Já faz tempo que os serviços de streaming tomaram conta do mercado mundial. Se você quiser escutar uma música, assistir a um filme ou até mesmo à uma transmissão ao vivo, você pode facilmente encontrar um serviço de streaming adequado para cada um destes fins. E muitos outros.

Se a explosão da transferência P2P de um Napster ou Kazaa nos fez trocar o espaço limitadíssimo dos nossos armários pelo gigantesco compartimento de bytes que é o nosso computador, o streaming chegou pra zerar a porra toda.

Aliás, a necessidade de ter um arquivo digital da sua música é tão pouca nos dias de hoje que a venda de downloads digitais está menor do que a de CDs e Vinis!

Embora impressionante em um primeiro momento, é até compreensível em um segundo: o CD e o Vinil trazem muito mais do que a música; eles trazem uma certa nostalgia na compra, nas capas e na coleção. Se alguma pessoa te convidar pra visitar a coleção de downloads digitais na casa dela, ela só quer transar com você. Isso não existe.

Isso porque a cena musical é, provavelmente, a de maior acesso ao público. Nas séries, filmes e livros, o conteúdo é muito caro. O acesso que o Spotify, por exemplo, lhe dá, mesmo que com toda propaganda, não existe nessas outras três áreas culturais.

A Netflix, que foi uma das primeiras a se popularizar com essa ideia, tornou-se rapidamente uma criadora de conteúdo original e, consequentemente, competidora de outras produtoras e plataformas – além disso, essas produtoras de conteúdo original viram muito valor no que a Netflix criou e desenvolveram os seus próprios serviços de streaming.

Isso significa que pra você ter acesso a todas as suas séries e filmes favoritos, você precisa desembolsar uma boa grana todo mês. Não é à toa que seja feito até um ranking de produções mais pirateadas; é como se fosse uma ação comum você baixar ilegalmente um filme ou uma série.

A conclusão é que a guerra à pirataria no entretenimento foi tão desnecessária, pra dizer o mínimo, quanto a guerra às drogas. Esta, claro, muito pior, pois veio carregada de preconceito e colocou muita gente pobre e negra na cadeia por qualquer coisa, mas, ainda assim, ambas totalmente desnecessárias.

Existem muitos pontos semelhantes entre as duas “guerras”, mas o principal deles é: aceita que dói menos. Já ficou bem claro que manter os investimentos altíssimos pra tentar acabar com as drogas ou com a pirataria não tem dado retorno. Por que não legalizar?

Como o documentário “Cortina de fumaça” mostra, nos Estados Unidos, as leis que proíbem as drogas foram criadas pra proibir que, basicamente, latinos as utilizassem; quando o consumo era de mulheres estadunidenses de meia-idade, estava tudo bem.

As leis que proíbem o consumo de drogas nos Estados Unidos surgiram de um presidente que queria o apoio popular para se eleger, não tinham muito a ver com o uso de drogas em si. Num geral, a proibição das drogas é muito mais uma desculpa pros policiais poderem invadir a favela e, basicamente, qualquer estabelecimento sem necessitarem de algo mais formal.

Quanto à pirataria, acho que o equivalente ao Estado controlar a distribuição, como no caso das drogas, seria as empresas terem esse controle. Elas mesmas distribuírem o seu conteúdo de graça.

Cê deve tá achando que eu aproveitei a brecha da legalização pra ficar doidão de sugerir que as grandes empresas iriam simplesmente distribuir o conteúdo que dá muita grana pra elas assim de graça… Achou errado, otário! Brincadeiras à parte, o grátis pode sim dar muito retorno também.

Não seria loucura.  Na verdade, isso já aconteceu. Há algumas décadas, quando ainda rolava apresentações ao vivo nas estações de rádio e o disco começava a engatinhar, a Sociedade Americana de Compositores, Autores e Editores (ASCAP, no inglês), com seu monopólio sobre os direitos de apresentação dos artistas mais populares da época, cobrava uma quantia absurda para que seus artistas colassem nas estações.

A ASCAP queria cobrar as emissoras não pela apresentação em si, mas pelo alcance dela, como se seus artistas estivessem em uma casa de shows tocando para milhões de pessoas, que seria o alcance daquela transmissão. O que é absurdo por inúmeros motivos, mas principalmente pelo fato de que não era possível medir esse número de ouvintes.

As emissoras começaram a negociar esses valores pra que elas pudessem se manter vivas. Ao mesmo tempo, começaram a tocar os discos. As gravadoras ficaram putas e começaram a produzir discos “não licenciados para a transmissão por rádio”. E quando as estações venceram uma ação na justiça para poder tocar o disco caso o comprassem, a ASCAP convenceu seus artistas a nem gravarem disco algum!

Quando as emissoras caminhavam para uma óbvia falência, elas resolveram tacar o foda-se pra ASCAP e seus artistas. Criaram um órgão próprio de direitos autorais e começaram a tocar só artistas regionais, que normalmente eram desprezados por essas gravadoras.

