Quando se é criança, a diferença entre as etnias é apenas uma questão de curiosidade. Uma criança que não foi apresentada a nenhuma das inúmeras faces do racismo perguntará por que o coleguinha tem a cor da pele diferente da dele, mas apenas para tirar uma dúvida. Ninguém nasce racista, obviamente.

Mesmo na década de 30, nos Estados Unidos, foi possível ver crianças de diferentes etnias brincando juntas. Quando elas começavam a ir para a escola, no entanto, as coisas tendiam a mudar. O Estado entrava na equação e separava as duas crianças, antes vistas como “iguais” por elas mesmas; os pais entravam na equação e afastavam seu filho do coleguinha de outra etnia para “protegê-lo”.

Foi assim que Martin Luther King Jr. conheceu a existência do racismo. Quando perguntou aos pais o porquê de o pai de um de seus amigos ter pedido pra ele se afastar de seu filho, o pequeno Martin, de pouco mais de 6 anos, teve o primeiro encontro com aquela que seria a sua luta para uma vida toda.

Mas, nem tudo era preto no branco para o garoto. Ele percebeu bem cedo que nem toda segregação era acatada. Seu pai, como ele mesmo diz, “não tinha se ajustado ao sistema” e os protestos diários dele contra indivíduos segregacionistas haviam ajudado a moldar sua consciência desde uma idade tenra.

Martin Luther King Jr. talvez seja um dos maiores expoentes da luta dos Direitos Civis Americanos; um dos maiores expoentes da luta contra o racismo nos Estados Unidos e no mundo. E é difícil pensar que pudesse ser de outra forma quando você lê a sua autobiografia, editada pelo Clayborne Carson.

Martin dedicou tanto da sua vida ao movimento que, mesmo o livro que deveria contar os detalhes da sua vida, acaba sendo, basicamente, só sobre o movimento. Ao dar detalhes sobre a grandiosidade e as motivações do seu envolvimento, ele te atrai a fazer parte.

Você vê isso o tempo todo em seus discursos públicos, mas ele o faz também em textos retirados de seus diários. Ele parecia incansável sobre isso. Em diversos momentos do livro, eu senti como se ele estivesse ali defendendo o movimento, contando todos os detalhes e tentando me convencer a lutar junto.

Provavelmente essa paixão e eloquência foram os principais motivos de Martin Luther King Jr. ser um sinônimo de revolução através do pacifismo quase tão grande quanto Gandhi, a quem ele atribui grande parte de sua inspiração.

A não-violência

Gana tem algo a nos dizer. Ela nos diz que o opressor nunca dá liberdade ao oprimido voluntariamente. Você tem que trabalhar por isso. Liberdade nunca é dada a qualquer pessoa. As classes privilegiadas nunca desistem dos seus privilégios sem uma forte resistência.

No entanto, a não-violência nem sempre é tão bem compreendida quanto King gostaria. Primeiro, é preciso entender que essas atitudes estão muito longe do conformismo que muitos que as citam vivem. A não-violência só tem poder de verdade quando é bem utilizada.

“Um movimento social que apenas move as pessoas é meramente uma revolta; um movimento que muda tanto pessoas quanto instituições é uma revolução”, defendia ele quando reforçava que as marchas e outras ações pacifistas tinham ganhos e significados que iam muito além do heroísmo e dos dramas particulares de cada uma delas.

Segundo que Martin era contra a violência, não contra o confronto. Aliás, ele sabia que as confrontações eram necessárias e fundamentais para alcançar as mudanças que ele e o movimento visavam. Ele acreditava que discordar e bater de frente com o inimigo era tão importante quanto cooperar com os aliados.

Por isso, ele repete a inspiração que obteve de Gana reforçando que a liberdade precisa ser demandada. “Eu constantemente me lembro da declaração de Nkrumah: ‘Eu prefiro autogovernamento com perigo do que servitude com tranquilidade’. Eu acho que essa é uma ótima declaração”, escreveu sobre o ex-presidente ganês.

A unidade

Nós temos que ficar juntos e manter uma unidade. Sempre que o faraó queria prolongar o período de escravidão no Egito, ele tinha uma fórmula favorita para o fazer. O que era? Ele mantinha os escravos brigando entre eles. Mas, sempre que os escravos ficavam juntos, algo acontecia na côrte do faraó e ele não conseguia manter os escravos escravizados. Quando os escravos se juntam, este é o começo do fim da escravidão. Vamos nós também manter a unidade.

As mudanças que Martin e o movimento enxergavam só viriam com muita confrontação. Afinal, as diferenças entre as condições dos negros e dos brancos eram absurdas. A segregação não era apenas sobre separação.

Existiam sim espaços para negros, mas eram poucos e defasados. Os cinemas recebiam os principais filmes uns 3 anos depois, bem como versa o Brown em “Negro Drama” mesmo.

MLK observava que mesmo os pedidos por justiça respeitando as leis segregatícias eram rejeitados. A justiça e a igualdade nunca chegariam em meio à segregação. “A doutrina do ‘separados, mas iguais’ nunca poderia existir”, afirmou.

E, mais do que isso, como não poderia deixar de ser, as autoridades aplicavam a milenar tática de “dividir e conquistar”. Publicavam notícias falsas sobre acordos com a comunidade negra; plantavam fofocas no movimento para que questionassem certos aspectos da liderança; enfim, toda aquela gama de atitudes que já era de se esperar.

Quando falhavam, os últimos recursos pareciam ser a violência e a prisão.

