Em 2016, em uma partida da pré-temporada (amistosa), Colin Kaepernick, então quarterback do San Francisco 49ers ficou sentado durante o hino nacional. Ao final da partida, ele disse que o fez porque não irá se “levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime pessoas negras e pessoas de cor. Pra mim, isto é maior que futebol e seria egoísta da minha parte olhar para o outro lado [fingir que não vi/não sabia]”.

Se você tomar como base toda a tensão racial que existe no Estados Unidos e que foi amplificada nos últimos anos e as problemáticas levantadas (principalmente) pelo movimento Black Lives Matter, fica fácil de entender o protesto de Kaepernick. Pacifista até umas horas, vamos combinar.

Mas, do mesmo jeito que foi criado um movimento All Lives Matter para descaracterizar o Black Lives Matter, o protesto do atleta – que 3 temporadas antes havia levado seu time ao Super Bowl, feito uma partida incrível e, mesmo com a derrota, sido considerado uma ótima promessa para o futuro da equipe – foi rapidamente considerado antipatriota, traidor e desrespeitoso para com os militares por estar quebrando o “código da bandeira”.

Ao final da temporada, Kaepernick se tornou um “free agent”, um atleta sem vínculos com clubes, podendo assinar com quem quisesse (uma prática comum na NFL). E é aqui que o cheiro de podridão da NFL começa a ser sentido: o quarterback nunca mais foi contratado por time algum.

Tudo bem, ele não era um Messi/Cristiano Ronaldo pra todos os times terem interesse; ele não era nem o melhor na sua posição. No entanto, ele provavelmente estava entre os 15 melhores (da sua posição), o que deveria, pelo menos, lhe garantir uma vaga de suplente.

Pra dar uma ideia, de acordo com o The Undefeated, 85 quarterbacks (não inclusos as escolhas de draft e jogadores que renovaram com seus times atuais ou foram promovidos) foram contratados desde que Kaepernick saiu do 49ers; entre outras bizarrices, havia quem não jogava desde 2013 e quem não durou uma semana no time que o contratou.

Teve maluco “voltando da aposentadoria” sendo contratado! O “desprezo” por Kaepernick, como a matéria da ESPN pontua, já seria evidente com essas informações, mas essa é apenas a ponta do iceberg.

Desde o primeiro protesto, muitos outros se sucederam, não apenas do próprio Colin, mas também de outros jogadores que se juntaram a ele de outros times e até de outros esportes, como essa linha do tempo mostra em detalhes.

Na temporada seguinte, os protestos voltaram a acontecer, mas com um pequeno diferencial: Donald Trump. Em um discurso inflamado, o presidente dos Estados Unidos “sugeriu” que os donos da NFL demitissem “o filho da puta” que protestasse. Na rodada seguinte ao discurso, choveram protestos de atletas e times inteiros.

No entanto, é preciso notar que a maioria desses protestos foram relacionados à fala de Trump e não à causa iniciada por Kaepernick. Muitos times optaram por ficar de pé com os braços entrelaçados como forma de apoio à liberdade de expressão dos jogadores, contrários ao discurso intimidador do presidente.

A atitude até foi elogiada por Trump em um mesmo tweet que ele reiterou o quanto as ajoelhadas não poderiam continuar sendo permitidas e que os números da NFL (na televisão) estavam caindo.

Aliás, tweets atacando os protestos não faltaram de 2017 pra cá no perfil de Donald Trump. Rolou até de o vice Mike Pence deixar o estádio após protestos durante o hino nacional da partida entre o Indianapolis Colts e o próprio 49ers, ex-time de Kaepernick – logo após, Trump apareceu no Twitter o congratulando por executar tão bem um pedido seu.

No entanto, tudo não passou de jogada de marketing. Era óbvio que os jogadores do 49ers iam protestar durante o hino – pelo menos um jogador do time havia protestado em todos os jogos desde o primeiro protesto de Kaepernick. Pence foi ao jogo apenas para boicotá-lo e Trump ganhar mídia com isso – a brincadeira custou aos cofres públicos quase 250 mil dólares, de acordo com a CNN.

Trump fez de tudo para atacar a Liga. Enquanto continuava mandando ver nos tweets sobre a queda nos números televisivos, ameaçou até cortar a isenção de impostos da NFL enquanto os protestos continuassem. Embora ambas as ações sejam apenas mais uma cortina de fumaça – os números da NFL não tiveram tantas alterações com os protestos e a NFL já vinha, voluntariamente, pagando esses impostos desde 2015 -, as aparências impactam muito no valor das ações dos times no mercado financeiro e, consequentemente, nos bolsos dos compradores dessas ações.

