O grande protesto de Michael Jordan era o seu show

Atualizado em 15/09/2020

Há alguns meses, ou anos, sei lá, essa pandemia tem me deixado meio fora no conceito de tempo, eu assisti à sensação mundial “The Last Dance” ou “Arremesso final”, como foi traduzido por aqui, documentário da ESPN/Netflix sobre o 6º título do Chicago Bulls, em 1998; “a última dança” de Michael Jordan ao lado de Pill Jackson, Scottie Pippen, Denis Rodman.

Em 10 episódios, a série traz filmagens exclusivas dos bastidores da franquia na temporada 97-98, mais de 100 entrevistas atuais e muitas informações para preencher o background, não só dos atletas como das principais polêmicas da época.

Vimos a luta de Pippen para ser reconhecido mesmo dentro de sua equipe (ele era o 2º melhor jogador da liga e ainda assim um dos que menos recebiam); a rivalidade extrema com os “Bad Boys” do Detroit Pistons e, especialmente, com Isaiah Thomas, o que provavelmente o deixou fora do Dream Team de 92; as fugidas de Dennis Rodman, inclusive uma em que pega um voo logo depois de um jogo de final para um evento da WCW, no qual acerta alguém com uma cadeira (tudo bem, era atuação, mas ainda assim!).

Embora seja focado no 6º título, o filme se desloca várias vezes no tempo para mostrar os outros 5 troféus conquistados pelo Bulls na década e, principalmente, a grandiosidade de Michael Jordan.

É um prato cheio para os fãs de esporte, não só pela carência com a pausa dos eventos ao vivo, mas também por apresentar aquele que é considerado melhor jogador de basquete de todos os tempos para várias novas gerações que não o viram atuar.

E, pra que não haja confusão, este é um filme sobre Michael Jordan, pura e simplesmente.

Primeiro que, pra filmar os bastidores da última temporada daquele Bulls, apenas três pessoas do time foram consultadas: o presidente, o técnico e Jordan. Segundo que tiveram que esperar ele autorizar o lançamento do documentário, que foi sendo adiado através dos anos. E, por fim e mais importante, ele, o objeto principal de estudo do filme, exigia que lhe fosse dada a última palavra sobre qualquer questão apresentada.

“Se você influencia até a sua realização [do documentário], significa que alguns aspectos que você não quer que apareçam vão ficar de fora, ponto final”, comentou ao The Wall Street Journal o multipremiado documentarista Ken Burns sobre o envolvimento da Jump 23, produtora do Jordan, no projeto. “Não é assim que você faz bom jornalismo”, completa.

Quando você dá a uma estrela do tamanho de Michael Jordan a versão final sobre certos fatos de sua carreira, não há dúvidas que você terá muitas omissões e mais uma tonelada de mentiras. Não é porque ele fala sobre os problemas com apostas e mostra um lado emocional que todo o resto será verdade.

Aliás, a coisa se desenvolve de tal forma que em determinado momento você se vê odiando o estilo de jogo brigão do Pistons, mas acha aceitável e até se comove com o desenrolar do soco que Jordan dá em Steve Kerr nos treinos da equipe.

É uma narrativa pró-Jordan, sem sombra de dúvidas.

Era um risco óbvio e não me surpreende nada ex-colegas como Horace Grant, o próprio Steve Kerr e até o Pippen terem versões bem diferentes sobre o que MJ conta.

O que me surpreende – só por alguns segundos, até pensar em marketing, dinheiro e vendas de tênis – é um cara tão reservado e defensivo em relação à sua imagem como Jordan topar fazer algo assim; ele realmente achava que só porque o vídeo o faria parecer correto que ninguém iria “desmascará-lo” fora dali? Parece até que esqueceu que não estamos mais em 98, quando ser Michael Jordan podia simplesmente abafar a maioria dos problemas.

De qualquer jeito, pra nós, meros mortais admiradores da bola ao cesto, independente de ser um documentário ou um filme baseado em fatos reais, como disse o jornalista Sam Smith, é arrepiante, emocional e puro entretenimento esportivo.

E eu que pensei que tava conseguindo lidar bem com a falta de esportes ao vivo!

Se mesmo sabendo dos resultados, eu vibrei com cada cesta, imagina uma final de conferência hoje, Lakers x Clippers indo pro sexto ou sétimo jogo e a vitória sendo decretada com uma bola no último segundo. Embora eu seja totalmente contra – mesmo – à volta dos esportes neste momento, é difícil não sentir saudade ao ver o balé de Michael Jordan.

Dito isso, eu quero deixar o atleta Jordan de lado e levar este texto pra outro ponto. Não, fiquem tranquilos, eu não vou começar mais uma vez a falar sobre dissociar o profissional do pessoal. Eu gostaria de falar um pouco sobre o que mais me chamou atenção nas quase 10 horas de programa: o poder cultural que foi – e, aparentemente, ainda é – Michael Jordan.

Air Jordan

Assim que entrou na NBA, na temporada 84-85, Jordan assinou com o agente David Falk, tendo sido eleito duas vezes pra “seleção do Campeonato” na NCAA e medalha de ouro na Olimpíada de Los Angeles, em 84.

Embora já tivesse um passado como agente de jogadores de basquete e até alguns anos antes tivesse conseguido um contrato de 1.2 milhões de dólares/8 anos com a New Balance para James Worthy, Falk tentaria com MJ uma abordagem não muito utilizada na época em esportes coletivos. Ele queria uma linha inteira de tênis para Jordan, além de royalties pelas vendas.

“A estratégia era pegar um jogador de esporte coletivo e tratá-lo como golfista, boxeador ou tenista”, disse o empresário.

