O rap acordou na segunda-feira do dia 6 de maio com aquele que muito provavelmente será o clipe mais falado do ano – e olha que não estamos nem na metade. Ou melhor, o mundo acordou desse jeito porque nas primeiras 24 horas foram 10 milhões de views pra conta de “This is America”, do Childish Gambino (hoje já são quase 250 milhões, só no Youtube).

Talvez, você tenha ido dormir com o trampo já ressoando porque, na real, ele foi lançado em uma participação marcante de Gambino no Saturday Night Live, na qual ele apresentou o programa e performou o som em questão (os vídeos do programa não estão disponíveis para o Brasil, mas se você arranjar um jeito de ver eu recomendo assistir pelo menos à abertura e à sketch “Kanye’s Place”).

O mais curioso sobre o vídeo foi a enormidade de análises que surgiram logo após o seu lançamento, um dos grandes motivos de ter ganhado tanta tração em meio às centenas de conteúdo que somos bombardeados a todo instante.

As referências são abundantes. Principalmente na parte visual, o que difere um pouco da realidade que vemos no rap. Aliás, se você consultar a página do som no Rap Genius, cê vai ver que todos os versos são explicados a partir de cenas do clipe.

Isso se deve muito ao fato de que, além de rapper, Bino é ator, roteirista e produtor. Na verdade, rapper é, no momento, a sua profissão em menos uso, digamos. Premiado no Emmy pela série “Atlanta”, que, além de ter criado, escreve e atua, Donald Glover está no auge da sua carreira, aparecendo em filmes de grandes franquias como Homem-Aranha e Star Wars.

Ou seja, ele não criou apenas um clipe para sua música, mas criou um trampo audiovisual completo, em perfeita harmonia, mais ou menos como imaginamos uma trilha sonora bem encaixada com uma situação de filme ou série.

Childish Gambino juntou Tio Ruckus, Jim Crow, apropriação cultural, Massacre de Charleston, danças africanas, violência policial contra negros, assassinato de jovens negros, Exército dos Confederados, cavaleiro branco do apocalipse, enfim, inúmeras referências que cês já viram aos montes por aí (acho bacana um post do Toni C trazendo as referências pra realidade brasileira).

Uma questão que acho relevante, mas não vi sendo muito falada é a falta da opressão branca na retratação da América de Gambino – aliás, embora eu concorde com algumas críticas sobre o rapper se referir aos Estados Unidos como América, eu acho que o primeiro passo mesmo é a gente começar a chamar quem nasce lá de estadunidense.

Existe, claro, a violência policial rolando no fundo, que, deduz-se, está sendo causada por brancos, mas mesmo quando o Massacre de Charleston é retratado, usa-se um personagem negro, o próprio rapper. Sim, talvez seja porque ele é o principal do clipe ou, como foi dito por aí, talvez seja uma maneira de mostrar todo poder que ele aspira no controle de suas obras.

O pensamento mais próximo que eu cheguei de algo que eu poderia acreditar ser um motivo, após ler algumas poucas coisas sobre isso, é que ele estaria apontando uma certa culpa dos negros; como se quisesse dizer que por colaborar nesse desvio da atenção da população e até defender atitudes racistas, os negros teriam uma parcela de culpa ou pelo menos deveriam estar olhando pra si primeiro, pra sua própria comunidade, antes de atacar o exterior.

No entanto, eu acho essa visão pesada demais para ser verdade. A representação do Massacre de Charleston é pesada demais para ser usada com esse intuito. Mesmo que ele estivesse apenas culpando os Uncle Tom, como no caso do Tio Ruckus, é pesado demais.

Mesmo que haja precedentes fortes dessa mea-culpa, como os versos finais de “The Blacker the Berry“, do Kendrick, as imagens criadas para isso são fortes demais. Será que ele tava só ironizando e do mesmo jeito que a gente só olha a dança e esquece das violências, a gente, como sociedade, também sempre quer colocar a culpa na vítima?

Eu não sei; eu concordo com tudo isso e discordo ao mesmo tempo. O mesmo texto que me colocou essa questão na cabeça também conclui que o “musical” é “poderoso, problemático e sem motivações claras”. E se não podemos afirmar algo com certeza sobre o clipe, podemos sim dizer que era isso que Donald Glover queria.