Não demorou muito para que os donos dos times mudassem seus discursos. Jerry Jones, dono do Dallas Cowboys, uma das maiores franquias do esporte mundial, que havia entrelaçado braços, duas semanas depois estava dizendo que seus jogadores se levantariam para o hino e que quem “desrespeitasse a bandeira” não iria para o jogo.

A própria NFL tentou mudar suas regulamentações para 2018. O novo regulamento dizia que os times seriam multados se os jogadores que viessem a campo sentassem ou ajoelhassem durante o hino – tudo bem se eles “escolhessem” ficar nos vestiários e “desrespeitassem o hino invisivelmente” (apenas uma ironia para questionar se é realmente sobre desrespeitar a bandeira ou a visibilidade de um protesto contra a violência contra negros). O sindicato dos jogadores bateu de frente e a proposta está congelada até o momento.

Em depoimento (sob juramento) para o caso de Colin Kaepernick – que processou a NFL por colusão, alegando que os times tinham se juntado para não contratá-lo -, Stephen Ross, dono do Miami Dolphins, disse que “apoiava totalmente os jogadores até que Trump fez suas declarações”, segundo o Wall Street Journal. Ao dono do Cowboys, por telefone, o presidente teria dito que “essa é uma questão muito forte para mim. Diga a todos, vocês não podem vencer essa. Essa me move”.

Segundo o advogado de Kaepernick, Mark Geragos, “os técnicos testemunharam sob juramento que ele é um quarterback titular, e isso não dá pra entender […]. Quando você os pergunta especificamente por que ele não é contratado, […] eles dizem que é por causa das políticas do hino nacional”.

Como bem escreveu Les Carpenter, no The Guardian, “a NFL ficou ao lado de seus jogadores afro-americanos… até que seu dinheiro foi ameaçado”. Embora Trump tenha dito que “em momento algum mencionou raça“, é difícil não conectar aquele “tire esse filho da puta do campo” com “tire aquele negro filho da puta do campo” quando quase 70% dos jogadores da NFL são negros e os protestos durante o hino foram majoritariamente feitos por minorias (iniciados por um jogador negro em defesa de negros); vale relembrar o tweet elogioso que ele fez do “protesto” com a participação de jogadores brancos e donos de times.

Ainda mais quando semanas antes ele havia passado um panaço pros neo-nazistas de Charlottesville ao dizer que “existiam muitas pessoas boas” ali, como bem lembrou Eric Reid, colega de Kaepernick no 49ers, o primeiro a se juntar aos protestos e um dos que continuaram se ajoelhando após a saída do ex-colega.

A primeira vez que Eric Reid e Colin Kaepernick se ajoelharam juntos, em 1º de setembro de 2016. (Michael Zagaris/San Francisco 49ers/Getty Images)

Aliás, Reid é peça-chave para o desfecho dessa história. Ele também processou a NFL por conluio antes do início da temporada, quando havia sido procurado por nenhum time após seis semanas do mercado ter aberto – ele jogou 69 dos 70 jogos em seus 5 anos de 49ers, inclusive um Pro-Bowl.

E o caso do safety (jogador que atua às costas da sua defesa no futebol americano) é ainda mais obscuro do que o de Kaepernick. Ele teria muito mais chances de ser contratado porque, normalmente, uma defesa joga com dois safeties e como bem escreveu Mike Jones no USA Today, “não tem chance de todos os 32 times terem não um, mas dois safeties iguais ou melhores que o Reid”.

Então, o que os donos dos times da NFL fizeram para não contratá-lo nesse meio-tempo e ainda assim não parecer que estão em conluio? Eles desvalorizaram todo o mercado da posição! É como se dissessem que a posição não é assim tão importante, que é fácil repor qualquer peça, sendo que as escolhas técnicas atuais mostram o contrário: a preferência por jogadores cada vez mais rápidos e inteligentes, no sentido de conseguirem ler a jogada e se anteciparem a ela.

Depois de uma temporada que se iniciou com contratos de mais de R$10 milhões por ano para safeties, os melhores da última abertura de mercado esperaram por meses sem conseguir quase nada. Nos 45 do segundo tempo ou até mesmo quando a temporada já havia começado, é que alguns receberam contratos; a maioria não passou de 2 milhões por ano, somados benefícios.