Eles receberam inúmeras ofertas, mas, de acordo com “Arremesso final”, nem a Converse, que era a principal fornecedora de tênis dos jogadores da NBA e a marca que MJ usou no colégio, nem a Adidas, marca que ele próprio queria, poderia lhe dar a exclusividade desejada.

O agente a conseguiu apenas na Nike, que na época era 50% menor que a Adidas, de acordo com a Forbes, e, praticamente, só se destacava no atletismo; até a Reebok, que acabara de entrar no cenário, passaria a receita da Nike em 1987.

Michael Jordan não queria a Nike, de jeito nenhum; ele não iria nem na reunião se não fosse sua mãe. Tanto não queria que levou a proposta de volta para a Adidas para que eles a igualassem; sem sucesso.

“Quando negociei com a Nike, disse a eles: ‘Vocês são uma empresa pequena. Se quiserem Michael Jordan, façam uma linha de tênis dele’. A Nike tinha criado uma tecnologia nova com ar nas solas. E, lógico, Michael jogava no ar. Falei: ‘É isso. Pode se chamar Air Jordan'”, contou Falk.

MJ fechou com a Nike por 500 mil dólares/ano, em um contrato de 5 anos; o valor é três vezes maior que o que qualquer jogador ganhava na época em um contrato de tênis.

Quando o primeiro Air Jordan saiu, MJ teve que pagar uma multa de 5 mil dólares por jogo para poder usá-lo, pois o tênis quebrava uma regra da Liga sobre cores. A Nike pagou as multas com um sorriso no rosto e insistiu no uso em quadra. Conclusão: uma sequência de anúncios com a ideia de que os fãs poderiam usar um tênis que fora “banido” pela NBA. O estouro foi tão grande que até um documentário foi feito.

A empresa esperava vender pouco mais de 3 milhões de dólares, em 4 anos; vendeu 126 milhões só no primeiro!

Convenientemente, a série deixa de fora Sonny Vaccaro, que apostou seu emprego na Nike pelo contrato de Jordan. Quando ele e a empresa se desentenderam no início da década de 90, Vaccaro foi atrás dos principais jovens talentos – não à toa, assinou Kobe Bryant para a Adidas, em 96. Faz sentido para MJ, o cara que apagou a Reebok do seu uniforme no pódio da Olimpíadas de 92, apagar um desafeto da Nike de seu filme.

Michael Jordan lucrou muito com a Nike, sem dúvida. Da sua fortuna avaliada em 2 bilhões de dólares, estima-se que metade tenha vindo da empresa. Caramba, só no ano passado, mesmo 15 anos depois da sua aposentadoria definitiva, MJ recebeu 136 milhões de dólares com a Jordan Brand; isso é 4 vezes mais do que recebeu LeBron James, que é o atleta que recebe mais na atualidade em patrocínios de tênis.

No entanto, isso só deixa ainda mais claro o quanto a Nike dependeu do MJ para se tornar o que é hoje. Ainda de acordo com a Forbes, a marca domina o mercado de basquete: 86% do basquete de performance e incríveis 96% do mercado de lifestyle; a receita da Nike nos últimos 12 meses é 60% maior que a da Adidas e 43 vezes a mais do que era antes de Jordan.

A Reebok, que a Adidas comprou em 2005, teve uma receita menor no ano passado do que teve em 1990. O valor de mercado da Nike (136 bilhões de dólares) é 3 vezes maior do que o da Adidas.

Até a própria forma de lançamento dos tênis foi revolucionária. A cada ano, no All-Star Weekend, um novo modelo de tênis usado por Michael Jordan durante a temporada chegaria ao grande público.

O modelo de negócios praticado pela Jordan Brand ao lançar anualmente ‘algo novo’ e ‘com uma numeração’, para um mercado que se mantém conectado a um item singular, sempre foi revolucionário. Muitas outras companhias têm tentado igualar esse padrão de excelência, mas não muitas – se alguma – conseguiram sustentar por um período de tempo similar. A Apple está ainda a 21 anos e 8 modelos de Iphones de chegar onde Jordan está com sua linha de tênis.

Scoop Jackson, no ESPN.com em 12 de fevereiro de 2016. [minha tradução].

Tudo bem, você pode argumentar que muitas outras circunstâncias influenciaram nesse crescimento inacreditável de lucros e domínio do mercado. E você estará definitivamente certo(a). No entanto, o que Michael Jordan representava era exatamente o que uma marca “pequena” como a Nike precisava para alavancar admiradores em vários esportes, em vários lugares do mundo.

Após o sucesso do Dream Team, a Nike aproveitou o momento e levou Jordan por vários países do mundo para jogar partidas de exibição, dando a franceses, japoneses, ingleses e toda uma vasta comunidade internacional uma oportunidade muitas vezes única de vê-lo jogar.

De acordo com a Sports Illustrated, as suas “lendárias viagens ao exterior se tornaram um padrão para marcas de tênis, que enviam seus atletas a lugares como a China e Japão onde um ansioso mercado do basquete os espera – muito por causa do MJ”.

Depois vieram os comerciais “só pode ser o tênis”, dirigidos por Spike Lee, que na época era um nome ainda mais poderoso do “cool”, principalmente depois do lançamento de “Faça a coisa certa”, em 1989.

Nos comerciais, Lee interpreta Mars Blackmon, de seu filme “Ela quer tudo” (1986), que já desfilava em seu Air Jordan antes mesmo de aparecer ao lado do jogador. Aliás, embora MJ nunca tenha aparecido nos filmes do Spike, ele é referenciado em muitos deles – inclusive, tem aquela icônica pisada em tênis novo que facilmente podia ter terminado em pancadaria, mas leva a um debate sobre gentrificação.

