Nunca foi fácil fazer rap no Brasil. Até muito recentemente, acho que ninguém escolhia fazer rap; o rap é que escolhia os MCs. Não porque eu acredite que o rap escolhe quem é real, mas porque as perspectivas para rappers no Brasil não eram boas.

As pessoas faziam rap quase que por necessidade, como se sentissem que não conseguiriam fazer qualquer outra coisa de suas vidas. E muitos destes, infelizmente, tiveram que descobrir de todo jeito essa outra coisa porque não conseguiram viver de rap. Dava pra contar nos dedos os grupos que conseguiram nos últimos 30 anos.

Mesmo além das dificuldades financeiras, o rap nunca foi muito bem visto na sociedade. Então, mesmo que você fizesse rap apenas como um hobby, só o fato de fazê-lo já poderia ser motivo de chacotas em alguns grupos sociais. E isso, muitas vezes, é insuportável.

Até alguns anos atrás, o preconceito com fãs de rap e praticantes poderia ser comparado ao preconceito de classe ou o racial, embora em menor escala – mesmo que até o número de mortes violentas chame atenção. Talvez essa proximidade se destaque porque a maioria destes fãs e praticantes também eram minorias em classe e cor (pobres e negros, respectivamente).

Aliás, o rap sempre foi um dos principais veículos que essas minorias tinham pra apontar as mazelas de suas vidas; sempre foi uma das únicas formas de dar voz a estas pessoas. Era de se esperar que o rap acolhesse também outras minorias em busca de espaço para falar, como os gays.

Era de se esperar, mas, infelizmente, não aconteceu.

“Não só as pessoas LGBTs, mas qualquer pessoa que queira entrar no rap: não entre, não faça essa besteira (risos). E eu to falando sério. Só entre no rap se você tiver o emocional batendo. Se você não tiver o emocional certo, você vai passar várias merdas e vai querer desistir quase toda hora. Se o emocional já for fodido, não entra. É fácil entrar no rap, difícil é permanecer”, afirmou Lucas Santos em entrevista ao Bocada Forte; beatmaker e líder do blog de Hip Hop Vandalize, Lucas hoje se assume trans para toda sua equipe.

Se já vemos pouco espaço para as mulheres, esse espaço é quase inexistente para a comunidade LGBTQI+ ou simplesmente “queer”, palavra proveniente do inglês que poderia ser traduzida como “excêntrico, estranho”; o termo, que já foi considerado ofensivo, tornou-se quase uma bandeira em prol do movimento.

“O ‘queer’ não poderia ser mais perfeito, é como nos sentimos, e isso é tão real, que independente do rap em nossas vidas sempre fomos e nos sentimos estranhos onde quer que fosse, inclusive em nossas quebradas”, contou Tchelo Gomez em entrevista ao onerb.

A solidão do gay negro na nossa sociedade é, infelizmente, algo comum. Era de se esperar que isso acabasse refletido no rap e até de forma mais intensa, visto como ele é associado à virilidade.

“A verdade é que ser artista no nosso país cada dia mais se torna uma utopia. E sendo gay, preto, fazendo rap e da periferia torna tudo ainda mais utópico”, definiu Guigo ao Bocada Forte. “Eu me lembro que procurei por pelo menos 40 produtores e beatmakers pra tentar fazer meu trampo e a maioria dizia que não associaria sua imagem a um gay”, completou.

Pra tentar combater essa “solidão do gay negro”, Tchelo pensou em aproveitar a alta das cyphers e ligou alguns conhecidos para criar a primeira exclusivamente de rappers LGTBQI+ – o nome “Quebrada Queer” era pra ser, a princípio, apenas o nome do grupo de Whatsapp que ele usou para se comunicar com todos.

Formado por Guigo, Harlley, Lucas Boombeat, Murillo Zyess, Tchello Gomez e a DJ Apuke, o Quebrada Queer estourou e hoje já tem mais de 1,5 milhão de views. Como cê vai dizer que não contrata os caras por que não teria público?

E nem é aquela chuva de haters. Pelo contrário, foram super bem recebidos com uma quantidade de likes imensamente superior aos deslikes. Mais do que isso, a proporção de deslikes em relação aos likes é menor do que, por exemplo, a de “This is America”, aclamado clipe do Childish Gambino.

De uma maneira extremamente corajosa, bateram de frente com todas as adversidades possíveis. Além do rap não dar legitimidade para os gays, o próprio cenário LGBTQI+ não dá espaço para o rap, como contou o Guigo na já mencionada entrevista ao onerb.

“Acontece que de alguma forma a gente criou esse espaço de sobrevivência e descobrimos que ele não deveria ser solitário, afinal de contas existem diversos artistas queers resistindo e desbravando espaços onde a gente ainda não pode alcançar”, completou.