Este foi o caso de Reed, que assinou com o Carolina Panthers após um de seus principais safeties ser colocado na lista de machucados. Em sua primeira partida após a volta, ele novamente se ajoelhou durante o hino nacional.

Eric Reid se ajoelha durante o hino em sua volta à NFL, agora pelo Carolina Patnehrs.

Mesmo tendo assinado com um time, o jogador manteve o seu processo contra a NFL. E algumas coisas estranhas têm acontecido com ele nessa temporada: ele já foi expulso de uma partida em uma jogada duvidosa; foi multado por uma falta que o adversário também cometeu, mas este não foi multado; uma interceptação revogada de forma duvidosa, que fez até o astro da NBA Stephen Curry (torcedor do Panthers) questionar no Twitter; em 11 jogos que fez na temporada, ele foi escolhido 7 vezes para o exame antidoping (o teste é obrigatório pelo menos uma vez na temporada, que deve ter sido feito antes de ela começar; ele nunca foi testado positivo, então não seria um fator de desconfiança).

Embora tudo isso possa ser uma grande coincidência, é uma daquelas bem difíceis de acreditar – principalmente a parte das constantes chamadas para o antidoping que, neste caso, de acordo com o professor de matemática Nick Kapoor, teriam 0,195% chances de acontecer randomicamente; a mesma chance de você tirar “cara” 9 vezes seguidas.

Mesmo que seja bastante improvável que não haja algo premeditado acontecendo com Colin Kaepernick e Eric Reid, as chances de conseguirem realmente provar a colusão em seus processos contra a NFL são pouquíssimas – embora a justiça tenha negado o pedido da Liga de dispensar o caso, ou seja, o caso do quarterback tem provas suficientes para, pelo menos, ir a julgamento.

Reid voltou a jogar e depois de uma boa temporada talvez receba um contrato decente para a próxima. No entanto, é provável que Kaepernick nunca mais pise em um gramado pela NFL. Mesmo que ganhe o seu processo, o máximo que acontecerá é que receba uma grana; a justiça não poderia obrigar time algum a contratá-lo.

E eu acho que todo esse caso meio que se resume a isso mesmo: Colin Kaepernick abdicou do sonho de uma vida para protestar contra o racismo. Será que eu teria essa coragem toda? Será que ainda somos daqueles que encontram razões para lutar até o fim? Eu dei um pouco dessa ideia no texto que fiz sobre a execução da Marielle Franco.

É bem verdade que, neste momento, o jogador não corre tanto risco de morte quanto Marielle, mas ele já recebeu inúmeras ameaças. “Se eu for morto, vocês provaram meu ponto”, ele respondeu. Martin Luther King Jr. disse que se você não encontrou algo pelo qual você daria a vida, você não viveu de verdade.

Eu não sei até que ponto Kaepernick levará a sua causa e que resultados diretos ele conseguirá pela diminuição da violência dos policiais contra negros, mas ele definitivamente já desencarrilhou uma enormidade de questionamentos; a maioria deles na direção da NFL, mas acredito que tem um pouco para todo mundo.

Kaepernick foi considerado um traidor e “expulso” da Liga por se ajoelhar durante o hino, sendo que esta tem problema nenhum com, por exemplo, Ben Roethsliburger, quarterback do Pittsburgh Steelers, duas vezes acusado de assédio sexual, que recebeu apenas 4 jogos de suspensão em 2010 e hoje é um dos mais bem pagos.

A questão racial na NFL que Kaepernick ajudou a impulsionar fez jornalistas questionarem a aplicação da “Rooney Rule”, uma regra criada para diminuir a diferença de técnicos brancos e negros que diz que os times precisam entrevistar pelo menos um candidato de minoria antes de tomar a decisão. Hoje, apenas 25% dos técnicos principais são considerados minorias – vale explicar que os times da NFL possuem 3 “técnicos de destaque”: o técnico principal (head coach), o coordenador de ataque (offensive coordinator) e o coordenador de defesa (defensive coordinator).

E esse é pra ser um bom número! O número de técnicos principais e coordenadores defensivos considerados minorias está subindo, o de coordenadores ofensivos está diminuindo. De acordo com Jack Moore and Daniel Levitt, do The Guardian, nos 32 times, apenas 1 tinha um coordenador de ataque considerado minoria, enquanto 12 dos de defesa o eram; dos 8 técnicos principais considerados minorias, 6 vêm da defesa. Em compensação, dois terços dos técnicos principais do resto da Liga vêm do ataque.