A cultura dos sneakers, como é conhecido esse “culto” aos tênis, avaliada em 2018 em 58 bilhões de dólares, ganhou proporções astronômicas nas últimas décadas e os Air Jordan foram, com toda certeza, a grande força motriz desse crescimento.

“Onde eu cresci, [Jordans] eram como o Santo Graal. Eu não podia pagar por eles. Então, apenas de poder trabalhar e economizar para comprá-los era algo imenso”, resume LaMarcus Aldridge, jogador do Spurs e que tem contrato com a Jordan Brand.

“Eu definitivamente era fãzaço [dos Jordans], eu só não podia pagar por eles. Eu nunca imaginei que estaria nessa situação de poder estrear um tênis do Michael Jordan, o que é louco se você for pensar”, conta Russell Westbrook, um dos principais jogadores da marca.

Essa distância entre o impulso do desejo e a possibilidade de comprar – ou a impossibilidade – é também uma das grandes críticas feitas aos Air Jordan. “Jordan tem roubado a quebrada. Crianças morrendo por tênis e a única resposta desse cara é que ele não se importa. Os tempos mudarão!”, publicou em seu twitter o ex-jogador Stephon Marbury.

Tudo bem que as críticas de Marbury pareciam tão vocais quanto parciais, visto que logo ele anunciou a volta do seu projeto de tênis de baixo custo, tido em determinado momento até como uma forma de “peitar” os gigantes do mercado.

No entanto, existia fogo nessa fumaça.

Existem inúmeros relatos de ações violentas e mortes que aconteceram por causa de tênis – a edição “Seu tênis ou sua vida”, da Sports Ilustrated, em 90, considerado um dos 50 momentos que mudaram a cultura dos sneakers pra sempre, deixa isso sensacionalisticamente bem claro -, especialmente os Air Jordan.

Por mais que você possa argumentar que isso acontece com qualquer peça de valor, seja um celular, seja um relógio, esse é exatamente o ponto: os tênis que faziam Michael Jordan voar e toda uma geração de jovens sonhar não deveriam ser o motivo desses mesmos jovens serem mortos ou matarem.

Michael Jordan não é um ativista político. Não é o seu trabalho policiar o que acontece depois que um tênis é lançado. Mas, o que terá que acontecer pra ele perceber que seus produtos estão se tornando não apenas prejudiciais para a comunidade sneaker como um todo, mas mais especificamente à comunidade Afro-Americana? Eu não sou Michael Jordan, então eu não posso dizer o que ele deveria fazer. Mas como um consumidor que coleciona tênis há mais de uma década, eu posso dizer que é decepcionante que ele não tenha, pelo menos, falado sobre isso. Ficar na fila pra comprar os Jordans costumava servir para se conectar com pessoas que dividiam a mesma paixão pela cultura. Agora, eu não sei dizer se o cara atrás de mim dá um valor maior aos seus tênis do que à minha vida.

Joe Sherman escreveu no site da Complex em 06 de junho de 2015. [minha tradução].

Eu, obviamente, não tenho a solução. Eu acho que lançar poucas unidades de um produto muito desejado só amplifica esse desejo e cobrar cada vez mais caro mesmo gastando cada vez menos para produzi-los, na maioria dos casos em locais que exploram trabalhadores, só deixa o problema ainda maior.

No entanto, como eu falei, isso vale de igual forma para Iphones e afins. E ao mesmo tempo que cobramos uma postura diferente de Jordan da de Steve Jobs por que o fazemos? Será que MJ precisa realmente ser cobrado a ser a mudança de toda uma indústria ou será que ainda não superamos homens negros fazendo dinheiro como homens brancos fizeram a vida toda?

A mudança é necessária, mas ao recair sobre os poucos negros/poucas negras que vencem a barreira e alcançam sucesso financeiro parece só servir para perpetuar o racismo estrutural já existente.

Aliás, como veremos mais pra frente, cobrar posicionamento de pessoas negras por problemas gerados por pessoas brancas, especialmente em relação à cor, é perigoso e só tende a ampliar o racismo – como muito bem me fez entender isso o Levi Kaique Ferreira, no site Mundo Negro.

“Se passarmos a permitir que pessoas brancas nos cobrem como e quando devemos fazer nossos questionamentos e promover nossas reivindicações nós, novamente, vamos perder o pouco espaço que temos conquistado”, ele escreveu.

De qualquer jeito, Mars, eu tenho certeza que não era o tênis, era totalmente e 100% obra de Jordan. No entanto, é completamente natural que todo(a) jovem que fosse praticar um esporte teria uma tendência a usar não só aquele tênis, mas aquela marca. Independente do esporte, todo mundo queria ser Michael Jordan.

Todo mundo queria ser como o Mike

Não à toa, a Gatorade passou a veicular inúmeros comerciais com o slogan “Be like Mike” ou “Seja como o Mike”, na tradução literal. MJ se tornou um símbolo de poder atlético e uma inspiração tremenda pros jovens da época.

Ele era a excelência.

Quando Jordan começou a gravar Space Jam, em 95, ele tinha acabado de voltar à NBA depois de passar uma temporada e meia aposentado – tempo que ele dedicou ao baseball. Ele pegou a Liga em andamento e levou um desacreditado Bulls às semifinais da Conferência..

Pra quem não lembra tão bem do filme da Warner, criaturas espaciais vêm à Terra para levar Pernalonga e seus amigos ao seu planeta para trabalharem forçadamente em seu parque de diversões. Depois de algumas negociações, o coelho sugere que a questão seja decidida em um jogo de basquete, tentando tirar proveito da baixa estatura dos alienígenas.