Afinal, mesmo com toda comoção mundial, mesmo sendo perguntado em praticamente todas as oportunidades (e não foram poucas, porque rolaram muitas entrevistas por causa do lançamento do filme do Han Solo), o máximo que vi ele falando foi que a intenção era “fazer uma música boa que as pessoas pudessem tocar no dia 4 de julho [Dia da Independência Estadunidense]”. O que diz muito e não diz nada ao mesmo tempo.

E esse é meio que o meu ponto. Será que a gente realmente precisa saber o que quer dizer cada linha da música até o último detalhe? Será que isso não acaba criando um efeito Mister M que destrói toda mágica por trás da aparente genialidade do rapper? Ou, pior, será que saber exatamente o que o MC disse/quis dizer não mata o debate e a discussão sobre o tema?

Eu adoro o Rap Genius (que é só Genius). Pra mim, é uma das principais ideias tecnológicas da música nos últimos anos, principalmente no rap, que traz tanto peso e significado nas linhas. Mas, eu acho que, às vezes, acaba sendo uma faca de dois gumes.

Por um lado, a genialidade de você ter um conhecimento tão importante quanto o de livros sendo explicado e debatido aos detalhes é incrível. Por outro, acabamos supervalorizando as referências e toda palavra é uma nova oportunidade de você encaixar algo que você nem conhece direito, mas sabe que é culturalmente valioso para destacar o seu som; para que você pareça mais culto.

A ideia de que existe uma rede social com milhões de participantes que irão passar horas decifrando a sua música é muita atrativa para os artistas e um ótimo local para eles expandirem gratuitamente seus lançamentos; a própria ideia de existir todo esse público interessado em decifrar letras é atrativa para os artistas. Não é difícil imaginar que muitos acabariam entulhando suas músicas de referências apenas para chamar atenção desse público.

Referências são importantes. Como vimos no caso de “This is America”, elas são fundamentais para construir trabalhos que geram debates em cima de questões fundamentais. No entanto, Childish Gambino ou Donald Glover, como queiram, é uma absurda exceção; um artista completo, cercado de uma estrutura absurda para apresentar uma produção extremamente bem pensada e trabalhada.

Quando você traz isso para o popular, não é difícil encontrar raps chatos com referências vazias. A cada linha o cara mete um personagem popular, uma notícia que fez sucesso ou qualquer coisa da história do mundo que faça ele parecer um cara culto, mas que na real ele nunca leu um livro sobre ou pesquisou a fundo o tema.

Muitas vezes se torna um desserviço para o público porque pode facilmente trazer significados superficiais e até mentiras contadas várias vezes; a falta de cuidado ao contar uma história pode perpetuar vários estereótipos.

Neste ponto, a comunidade do Genius pode fazer um servição importante: pegar uma referência vazia de um rapper e transformar em algo realmente poderoso, contando em detalhes e com boa profundidade sobre o tema. Embora existam muitos usuários que expliquem linhas de qualquer jeito só pra ganhar pontos na rede, acho massa que outros podem acrescentar comentários em cima do anterior e realmente construir algo significativo.

Mais uma vez fica claro que o gume negativo da faca, neste caso o Rap Genius, na verdade foi adicionado pelas pessoas que a utilizam de uma forma prejudicial, como é o caso de várias descobertas importantíssimas da humanidade (a Internet é o melhor exemplo disso).

É imprescindível que o rapper consiga harmonizar as referências, a história que ele quer contar naquela música e a própria sonorização de tudo isso. Eu acho que é válido pegar alguns pontos da letra e trabalhar eles com o público de alguma forma; ampliar os pontos de vista sobre aquele tema e assim discuti-lo de forma mais profunda.

No entanto, referenciar só por referenciar escancara superficialidade. O quanto o seu trampo foi realmente bem feito a ponto de gerar debates e questionamentos? Se for o caso, até que ponto você consegue debater um tema que você meteu numa linha?

Eu lembro que naquela vez que rolou a “cypher pelo impeachment da Dilma“, os malucos foram questionados do que falaram e nem sabiam por onde começar a responder, pois não faziam ideia do que tavam falando.

É isso. Na verdade, eu queria complementar este texto falando sobre o primeiro livro do Rashid, “Ideias que rimam mais do que palavras“, que é uma puta ideia sobre essa questão de explicar versos e sobre a composição da “Mandume”, do Emicida com vários MCs, que tem muito dessa de ir a fundo num tema e destrinchá-lo, mas fica pra próximos textos, quem sabe ainda este ano.

É isso 2: desta vez é pra valer.

Ah, e Assistam à “Atlanta”. 10/10.

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