Ouvimos falar muito pouco sobre Martin Luther King Jr. no dia a dia e mesmo quando há alguma coisa é quase que sempre uma frase de efeito ou um de seus famosos discursos.

Palavras podem realmente inspirar e mudar vidas, mas quase nunca vemos qualquer coisa sobre suas ações. É bem verdade que isso provavelmente aconteça por uma comparação, às vezes até involuntária, com Malcolm X, que era muito mais ação do que qualquer outra coisa.

Por isso, acho “Selma” tão importante. Embora tenham sido raras as vezes que li alguém depreciar MLK por não ter se engajado em certos atos, acredito ser fundamental essa profundidade que  o filme dá sobre as suas atitudes.

Ele não tinha apenas visão e um poder diferenciado no seu discurso (captado perfeitamente pelo ator David Oyelowo), mas era também a ponte necessária com a elite. Alguns têm criticado a maneira como o presidente Lyndon B. Johnson foi retratado, mas eu não duvido nem por um segundo da veracidade da parte em que ele pede pra que o doutor King seja a voz do movimento e não um cara como Malcolm X.

Veja bem, Malcolm foi um homem especial e uma peça fundamental, mas o seu radicalismo (por falta de uma palavra melhor) o afastava dos líderes brancos, afastava-o de uma conversa que poderia ajudar o movimento. Muita gente e até o próprio Malcolm chegaram a defini-lo como rival (por falta de uma palavra melhor) de MLK. Pra mim, eles se complementavam.

Mais do que importante, o filme é muito bem feito (todo meu respeito e admiração à diretora Ava DuVernay). A mensagem é poderosa, mesmo que os discursos tenham sido modificados por causa da falta dos direitos autorais. Embora seja sobre uma história de 50 anos atrás, ele é retratado de maneira que inspire ações ainda hoje.

Não à toa, a música “Glory”, feita pra trilha sonora, emocionou tanto no Oscar e Common e John Legend fizeram o discurso que fizeram ao receber o prêmio por melhor canção original.

“O espírito dessa ponte conecta o garoto do sul de Chicago, que sonha com uma vida melhor, àqueles na França lutando pela liberdade de expressão, àqueles em Hong Kong lutando pela democracia”, disse o rapper. “Nós sabemos que hoje em dia, a luta por justiça é real; nós vivemos no país mais encarceirador do mundo. Há mais negros sob controle correicional hoje do que escravos em 1850”, completou Legend.

“Selma” fala sobre a luta dos negros por igualdade, principalmente na questão do voto. Na verdade, eles já tinham esse direito por lei, mas sempre que iam tirar o título de eleitor, alguma burocracia extra atrapalhava (imagine por exemplo nomear dezenas de juízes locais, como a personagem representada pela Oprah teria de fazer). Pode parecer pouca coisa se você levar em consideração que muitas pessoas nem votam por lá, mas as consequências eram terríveis. Por exemplo, sem o título, você não podia ser jurado nos tribunais, o que levava à uma predominância branca decidindo casos, o que levava a cadeias cheias de negros, muitos provavelmente inocentes.

Guardadas as devidas proporções, obviamente, por favor, vejo o Oscar fazendo a mesma coisa. 94% dos votantes da Academia são brancos o que leva a 91% dos vencedores em “melhor ator” e 99% em “melhor atriz” serem brancos. Pode ser só uma premiação burguesa, mas é vista pelo mundo todo e eleva a modelo e exemplo muitas das pessoas e ações. Não à toa, muitas crianças negras têm vergonha de ser quem são, da sua aparência, por não se verem nesses exemplos (o discurso da Lupita Nyong no assunto é incrível). É uma bola de neve.

Assim, acredito que o que o Common e o John Legend fizeram foi fundamental. A impactante representação do filme naquele palco tirou a etiqueta de “esnobado pelo Oscar” e deu ao longa a real importância que ele tem e de como ele deve ser lembrado. Naquele palco, “Selma” cruzou sua própria ponte.

Não perca mais nenhum post!

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