Desafio aceito. No entanto, os terráqueos não esperavam que aquelas criaturinhas roubariam o “talento” de grandes nomes da NBA – Charles Barkley, Patrick Ewing, Muggsy Bogues, Larry Johnson e Shawn Bradley – e se tornariam monstrengos grandes e habilidosos com uma bola de basquete.

Tudo parecia perdido até que o Pernalonga mostrou suas conexões. Ele foi buscar o aposentado Michael Jordan para defender a Terra. E quem melhor que o incomparável Michael Jordan para sair da aposentadoria e levar o time pra vitória.

O resto é história.

Ou seja, você juntou o talento de 6 jogadores da NBA de um lado contra MJ e mesmo assim ele venceu? E ele estava aposentado?

É claro que Space Jam extrapola a imagem de excelência de Jordan, mas é um pensamento que já estava lá e agora é levado para todos os cantos do mundo, para pessoas além dos fãs de basquete – talvez mais até do que o Dream Team na Olimpíada de 92, que possuía outras grandes estrelas para dividir o palco, não teve competição e, convenhamos, não estava salvando a Terra.

Pode parecer que não, mas Space Jam fez tanto sucesso que arrecadou 230 milhões de dólares e estima-se que vendeu $6 bilhões em mercadorias.

Mais do que isso, o filme foi quase como uma premonição, pois na temporada seguinte às realizações das filmagens, o Chicago Bulls, agora com MJ desde o começo, foi campeão pela quarta vez. E seria ainda campeão por mais duas temporadas consecutivas.

“Existem grandes jogadores que não têm um impacto além do seu esporte. E há também certas figuras que se tornam uma força cultural maior”, destaca um dos mais célebres moradores de Chicago, Barack Obama, ao final do último episódio. de “Arremesso final”.

“Michael Jordan ajudou a criar um jeito diferente de pensar sobre os atletas afro-americanos, um jeito diferente de as pessoas verem a parte atlética como parte do entretenimento. Ele se tornou um embaixador extraordinário, não apenas para o basquete, mas para os Estados Unidos como parte da cultura estadunidense que se espalhou pelo mundo. Michael Jordan e os Bulls mudaram a cultura”, completou o ex-presidente.

De fato, existe um basquete antes e depois de Jordan, tanto dentro da quadra, quanto fora dela. MJ fez pela NBA o que ele fez pela Nike e tantas outras marcas que defendeu. Mas, por que ele não fez o mesmo pelo movimento negro nos Estados Unidos?

“Republicanos também compram tênis”

No meio da década de 90, o jornalista Sam Smith publicou que Michael Jordan não era muito político e teria dito a alguém próximo que “republicanos também compram tênis”, dando a entender que ele não se envolveria, já que ambos os lados são consumidores dos seus produtos.

A fala foi muito repercutida em todas as mídias locais na época. Ela se referia mais especificamente à corrida pelo senado, em 1990, na Carolina do Norte, terra natal de Jordan. O democrata Harvey Gantt, primeiro prefeito negro de Charlotte, disputava contra o republicano Jesse Helms, um racista até o final de seus dias; Gantt poderia ser então o primeiro senador negro da Carolina do Norte.

Embora a disputa tenha sido bastante focada na questão racial, com Helms fazendo anúncios sobre o seu adversário ser a favor das cotas raciais – como se isso fosse algo horrível e injusto -, MJ não se posicionou publicamente.

Desta vez, nem a sua mãe conseguiu convencê-lo a mudar de ideia; ele lhe disse que não apoiaria publicamente alguém que não conhece, mas que enviaria uma doação em dinheiro para a campanha.

Na série, ele também explica que a famosa frase “Republicanos também compram tênis” foi dita em tom de brincadeira, só para os jogadores em uma conversa de ônibus.

Eu nunca me vi como um ativista; eu me via como um jogador de basquete. Eu não era um político. Eu estava jogando meu esporte. Eu estava focado no meu ofício”, comenta Jordan. “Isso foi egoísta? Provavelmente. Mas, essa era a minha energia”.

Um pouco antes, em 89, duas noites depois de o Heat cancelar um jogo por causa de manifestações por toda cidade contra a violência policial, o time de Miami enfrentaria o Bulls e os líderes das manifestações garantiram segurança nas ruas enquanto MJ estivesse na cidade.

De acordo com uma publicação do Washington Post de alguns anos depois, a mídia nacional estava na cidade na época e quis ouvir de Jordan se ele tinha alguma mensagem às pessoas nas ruas.

“Seria muito difícil para eu fazer isso porque eu não entendi a situação”, ele disse. “Eu não saberia o que dizer a eles. Eu tive muita sorte de crescer no interior. Eu nunca tive a chance de crescer na cidade. Você odeia ver alguém sofrer e viver na miséria, especialmente com as riquezas que temos nos Estados Unidos. Eu acho que [os manifestantes] se fizeram ouvir. Eu acho que as pessoas começarão a escutar e eu espero que eles possam resolver o problema”.

O escritor Ale Santos publicou em seu Twitter recentemente um entendimento sobre o muito cobrado posicionamento do Neymar perante as ondas de protesto do movimento “Black Lives Matter”/”Vidas Negras Importam” pelo mundo depois do assassinato de George Floyd que pode nos elucidar a questão de MJ.