A prisão

Eu nunca esquecerei da experiência de ver mulheres com mais de setenta anos, adolescentes e adultos de meia-idade – alguns com diplomas em medicina, advocacia, educação, outros simples trabalhadores braçais – enchendo as celas.

Boa parte do livro é dedicada aos momentos que Martin passou nas cadeias pelo país. Afinal, como ele mesmo nota, “o caminho para liberdade normalmente passa pela prisão”. Assim foi com Gandhi e Nelson Mandela, por exemplo.

Aliás, esta foi uma das principais táticas do movimento para lutar contra a repressão e violência policial. A prisão era a grande arma que as autoridades achavam que tinham, então eles usaram isso contra eles.

Como? Acontece que a participação dos jovens era imensa e eles lidavam com a detenção com celebração, como se aquele, de fato, era o seu papel na revolução.

Ou seja, as “temidas” ameaças de detenções não assustavam mais. De certa forma, ninguém se importava em ser detido. Consequentemente, as cadeias ficavam abarrotadas e as autoridades simplesmente não conseguiam processar tudo aquilo.

Malcolm X

Embora exista uma parte da autobiografia falando especificamente sobre Malcolm X, ela deve ter uma página, se tanto. Martin comenta sobre o colega e lamenta o assassinado, ainda mais em um momento que ele parecia ter encontrado um caminho diferente.

Existe muito pouco sobre Martin Luther King Jr. na autobiografia de Malcolm X também, é verdade. Aliás, imagino que esta é uma das poucas semelhanças entre elas; entre os dois.

Eu sempre me perguntava por que as questões relacionadas ao Malcolm chamava muito mais atenção dos rappers, por exemplo, do que as de Martin, sendo que este, de maneira geral, teve muito mais representatividade (discursos e marchas lendários, Prêmio Nobel da Paz).

Eu acho que a resposta está exatamente na diferenças entre as duas histórias e como elas são mostradas. Enquanto Malcolm nos dá uma detalhada história de como um preso praticamente analfabeto se torna um dos mais eloquentes influenciadores do seu tempo, Martin nos dá toda a diplomacia que já esperávamos dele.

É fácil ver por que a história dos rappers se conectaria melhor com a do primeiro. No entanto, enquanto muitas pessoas gostam de tratá-los como opostos – que de fato foram de certa maneira – a ponto de separá-los, eu prefiro a visão que o personagem de Donald Glover apresenta na série “Atlanta”, quando diz que seu amigo e rapper Paper Boi é mais Malcolm e precisa de alguém trabalhando com ele que seja mais Martin.

Ou seja, complementares. A verdade é que toda essa ideia de que pessoas que divergem em determinado ponto são “inimigas” e que você deve escolher uma delas ou você tá se contradizendo é uma burrice sem tamanho.

Meus estudos me tornaram cético e eu não conseguia dizer quantos fatos da ciência batiam com a religião. Eu me revoltei também contra o emocionalismo de boa parte da religião Negra, a gritaria e o pisoteio. Eu não entendia e isso me envergonhava. Eu costumo dizer que se nós, como pessoas, tivéssemos tanta religião em nossos corações e almas como temos nas nossas pernas e pés, nós poderíamos mudar o mundo.

E isso serve para amigos, colegas, artistas, instituições, partidos, enfim, a porra toda. Só por que você concorda/discorda de um ponto apresentado por algo/alguém, não quer dizer que você concorda/discorda de tudo que algo/alguém disse ou irá dizer. E, consequentemente, você não estaria se contradizendo por fazê-lo.

Pelo contrário, faça. Acho que o que fica mais presente quando você conhece a história de Martin Luther King Jr. ou lê/escuta seus discursos é que o pacifismo não é desculpa para fazer nada.

Você pode e deve se expressar, se expor de certa forma e confrontar o que acha que deve ser confrontado. Aquela velha frase que lhe foi atribuída. “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”

Não posso precisar se foi ele mesmo quem a disse pela primeira vez, mas é uma ótima forma de resumir a maneira como a sua autobiografia é apresentada. Ele sabia que os maus “gritariam” de qualquer jeito e sabia que caberia aos bons “gritar mais alto”.

Ele dedicou sua vida ao movimento e, mesmo sabendo das consequências, nunca se conformou. Morreu pelo que acreditava. Definitivamente, pacifismo tem nada a ver com conformismo, lembrem disso.

Ele escreveu, discursou, marchou, pregou, orou, bradou, discutiu e demonstrou sua paixão pra todos, em todos os lugares e de todas as formas que conhecia. Mas, diferente de certas ações religiosas que o envergonhavam, Martin Luther King Jr. tinha muito mais luta no seu coração e alma do que em suas pernas e pés. Ele mudou o mundo.

Eu digo a vocês, nesta manhã, que se você nunca achou nada tão querido e próximo que valha a pena morrer por, você não está apto a viver. Você pode ter 38 anos e, algum dia, alguma grande oportunidade aparece pra você e te chama a defender algum grande princípio, alguma grande questão, alguma grande causa. E você se recusa a fazê-lo porque você está com medo; porque você quer viver mais. Você está com medo porque você perderá o seu trabalho; ou está com medo que será criticado; ou perderá a sua popularidade; ou está com medo que alguém o esfaqueará ou bombardeará a sua casa. Então, você se recusa a se posicionar. Bom, você talvez viva até os 90 anos, mas você está tão morto com 38 anos quanto estaria com 90. O cessar da respiração na sua vida nada mais é do que o anúncio atrasado da precoce morte do seu espírito. Você morreu quando você se recusou a se posicionar pelo certo; você morreu quando se recusou a se posicionar pela verdade; você morreu quando se recusou a se posicionar pela justiça […]

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