A quantidade total é baixíssima, de fato, mas a explicação dessa diferenciação entre ataque e defesa é ainda mais triste: a proporção de jogadores considerados minorias nas posições de defesa e de ataque são quase as mesmas encontradas entre técnicos. De acordo com o Instituto de Diversidade e Ética no Esporte (Tides), em 2014, em cada uma das posições de defesa, 74% dos jogadores eram negros; só as posições de “wide receiver” e “running back” tinham números semelhantes no ataque.

Nas outras 5 posições ofensivas que o relatório registrou, pelo menos 40% dos jogadores eram brancos (vale lembrar que quase 70% dos jogadores da NFL são negros). E esse número se manteve consistente em todos os anos que esse registro foi feito (últimos 15). Considerando que é bastante comum um ex-jogador se tornar técnico ou coordenador, não é tão chocante ver essa disparidade entre os jogadores se refletindo no posicionamento dos técnicos e coordenadores.

Calma, a parte realmente triste a qual eu me referi ainda tá pra chegar. Ainda de acordo com Moore e Levitt, “ainda que você não verá olheiros dizendo que a raça importa em quem é draftado pra qual posição, a maioria dos fãs de futebol, das ligas juvenis até a NFL, tem uma ideia de quais atributos os jogadores de cada posição devem ter. Wide receivers precisam de velocidade e altura; running backs precisam de arranque e força; quarterbacks precisam de sagacidade e inteligência; centers precisam ser o cérebro da linha ofensiva. A maioria é empurrada a esses papeis antes mesmo da NFL saber que eles existem”.

Um técnico principal de uma universidade dos Estados Unidos disse ao The Undefeated que não consegue lembrar a última vez que viu um cornerback (posição de defesa que, de forma resumida, marca o wide receiver e, consequentemente, precisa do mesmo atleticismo) branco nos times de ensino médio. Não é uma coincidência que o último jogador branco nesta posição na NFL tenha jogado em 2003.

De acordo com o conceito de centralidade que o sociólogo Dr. Harry Edwards apresenta no livro “Sociology of Sport” – que os jogadores de maior importância, aqueles que tocam mais na bola e tomam as decisões, jogam nas posições mais centrais – a explicação para toda essa divisão está na percepção que os olheiros e tomadores de decisão das ligas de futebol americano têm de brancos e negros.

Como Moore e Levitt apontam, “as duas posições com maior representação branca são as duas que lidam mais com a bola e as decisões de ataque: quarterbacks e centers, com brancos somando mais de 80% em cada uma delas. Afaste-se um pouco mais da bola e das tomadas de decisão e progressivamente menos brancos aparecem”.

Ou seja, existe uma percepção de força e velocidade nos jogadores negros, mas não existe tanta confiança assim para que sejam considerados líderes ou até mesmo jogadores inteligentes em campo, que saibam o que fazer com a bola.

Aliás, é possível trazer ainda mais fatos para esse pensamento. Foi criado um banco de dados com as palavras ditas em avaliações dos jogadores prestes a serem draftados, em 2014, no site da NFL, da ESPN e da CBS. Eles separam os resultados em jogadores negros e brancos e na quantidade de vezes que a palavra em questão aparece a cada 10 mil palavras.

A palavra “líder”, por exemplo, é usada 7,5 vezes para jogadores brancos, enquanto que 3,4 vezes para negros; “esperto” e “inteligente”, 6,2 e 3,5 vezes para brancos, respectivamente; 3,3 e 0,7 vezes para negros. Já palavras como “agressivo” (no sentido de quem ataca com vontade), “disciplinado” e “disruptivo” aparecem 5,8, 2,8 e 1,4 vezes para jogadores negros, respectivamente, enquanto que, para jogadores brancos, aparecem 2,3, 1,1 e 0,3 vezes.

Todo mundo adora falar da meritocracia do esporte, mas até aqui ela é uma falácia; é impossível chegar a qualquer lugar apenas pelo mérito quando já existe um conceito tão grande formado anteriormente. A intenção de Kaepernick era protestar a violência policial contra negros, mas muitas outras questões emergiram.

Guardadas as devidas proporções, o ex-quarterback do San Francisco 49ers lembra Muhammed Ali, que perdeu todos os seus cinturões que havia vencido e foi até preso por se recusar a ir à Guerra do Vietnã.