Anteriormente, quando perguntado sobre a cobrança de posicionamento de jogadores, o escritor já havia dito que é “difícil usar a palavra ‘dever’ e ‘cobrança’ para pessoas que ainda não estão nesse estágio de educação ou de conhecimento ou de discussão”. A jornalista Wanda Chase escreveu algo parecido sobre o Pelé para o site Mundo Negro.

Essa “educação” também deve contemplar a questão emocional; é bastante difícil para qualquer pessoa que sofreu algum tipo de trauma falar sobre ele. E, pode ter certeza, as pessoas negras têm sofrido traumas raciais desde o seu nascimento, como pontua Marcelo Medeiros Carvalho, Diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

“Falar de racismo é lembrar acontecimentos traumáticos, em que muitas vezes essa pessoa negra foi humilhada, desumanizada, tratada como um objeto associado a algo ruim, feio ou violento. Será que estamos prontos todos os dias quando acordamos a visitar nossas dores, lembranças ruins e tristes?”, escreveu ele na Folha.

“Parte da desumanização a que as pessoas pretas é submetida é ser cobrada nesses momentos pra pular no fronte e resolver um problema que a sociedade como um todo não se compromete a resolver. Então, de alguma maneira, isso me diz que a nossa vida continua valendo menos porque nesse momento a gente é lembrado só pra ser a bucha do canhão”, comentou Emicida ao canal MOV Show.

“Se você colocasse o Michael em um detector de mentiras, eu tenho certeza que ele odiava Jesse Helms e pensava que ele era um racista. E eu tenho certeza que ele queria que Gantt ganhasse. […]. Mas, quando você diz coisas publicamente, todo mundo dissecará aquilo e terá uma opinião. Será que você deveria ter feito mais; será que você deveria ter feito menos; será mesmo que você deveria ter feito algo?”, comentou recentemente David Falk sobre o caso.

Eu entendo que Jordan não queira se expor falando sobre uma causa que ele não entende ou mesmo um político que ele não conhece. Eu sou o último a cobrar o posicionamento de alguém sobre algo como se fosse sua função, mesmo que eu ache ideal que o façam; mesmo que eu torça para que o façam.

No entanto, existe muito mais por trás disso que precisa ser contemplado; este posicionamento não é necessariamente fruto de um descaso com a questão racial ou simplesmente uma falta de empatia pela causa.

Neste momento, os esportes talvez sejam a maior esperança de mudança em relação à disparidade racial porque é onde está a melhor chance de informar os [estadunidenses] brancos sobre essa disparidade e motivá-los a agir.

O problema é que essa não é a mensagem que aqueles que lucram com essa disparidade querem que o público escute. Eles tentam silenciar vozes dissidentes nos esportes hoje tanto quanto durante toda a minha vida e antes. […].

Para a América branca, a história dos esportes dos EUA é um gráfico crescente de realizações notáveis de força física e mental. Para a América negra, é isso, mas também é uma consistente linha do tempo de tentativas de silenciar as vozes dos Afro-americanos.

Kareem Abudl-Jabar escreveu para o The Guardian, em 28 de agosto de 2018, em uma série de publicações sobre raça e esportes inspiradas pelas ações de Colin Kaepernick, dois anos antes. [minha tradução]]

Antes de Michael Jordan, atletas negros que foram vocais sobre as questões raciais – Muhammad Ali, Tommie Smith e John Carlos, Jim Brown, o próprio Kareem Abdul-Jabbar – sofreram significantes retaliações, seja na carreira esportista, seja aos olhos do público.

Mais do que isso, se você ficasse em silêncio, como OJ Simpson, com a lendária frase “Eu não sou negro, eu sou OJ”, você teria mais chances de receber os louros da fama, como grandes contratos comerciais e atuações em filmes.

(Pra entender muito bem essa relação do OJ e as questões raciais que sempre o cercaram, vale muito, demais mesmo, ler a aula em forma de texto da historiadora Suzane Jardim, “Dissecando relações raciais através do caso OJ Simpson”. Aliás, se você for lá e ler todo o texto da Suzane, nem precisa voltar pra terminar este, já vai entender o que eu quis dizer aqui e muito mais.)

Como eu disse, eu gostaria muito de ver atletas engajados socialmente, mas é possível compreender o porquê de a maioria não o ser, especialmente atletas negros na década de 90.

“Eu não soube de nada disso até que o drama tinha terminado. E, desde aquele momento, eu achei que foi uma tempestade em um copo de água”, comentou Harvey Gantt à TIME. “Ele estava tentando construir uma marca. E eu suponho que ele não havia refletido nas implicações do que as pessoas estavam exigindo dele”.

“Honestamente, quando foi reportado que o Michael disse ‘republicanos também compram tênis’, para alguém que, naquele momento, estava se preparando para uma carreira em direitos civis e vida pública, e sabendo o que Jesse Helms significava, você gostaria de ver o Michael pegando mais pesado. Por outro lado, ele ainda estava tentando entender, ‘como eu gerencio essa imagem que foi criada ao meu redor e como eu vivo de acordo com isso?'”, comentou Obama no quinto episódio da série.

“Qualquer afro-americano que alcança um sucesso significativo nesta sociedade tem um fardo adicionado. E muitas vezes, o Estados Unidos abraça rapidamente um Michael Jordan ou uma Oprah Winfrey ou um Barack Obama desde que fique entendido que você não se tornará muito controverso nas questões de justiça social”, completaria ele.

Essa questão fica ainda mais explícita se analisarmos casos como o da Nina Simone, na década de 60, que teve sua carreira extremamente prejudicada depois que se associou ao movimento pelos direitos civis, ou, mais recentemente, da própria Beyonce, em 2016, quando, em um mesmo final de semana, lançou “Formation” e se apresentou no intervalo do SuperBowl, ambas aparições com inúmeras mensagens contra a violência policial e relacionadas ao Black Lives Matter.