Em uma entrevista pro Bocada Forte, o Lucas Boombeat complementou essa ideia, relatando que uma das grandes dificuldades “é a falta de oportunidade de cantar nos lugares”. “Tem muita mana com trampo lançado, mas os contratantes não chamam. Então acabamos cantando apenas em espaços LGBT, sendo que nossa realidade pode e deve ser cantada em todos os lugares onde o rap acontece”, reforça.

Como o Murillo rima no som, “vai ter bixa no rap, sim, e eu nem sou pioneiro”. De fato, eles não são pioneiros na música ou no rap, por mais que esta seja a primeira cypher. Durante as linhas, vários nomes são citados como referência.

No entanto, a repercussão foi tão grande que é sim um marco; quem sabe, em alguns anos, poderemos cravar como um divisor de águas muito positivo na participação LGBTQI+ no hip hop.

E isso é bonito demais. Deveria ser um momento importante para qualquer apaixonado pela cultura de rua; sentir o outro lado da representatividade, que já comentei em outro post.

Por mais que o pai do Harlley não iria se orgulhar dessa conquista, como ele rima no som e explica nesta entrevista, deveríamos sim estar orgulhosos dos caras porque eles tão sendo importantes para todo o movimento, tão idealizado por pregar a liberdade.

Fora toda a questão LGBTQI+, eles mostraram uma importante vivência no rap que você vê cada vez menos hoje em dia. Não são 5 caras quaisquer que se juntaram pra explorar o possível marketing de uma cypher queer e mandaram qualquer coisa só pelos views.

Pelo contrário, fizeram algo tão bem feito que é significativo para inspirar qualquer movimento de minoria buscando seu espaço. Chegaram causando, dois pés no peito como os mais sagazes integrantes da cultura hip hop fariam. E mais do que isso, tiveram a coragem de ser eles mesmos, sem se esconder atrás de estereótipo aceitável pro típico fã de rap.

A presença LGBTQI+ era tabu em 2014 quando republiquei o relato “ser bicha no rap” e continua sendo, mesmo com todo o destaque que o Rico Dalasam alcançou; mesmo com Pabllo Vittar, Linn de Quebrada, Liniker e tantos outros que tomaram a música brasileira de assalto.

Gay no rap não é algo novo, embora muitos queiram apontar isso como uma derrocada. Sempre existiu e se hoje estão mais em evidência do que no passado é, principalmente, porque se sentiram confiantes o suficiente para se assumirem dessa forma. E isso é ótimo!

A representação é fundamental. “Foram várias mensagens de pessoas LGBTI+ que diziam que não ouviam rap e que passaram a ouvir a partir do momento que se viram em nóiz”, Murillo contou ao Bocada Forte.

Mesmo que o Quebrada Queer, como grupo, não continue – embora eu ache isso pouco provável, visto que já anunciaram um segundo som -, o que fizeram ninguém tira: evidenciaram que existe sim gay fazendo rap e não é limitado a exceções de um ou outro nome de sucesso.

Pelo contrário, a própria formação do grupo é uma prova da diversidade na cena. São 5 rappers com carreiras individuais que se uniram pela causa, para amplificar a mensagem. 5 rappers que você provavelmente não conhecia antes do Quebrada Queer.

Procure conhecê-los; procure seus trampos individuais e outros relacionados. Mais do que apontar os erros existentes na cena em relação ao sucesso de certos MCs, devemos procurar as soluções e uma muito simples delas é a difusão dos raps/rappers significativamente bloqueados pela trava preconceituosa do nosso meio.

Deixei no post alguns links para sons e entrevistas dos integrantes. Agradeço ao Bocada Forte pelo conteúdo foda de sempre e ao onerb pelas entrevistas pontuais. Não tá faltando rap, nem rap de verdade, tá faltando interesse, curiosidade e empatia pelo rap.

Foto de divulgação: Henrique Lambiazi.

Não perca mais nenhum post!

2 Comments

  1. Matéria muito foda, Guilherme! O trampo do Quebrada Queer é sem palavras! Autenticidade, coragem, resistência e muito tapa na nossa cara! Muito foda a ocupação de cada espaço pelas minorias, principalmente os espaços alicerçado nas próprias minorias! Já passou da hora de todos no rap encorporarem a luta LGBTQI+, bem como todas as outras facetas da nossa cultura. Avante!

    • E precisa ocupar mesmo porque, muitas vezes, o lugar-comum em que se encontra aquela minoria, no caso do rap, não abraça outras. Agradeço as palavras; obrigado pelo comentário.

Deixe uma resposta

Seu email não será publicado.

*