“Por que eles deveriam me pedir para colocar um uniforme, ir a dez mil milhas de casa e atirar bombas e balas nas pessoas marrons no Vietnã enquanto as pessoas chamadas de ‘nigger’ em Louisville são tratadas como cachorros e negadas de direitos humanos básicos”, afirmou o pugilista, em uma fala não tão distante da de Colin justificando seu protesto.

É verdade que nos seus 6 anos de contrato, Kaepernick juntou mais grana do que você e eu provavelmente ganharemos na nossa vida toda – a não ser que você seja realmente rico; nesse caso, oi, vamos ser amigos?. No entanto, a questão não é dinheiro ou, pelo menos, não deveria ser. Só porque as mulheres de Hollywood ganham milhões significa que o protesto delas por receberem menos que os homens para papéis de igual importância é menos válido?

Definitivamente, não. Até porque, uma vitória no alto escalão, seja da NFL, seja de Hollywood, pode reverberar por toda pirâmide. Por causa dos poucos que se destacam e “jogam” seus milhões na nossa cara, temos a impressão que todos jogadores da NFL e todos atores/atrizes de Hollywood não precisam mais trabalhar depois do seu primeiro jogo ou primeiro filme. É só impressão. A quantidade destes e daqueles que tão se matando pra conseguir fechar um salário é enorme.

No caso dos jogadores da NFL, “se matando” é realmente uma boa escolha de palavra. Mesmo que você tenha realmente se destacado e conseguido um contrato de milhões de dólares, basta você se machucar e pronto, já era: os contratos assinados na Liga não costumam ser garantias de nada. E se machucar é nada raro, de acordo com um Estudo da Saúde dos Jogadores de Futebol Americano da Universidade de Harvard, os jogadores da NFL têm quase 5 vezes mais chances de se machucar em uma partida do que os jogadores das ligas dos outros esportes estadunidenses (NBA, MLB, NHL) somados. Além disso, de acordo com o Wall Street Journal, a duração média de uma carreira na NFL atualmente é de 3 anos.

A vitória de Kaepernick nos tribunais pode dar aos jogadores vantagens para negociar com a NFL melhores situações contratuais entre outros benefícios. A atitude de Kaepernick perante todas as pressões contrárias com certeza inspirou e continuará inspirando um incontável número de jovens que precisam aprender desde cedo as injustiças da nossa sociedade.

E a tendência é que ele não pare por aí. Além de já ter recebido pelo menos 6 prêmios por sua luta, incluindo “Cidadão do Ano” da GQ Magazine, o jogador estrelou e narrou a campanha publicitária mais comentada do ano passado, pela Nike.

O comercial traz atletas do calibre de Serena Williams e LeBron James, mas ainda assim ele é a personificação de Kaepernick. “Acredite em algo mesmo que isso signifique sacrificar tudo” é a mensagem do jogador e ela é poderosíssima. Ela é real pra quase todos os jovens negros que precisam fazer o dobro para serem igualados aos brancos na maioria dos esportes, mas na voz do quarterback ela ganha um peso ainda maior pelo seu sacrifício ser tão recente.

E o apoio da Nike é bastante bem-vindo. Mesmo com a chuva de protestos, que fizeram as ações da empresa cair mais de 3% nos primeiros dias de veiculação da campanha, ela manterá o apoio a Kaepernick e deve lançar toda uma linha de produtos inspirada nele – LeBron James já deu uma prévia. Dez dias depois do lançamento da campanha, as ações bateram a máxima histórica e as vendas aumentaram em mais de 20% em relação à mesma época no ano passado.

Embora não devamos esquecer que a Nike fez apenas pelo lucro, apoiar Kaepernick neste momento é uma questão delicadíssima, não só pelos protestos contrários que poderiam ter sido muito maiores, mas por ir contra a NFL, que é parceira da marca desde 2012. Se nem colegas de posição – também negros, o que é raríssimo para um quarterback – o apoiaram, seria comum que uma marca também não fizesse. A EA, por exemplo, não teve problema algum em censurar citações ao rapper nas músicas do game “Madden NFL 19”, provavelmente o mais popular do esporte.

O apoio da Nike amplificou o discurso de Colin e é bem provável que ele continue se espalhando por cada vez mais lugares. Embora se diga que seu nome se tornou muito maior do que a causa que referenciou, acho difícil de acreditar que a sequência de suas ações não influenciem novas ondas de protestos e discussões necessárias – como aconteceu com o próprio comercial.