Embora tenha demonstrado abertamente seu voto em Barack Obama, a cantora não costumava ser vocal sobre racismo; por isso, “chocou” os Estados Unidos com seu coquetel de negritude.

Entre vários protestos, a polícia chegou a ameaçar um boicote na segurança dos shows da cantora. Até o SNL fez uma paródia sobre como a “América branca” enlouqueceu no dia que a Beyonce “se tornou negra”.

“O que acontece no presente momento com Beyoncé, e que já havia acontecido antes com inúmeros outros artistas negros, a exemplo de Nina Simone, é uma estória velha como a da escrava Isaura. É a estória da sociedade eurocêntrica e racista em que vivemos, na qual um homem ou uma mulher negros não podem abraçar sua negritude e sentir orgulho de serem quem são sem que a sociedade branca sinta-se ofendida”, escreveu Lucas Moraes Santos, publicado na época no portal Geledés.

“Como quase 100% dos meios de comunicação estão nas mãos dessa gente [a elite branca], Beyoncé e demais figuras negras que possuem alguma influência e poder político nos EUA devem se preparar pro bombardeio”, escreveu Carlim, no Oganpazan.

O próprio OJ Simpson, responsável por boa parte da “boa vontade” da América branca perante atletas negros, de acordo com o Washington Post, deixou explícito o quanto esse sentimento é condicional quando a NBC interrompeu a transmissão do 5º jogo da final da temporada 93-94 da NBA, entre o Rockets, de Hakeem Olajuwon, e o Knicks, de Patrick Ewing, para mostrar a perseguição policial ao Ford Bronco de OJ.

De uma publicação na revista People, em 75, que o considerou algo como “o primeiro atleta negro a se tornar um superastro de boa fé que poderia ser amado pela mídia”, não só desconsiderando, mas também criticando predecessores como Ali e Jim Brown, OJ se tornou uma “tragédia americana” na capa da TIME, pouco mais de uma semana depois do ocorrido, em 94, com a sua foto na delegacia curiosamente escurecida.

De acordo com a matéria do Post já citada, que trouxe também a lembrança dessa capa da TIME, “a perseguição ao Bronco forçou os Americanos não apenas a lutar com o aumento da probabilidade da culpa de Simpson, mas também a reconhecer que, talvez, ele não era quem eles pensaram que era. […]. Ele era O.J. e ele era negro”.

“A perseguição não apenas interrompeu as finais da NBA – também desestabilizou o conforto que a América branca havia desenvolvido pelos atletas negros”, completaria a matéria.

Ou seja, embora exista uma pressão de um lado para que celebridades negras falem sobre racismo, fica bem claro que existe também uma ameaça para que não o façam, para que não se reconheçam e não sejam reconhecidas como negras, pois isso as deixará ainda mais expostas a boicotes, retaliações e até violência.

É verdade que isso não afetou tanto assim a Beyonce que, em seguida, levou sua turnê “Formation” por Estados Unidos, Canadá e Europa, Aliás, a tour foi considerada “a melhor da década“. Mais do que isso, a cantora foi listada como a “mulher mais bem paga da música em 2017“, pela Forbes.

Porém, como em tantos outros quesitos, Beyonce é uma exceção; o estigma é real. Os exemplos de personalidades negras que tiveram sua carreira ofuscada por serem ativistas do movimento negro são maiores do que as que não foram afetadas por isso.

Ainda mais se voltarmos até o início da década de 90. Michael Jordan podia até já ser um dos melhores jogadores da NBA, mas não havia ganhado título algum ainda; é compreensível que, de certa forma, ele se sentisse acuado e não quisesse se manifestar publicamente.

Cobrar que os atletas das principais ligas do mundo arrisquem suas carreiras por suas crenças como fez Muhammad Ali ou Colin Kaepernick é tão injusto quanto cobrar que todos os jogadores negros da NBA se destaquem de maneira tão proeminente como Michael Jordan.

Infelizmente, a nossa sociedade tende a punir veementemente quem protesta – a não ser que você seja a favor do governo. E eu entendo que ao perder tudo por protestar, a pessoa possa se sentir traída ou pessoalmente atacada quando outra pessoa na mesma posição se cala.

Eu diria que isso acontece em boa parte dos movimentos sociais e é (ou era, pelo menos, na época que eu estudei isso) uma das principais críticas dos ativistas que iam às ruas, por exemplo, contra o “ativismo de sofá”, o ativismo quase sem exposição da Internet – quem faz mais geralmente tende a achar que quem faz menos, não faz o suficiente.

A real é que a frase “republicanos também compram tênis” marcou a carreira de Jordan. É uma fala problemática porque, mesmo que parta de uma piada, demonstra uma triste arrogância que é facilmente assimilada pelo imaginário popular, já que corrobora com a de um astro extremamente competitivo e individualista.

Porém, eu acredito que a cobrança que ainda se mantém até hoje se deva mais à sua fala do que suas ações. Até porque, na mesma época, ele também não foi muito vocal sobre as agressões da polícia a Rodney King – por mais que Craig Hodges, colega de Bulls, provavelmente tenha perdido sua carreira cobrando seu posicionamento – e isso é raramente lembrado.

De qualquer jeito, de lá pra cá, MJ se tornou muito mais ativo.

De acordo com o The Undefeated, em 96, quando Gantt concorria novamente contra Helms, MJ realizou um evento de angariação de fundos para a campanha em seu restaurante, em Chicago; em 2012, ele foi o anfitrião de um desses eventos para Obama, no qual arrecadou 3 milhões de dólares.

