam ser questionados pelos machismos em suas letras. Não é liberdade de expressão quando você invade deliberadamente a liberdade de outra pessoa ou grupo de pessoas. Às vezes, pode ser explicado; às vezes, precisa ser boicotado. Mas, não pode passar batido.

Aliás, esse talvez seja o maior problema da questão. Assim como na rua que Mano Brown cantou em Vida Loka, no rap também tem quem passe um pano até pra jack. E como tem.

Quando eu acompanhava a cena mais de perto com notícias diárias no Vai Ser Rimando, lembro de apenas quatro casos em que os rappers foram questionados por rimas ou comentários machistas em redes sociais: o mais famoso deles, do Emicida em “Trepadeira”; teve o Maomé, da Cone Crew Diretoria, postando coisas como “mulher tem que tomar uma surra pra aprender a ser mulher“; o Nocivo respondendo uma crítica com comentários de conotação sexual e sugerindo que lugar de mulher é lavando louça; e umas publicações controversas do RET que pegou bem mal.

Quatro casos bem superficiais que noticiei na época e, embora saiba que centenas de outros devem ter acontecido, pouquíssimos devem ter sido falados. Sempre existiu uma proteção tremenda ao rapper homem. Desde seus atos no dia a dia até suas rimas. Quantos outros casos foram falados de lá pra cá?

Eu lembro de ter lido sobre a agressão do Flow MC a uma jovem, até então sua namorada. E procurando agora vi um vídeo da ex-namorada do Ber; uma notícia sobre o MD, da 1Kilo, ter ameaçado sua ex de morte; uma sobre agressões do Mobb que deixaram sua namorada sem consciência; sem contar aquela publicação com alguns nomes de músicos famosos acusados de machismo, que incluem os nomes do Criolo e do Renan Inquérito.

Mesmo que alguns destes casos tenham ido parar na polícia, a repercussão foi pequena e os rappers continuaram, de um jeito ou de outro, fazendo sucesso e livres pra seguir carreira. Em outros casos, foram só acusações, que, como eu disse, não acompanhei de perto, mas também não vi os rappers sendo cobrados de responder algo; serem questionados para pelo menos esclarecerem a acusação.

De maneira geral, a sociedade dá pouca credibilidade à mulher nesses casos e os depoimentos acabam se tornando apenas mais um motivo para serem agredidas, por isso tão poucos são feitos. No rap é ainda pior porque a figura de autoridade do rapper permite que ele se esconda atrás de negações e faça, mesmo indiretamente, com que sua legião de fãs ataque a vítima, que acaba sendo abusada verbalmente e ameaçada por inúmeras pessoas que ela nem conhece.

Ao mesmo tempo, as rappers mulheres que lutam pra conquistar seu espaço, que muitas vezes foi negado simplesmente pelo fato de serem mulheres, precisam escolher entre se posicionar contra esse machismo todo ou aparecer no lineup. O espaço para mulheres no rap é escaço e ele é ainda menor para aquelas que criticam sempre que podem o machismo, afinal são estes mesmos homens que estão no controle de grande parte da cena.

Por isso, versos como os da Taz Mureb em “Nairobi”, que são importantes para questionar certas atitudes e dar nome aos bois, são raríssimos. São poucas as rappers que se sentem confortáveis para utilizar sua música para atacar esse tipo de atitude. A própria Taz menciona na música que os amigos dela do Rio já fingem que nem a conhecem, provavelmente por ela já ter dado essa letra em outros momentos.

O que aconteceu na cypher “Machocídio” talvez seja mais comum, mas ainda assim dá pra contar nos dedos. Afinal, mesmo sem citar nomes, só o fato de questionar a posição das mulheres, principalmente das rappers, e cobrar os homens por seus comportamentos, principalmente os rappers, já causa uma certa rotulagem que pode influenciar negativamente na imagem da rapper perante alguns canais de divulgação (aqui incluo divulgação como um todo, desde feat em música até fechamento de show).

No entanto, diferente de outros tempos que toda e qualquer divulgação passava pela mesma pessoa ou um grupo pequeno de pessoas, hoje ela aparece, de alguma forma, em todos os cantos. Hoje, você pode fazer sozinho um canal de divulgação decente. E é por isso que surgem cada vez mais coletivos só de mulheres, como o “Rimas & Melodias“, cyphers só de mulheres como a “Rima dela” e projetos incríveis como o da Luana Hansen, que, após ser excluída por ser lésbica, montou seu próprio estúdio e dá voz a outra mulheres.

“Levo meu estúdio na fundação [Casa] para as meninas gravarem um CD lá dentro, levo para escolas, levo meu estúdio para vários lugares porque quero dar oportunidade da pessoa falar o que ela quer falar. O pouco de estrutura que tenho tento passar para os outros”, contou ela em uma entrevista para o Huffpost Brasil.

É triste pensar que é preciso um canal só de mulheres para que as mulheres tenham voz, mas já que é preciso mesmo que bom que ele existe. E tem dado muito certo, pois com grandes números de visualização e novos nomes surgindo como nunca antes, é bem provável que os produtores comecem a colocar mulheres em participações que antes eram quase exclusivas dos homens.

O aumento da presença feminina no rap também acaba dando às mulheres um “poder maior de voto”, digamos. Ou seja, quando houver uma questão peculiar a ser discutida, as mulheres poderão usufruir desse espaço maior conquistado para dar sua opinião diretamente, sem depender de terceiros.

É um ciclo virtuoso. Por isso, tão importante quanto combater o machismo com questionamentos e críticas diretas aos rappers que o cometem, é valorizar o trabalho feminino na cena. Para combater o machismo, é vital que as mulheres ocupem os espaços que tanto lutaram para conquistar com a mesma liberdade dos homens, sem serem punidas por os criticarem.

Além de servirem de exemplo para as meninas mais jovens, que vão chegando para aumentar esse espaço necessário, também servem como reguladoras de um machismo que tende a diminuir com a maior presença feminina.

Do mesmo jeito que surgiram importantes movimentos femininos para criticar a impunidade dos poderosos da indústria do cinema e chamar atenção para a desigualdade entre homens e mulheres no meio, as rappers também “batalham” seus pares por igualdade através de rimas e batidas cada vez mais poderosas.

O caminho é longo, mas, felizmente, sem volta, até que ninguém mais passe pano pra jack, na rua, no rap ou em qualquer lugar.

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