Além de suas próprias ações futuras, acredito que vejamos sua história sendo contada e recontada de vários ângulos em filmes e séries. A diretora de “Selma” e “A 13ª Emenda“, Ava DuVernay, já se candidatou pra ser a primeira a tornar isso realidade em uma série sobre a juventude do garoto negro adotado por pais brancos, que no ensino médio se destacou no basquete e baseball (ele chegou a ser draftado pelo Chicago Cubs em 2009), além é claro do futebol americano.

“Eu acho que suas ações inspiraram tantas pessoas. Eu vejo o que ele fez como arte. […]. Definitivamente, a sua resistência, seu protesto, a maneira como ele conduziu sua vida em suas interações com a NFL têm sido extremamente inspiradoras para mim como uma artista. Extremamente motivadoras e encorajadoras”, descreveu DuVernay à GQ.

Assim como a arte tem seu lado do lazer e o seu lado político, o esporte também tem, embora alguns apresentadores brasileiros teimem em discordar. O campo esportivo é um grande palco em que dezenas, centenas, milhares, milhões e até bilhões de pessoas vão tomar conhecimento das suas atitudes, seja antes, como os protestos durante o hino, seja durante, como os protestos dos jogadores do futebol brasileiro através do Bom Senso FC, seja depois da partida, como os atletas Tommie Smith e John Carlos que ergueram os punhos cerrados no pódio durante o hino nacional, na Olimpíada do México, em 1968 – até mesmo a ausência pode ser considerada um ato político, como Jay Z fez no ano passado e Rihanna fez neste ao recusarem participar do intervalo do Super Bowl.

Em 16 de outubro de 1968, na Cidade do México, Tommie Smith e John Carlos levaram ouro e bronze, respectivamente, na prova dos 200m rasos. (Foto: John Dominis).

Não se sentir representado pelo país em qual nasceu não é uma exclusividade de Kaepernick; outro dia mesmo KL Jay nos lembrou quase palavra por palavra essa ideia. Embora muitos acreditem que parar de diferenciar negros e brancos é a solução para acabar com o racismo, eu não vejo como isso nos ajudará, sendo que é isso que fazemos há tanto tempo.

É preciso mais do que nunca abrir o diálogo sobre o racismo, mas não apenas criticar atitudes racistas, como também todo um sistema que propaga o racismo até em suas concepções mais básicas, como as posições dos jogadores em campo. Estamos carregando ideias sobre os negros formuladas em épocas que os quase centenários donos dos times da NFL eram crianças brancas com escravos.

Talvez, levaremos anos para perceber alguma real mudança na Liga causada pelos protestos de Kaepernick, do mesmo jeito que fizeram com o patologista forense Bennet Omalu, retratado por Will Smith no filme “Um homem entre gigantes” (2015), que foi o primeiro médico a conectar lesões cerebrais encontradas em ex-jogadores da NFL com as inúmeras concussões sofridas nas partidas.

Desde 2005, quando ele publicou seu primeiro trabalho no assunto, os todo-poderosos tentaram desacreditá-lo e, embora em 2013 tenham assinado um acordo de 1 bilhão com as famílias dos ex-jogadores, só afirmaram publicamente haver uma conexão entre o esporte e a doença em 2016.

Seria uma péssima publicidade. Mesmo que a informação fosse verdadeira e que fosse fundamental a aceitação o mais rápido possível para diminuir os danos futuros, era preferível fingir que nada estava acontecendo. Do mesmo jeito que tentaram calar Kaepernick, tentaram calar Omalu.

Assim como Kaepernick, Omalu também perdeu seu trabalho. Assim como Kaepernick, ele ouviu uma enormidade de comentários racistas e provavelmente foi ameaçado em diversos momentos. Assim como Kaepernick, Omalu seguiu em frente com sua luta de forma pessoal, com custos próprios e arriscando tudo.

As lutas de ambos se tornaram maiores do que eles próprios. Não era mais por eles, é por todos que acreditam que “Black Lives Matter”, assim como “Black Brains Matter“.

Embora eu continue achando uma infeliz tradução – o filme original se chama “Concussion” -, é possível rapidamente simpatizar com a escolha quando acrescentamos a importância não só da descoberta do médico e a dificuldade em fazer alguém aceitá-la, mas de enfrentar de igual um combinado de poderosos-chefões sem recuar.

Assim como Kaepernick também enfrentou. Dois homens negros entre gigantes brancos da NFL – e que venha a trilogia.

Não perca mais nenhum post!

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