Em 2000, ele chegou até a gravar um vídeo apoiando Bill Bradley nas primárias do partido Democrata. Ainda de acordo com a matéria, Jordan tem supervisionado contratações e promoções de executivos negros na Nike, no Charlotte Hornets, sua franquia na NBA, na marca Jordan e em outros de seus negócios.

De acordo também com o The Undefeated, hoje, o “Hornets tem mais pessoas de cor [não-brancas] em posições de destaque do que qualquer outra organização em qualquer grande esporte na América do Norte”.

“Eu fui criado por pais que me ensinaram a amar e respeitar as pessoas independente de sua raça ou passado, então eu estou triste e frustrado pela retórica divisiva e tensões raciais que têm ficado cada vez piores ultimamente. Eu sei que este país é melhor que isso e eu não posso mais ficar em silêncio”, comentou ele ao The Undefeated, em 2016, ao anunciar a doação de 1 milhão de dólares para duas organizações com intuito de combater a violência policial. Neste momento, ele era o único negro dono majoritário de uma franquia da NBA.

Em 2018, quando LeBron James, considerado o melhor jogador de basquete da atualidade e um dos melhores de todos os tempos, foi criticado por Donald Trump em um tuíte, que ainda dizia “Eu gosto do Mike!”, como se este fosse o oposto daquele, Jordan comentou através de sua assessoria que apoiava James. “Ele está fazendo um trabalho incrível por sua comunidade”, completou.

Mais recentemente, em meio aos protestos nos Estados Unidos após a morte de George Floyd, MJ desabafou em comunicado dizendo que estava “com muita raiva” e pedia mudanças sistêmicas. “Eu estou do lado daqueles que se opõem ao racismo e violência arraigados contra pessoas de cor em nosso país. Basta”, disse.

Ele e a Nike, através da Jordan Brand, anunciaram que doarão 100 milhões de dólares nos próximos 10 anos para “organizações dedicadas a garantir a igualdade racial, justiça social e maior acesso à educação”.

De acordo com Harvey Gantt, “talvez ele tenha percebido que quer sim um envolvimento mais ativo, que ele tem um microfone enorme para usar estrategicamente ou dizer coisas que podem influenciar as pessoas”.

“O protesto é show”

O momento é outro também. Pode ser que todo esse novo pensamento de MJ seja reflexo de uma mudança da própria sociedade, que hoje cobra muito mais dos seus artistas e influenciadores.

Mais do que isso, a própria NBA hoje entende que é um caminho sem volta. “Todos os CEOs, todas as grandes corporações hoje em dia realmente não têm escolha”, disse à CNN o comissário da Liga, Adam Silver. “É uma expectativa de seus consumidores que eles se posicionarão”.

“Eu acho que hoje, você realmente precisa defender algo”, complementa Silver.

É claro que ainda existem muitos problemas, mas a NBA, principalmente nos últimos anos, parece dar muito mais liberdade a seus atletas do que outras ligas profissionais, além de se posicionar mais abertamente contra preconceitos.

Vale lembrar que, em 2014, o ex-dono do Clippers, Donald Sterling, foi banido por comentários racistas e recebeu uma multa de 2,5 milhões de dólares. Mais recentemente, em 2017, a Liga tirou o All-Star Game de Charlotte por causa de uma lei local discriminatória à comunidade LGBTQI+.

Isso também influencia os novos jogadores que parecem entrar na NBA muito mais preparados pra lidar com seu posicionamento político e a luta contra o racismo. O próprio LeBron James já criticou Trump em outras oportunidades e tem sido cada vez mais vocal.

No entanto, como escreve o jornalista Jesse Washington, “James não é possível sem Jordan. A liberdade econômica de James foi vencida por Jordan. A influência de James sobre os donos da NBA, seu alcance global, seu bilionário contrato vitalício com a Nike – tudo isso tem como base o sucesso sem precedentes de Michael Jordan”.

É impossível negar que MJ não fez tudo que podia em defesa dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, pelo menos não enquanto esteve no topo do mundo. Muitos o criticam com uma vasta gama de fatos e propriedade pela falta de participação vocal em questões cruciais dessa luta – Kareem Abdul-Jabar, por exemplo, disse publicamente que “ele escolheu o comércio ao invés da consciência. É uma lástima para ele, mas ele tem que viver com isso”.

No entanto, é possível argumentar que, observando os casos de estrelas que tiveram suas carreiras comprometidas pelo posicionamento na questão racial, não ter sido vocal nessas questões facilitou para a imagem de Jordan circular em todos os meios de maneira sem precedentes, o que o tornou uma figura global tão representativa e abriu inúmeras portas para outros atletas, principalmente atletas negros, brilharem, tanto no esporte quanto nos negócios.

Seus defensores ao longo dos anos têm argumentado que Jordan não teve que entrar na briga dos direitos civis e respeito mútuo que muito de seus socialmente conscientes predecessores tiveram, nos anos 60 e começo dos 70s. Eles dizem que a habilidade de Jordan em acumular riqueza e poder mesmo depois de seus dias de jogador foi o degrau seguinte de ativismo para o atleta negro: o desenvolvimento de um projeto econômico que continha ser dono de uma franquia da NBA. E com essa riqueza e poder vieram a habilidade de não apenas advogar, mas de tomar atitudes.

Mike Wise, Jerry Bembry e Martenzie Johnson pro The Undefeated, em 25 de julho de 2016. [minha tradução].

Tem uma linha do Mano Brown em “Mil faces de um homem leal” que eu sempre gosto de lembrar: “Eu peço: leia os meus verso e protesto é show, prestenção que o sucesso em excesso é cão”. No meu entendimento, em meio a uma música que fala sobre um revolucionário do tamanho de Carlos Marighella, o rapper traça um paralelo sobre como os versos do Racionais e as suas apresentações também são uma forma de protesto.

O Kamau complementou em uma entrevista que fizemos, “colocou uma letra dessas na casa de milhões de pessoas que discordam ou que nem mesmo sabiam quem é Marighella. Se isso não é revolucionário então eu entendi errado quando cheguei”.

É claro que o rap é, naturalmente, vocal e é até esperado que seja mais adepto a protestar diretamente. Porém, do mesmo jeito que é possível traçar um paralelo entre alguém que protesta pegando em armas, como Marighella, e alguém que protesta pegando em microfones, como Mano Brown, acredito que não seria um absurdo traçar um paralelo semelhante entre este e alguém que protesta pegando em uma bola de basquete, como Michael Jordan – principalmente quando falamos sobre o futuro de jovens negros.

Do mesmo jeito que Washington ressalta que não existiria James sem Jordan, Kobe Bryant também afirma que não existe discussões sobre ser melhor do que MJ, pois “o que você recebe de mim é dele; eu não teria sido 5 vezes campeão sem ele“.

O próprio LeBron já comentou em diversas ocasiões sobre a importância de MJ para a sua carreira, chegando até a dizer que ele é uma das pessoas que encontrou que mudaram a sua vida, num patamar de importância equiparado ao de encontrar a sua esposa – e Jay Z, ele acrescentaria depois.

“Como um garoto que estava crescendo em Akron, Ohio, todas as dificuldades para ultrapassar, você quer uma inspiração; você olha para qualquer inspiração que possa ter. E geralmente pessoas dos esportes profissionais ou da música é que te dão essa inspiração, que fazem você acreditar que pode ser o que quiser ser”, relembrou o jogador em uma publicação do Uninterrupted resgatada pela ESPN.

Michael Jordan era ‘o cara’, era como um anjo e eu o usava para superar os dias difíceis que tinha. As pessoas me diziam ‘você só tem 9 anos’, mas até nessa idade você tem dias difíceis crescendo como cresci. Toda a oportunidade que tinha de ver o Mike na TV, me dava um impulso de vida; me fazia sentir que eu poderia sair dessa situação. Então, quando ele decidiu se aposentar, depois de vencer o terceiro título, na final contra Phoenix, eu me senti sem saber o que fazer. E não tenho palavras agora tentando me lembrar com 9 anos de idade. ‘Ok, sem Mike, o que farei agora? Quem será minha inspiração?’

LeBron James ao Uninterrupted, em 18 de maio de 2020.

“Assim como existiram os melhores antes dele, ele pegou a tocha e iluminou o mundo. Meu filho sabia o nome dele completo quando tinha 3 anos. Ele inspira crianças; elas querem saber sobre ele, a história, os números e como ele conseguiu. Elas sabem que muitos dos caras que jogam hoje se beneficiaram por fazer este mesmo estudo sobre ele”, comentou o Nas à Sports Illustrated.

Michael Jordan mudou a forma como o basquete foi jogado pelas gerações seguintes e, consequentemente, inspirou inúmeros atletas – o The Undefeated e a ESPN o colocaram em primeiro numa lista de jogadores que mudaram o jogo.

A gente costuma dizer que o Hip Hop salva vidas; que, principalmente, os jovens negros encontram no hip hop uma forma de extravasar, de ser ouvido e de desviar de caminhos mais sombrios.

Mesmo sem as linhas de protesto e a instigação do conhecimento através das letras, o esporte faz o mesmo e de maneira muito mais amplificada.

São incontáveis os projetos que utilizam do esporte como atividade para socializar jovens e adolescentes, para lhes ensinar sobre disciplina e dar algum tipo de perspectiva na vida, assim como são incontáveis os atletas profissionais que saíram desses projetos.

Talvez, Michael Jordan não seja exatamente um exemplo de pessoa. Fora as questões do seu vício em apostas, ele demonstrou em “Arremesso final” ser extremamente competitivo, individualista e, por várias vezes, um péssimo colega de equipe.

Entre “Jesus negro” e “ícone capitalista“, talvez pendesse mais pro segundo.

No entanto, se existe alguém que pode demonstrar os benefícios de encarar um objetivo com foco máximo e disciplina, principalmente para um grupo de jovens desacreditados que sempre foi pouco representado nos mais diversos setores de excelência, este alguém é Michael Jordan. Não à toa, ele figura a lista dos 44 mais influentes estadunidenses negros da história, do The Undefeated.

“Sonhar, para um povo que muitas vezes está em busca das condições mínimas e dignas de sobrevivência, pode parecer utopia. Mas é fundamental para desenhar as narrativas do amanhã, disputar espaço, muito além de apenas sobreviver”, dizia um e-mail que recebi recentemente do Alma Preta, escrito pela Nataly Simões.

MJ fez muitos jovens sonharem.

Ele costumava dizer que uma de suas principais inspirações pra entrar em quadra e dar o máximo de si, mesmo depois de tudo que já havia conquistado, era pensar que na arquibancada provavelmente estaria alguém que o veria jogar pela primeira vez, então ele iria garantir que esta pessoa voltasse pra casa sabendo que viram o seu melhor.

Deu certo. Inspiração pra milhões, Michael Jordan com uma bola de basquete salvou mais moleques que qualquer projeto social. Seu grande protesto sempre foi sua arte, seu show, mas na quadra.

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