“Como esses músicos menos populares queriam mais exposição do que dinheiro, eles concordaram em permitir que as estações de rádio transmitissem as músicas de graça. O modelo de negócio de cobrar uma fortuna de estações de rádio pelo direito de tocar músicas foi por água abaixo. Em vez disso, o rádio passou a ser conhecido como o principal canal de marketing para os artistas, que ganhariam dinheiro vendendo discos e shows”, escreve Chris Anderson no livro “Free: grátis. O futuro dos preços“, que foi de onde eu tirei essa história também.

E isso foi uma reviravolta completa porque o rádio, como ainda é hoje, tornou-se um meio de divulgação para os artistas alcançarem o maior número de pessoas possível.

A ironia estava completa. Em vez de acabar com o negócio da música, como a ASCAP temia, o Grátis ajudou a indústria musical a crescer e prosperar significativamente. Uma versão inferior grátis da música (qualidade inferior, disponibilidade imprevisível) acabou se mostrando um excelente recurso de marketing para uma versão superior paga, e o faturamento dos artistas passou das apresentações aos direitos autorais sobre os discos. Agora o Grátis oferece a oportunidade de fazer a transição de volta, na medida em que a música grátis serve como ferramenta de marketing para a crescente indústria de shows. (Chris Anderson. Free: grátis. O futuro dos preços.)

Ou seja, em vez de você tentar lucrar com as “poucas” emissoras de rádio que existem, você libera seu conteúdo pra elas, elas divulgam ele para o máximo de pessoas possível, então você lucra com a venda amplificada de discos, shows, entre outros.

Com o máximo alcance do seu conteúdo, você cria inúmeras outras oportunidades para ganhar dinheiro. E este é um ponto importantíssimo sobre o grátis: você precisa encontrar essa “maneira alternativa” de ganhar dinheiro e levar as pessoas à ela.

O Spotify faz isso muito bem, como já vimos. O Google vive disso praticamente, oferecendo inúmeros serviços gratuitamente em troca da aparição de alguns anúncios ocasionalmente nessas ferramentas oferecidas.

A analogia no mundo físico, ele disse, é um bar. O bar proporciona um lugar para a interação social e conversas, mas não cobra por isso. Ele só cobra pela cerveja que lubrifica essas interações. “Você descobre algum outro item para cobrar, como os canecos de cerveja ou o tom de discagem ou algum outro equivalente, como a propaganda adjacente. Você sempre acaba cobrando por algo além da informação.” (Chris Anderson. Free: grátis. O futuro dos preços.)

Mas, nem tudo é maravilhoso com o grátis. Como você muito bem sabe, se algo que custa um determinado preço passa a ser grátis, as coisas vão soar estranhas pra maioria das pessoas. Por exemplo, se você costuma pagar 10 reais por CDs de rap e, de repente, encontra CDs semelhantes de graça, o bagulho vai parecer bem zoado.

Ao mesmo tempo, existem estudos que comprovam que cobrar um preço, por menor que ele seja, vai limitar o seu alcance drasticamente.

É por essa dificuldade toda de encontrar o equilíbrio entre o máximo alcance do grátis e a valorização do seu trampo que a primeira mixtape do Emicida é quase que como o melhor case possível pra essa situação.

O preço de R$2 era muito abaixo do preço da maioria dos CDs da época, mas era o certeiro pra não perder o valor, sem parecer aquele flyer que cê recebe e joga na primeira lixeira; era muito pouco pra manter uma carreira sustentável, mas era suficiente pra alcançar uma grande quantidade de pessoas pra vender os shows e produtos (as camisetas vieram não muito depois da venda de CDs).

A imposição de um preço, por menor que seja, normalmente reduz a participação, muitas vezes de modo radical. […] Esse é o trade-off do Grátis: o Grátis é a melhor forma de maximizar o alcance de algum produto ou serviço, mas, se isso não for o que você estiver tentando fazer, pode ter efeitos contraproducentes. Como qualquer outra ferramenta poderosa, o grátis deve ser utilizado com cautela, pois pode provocar mais danos do que benefícios. (Chris Anderson. Free: grátis. O futuro dos preços.)

Mesmo os cadastros que a maioria das plataformas grátis obrigam podem ser um empecilho para o máximo alcance do conteúdo. O Youtube, que poderia ser um veículo importante nessa questão, pois não permite cadastro pra acessar seus links, tem cada vez mais cagado tudo com as propagandas mais intrusivas e chatas da história. Você não consegue tocar uma playlist sem umas propagandas imensas no meio.

No caso do Spotify, por exemplo, você acaba pegando uma versão Premium pra não se irritar (no Youtube também dá pra fazer isso, mas não é tão popular quanto). É meio que o que o Steve Jobs previu quando popularizou a venda de músicas digitais.

Se você fizer o download de música a partir de serviços de compartilhamento de arquivos, provavelmente terá de lidar com formatos problemáticos de arquivo, informações faltando sobre o álbum e a possibilidade de se tratar da música errada ou uma versão de baixa qualidade. O tempo que leva para evitar o pagamento significa que “você está trabalhando por menos do que o salário mínimo”, ele [Steve Jobs] observou. No entanto, se você for rico em termos de tempo e pobre em termos de dinheiro, faz sentido agir assim. O Grátis é o preço certo para você. Mas à medida que você envelhece, a equação se inverte e $0,99 de economia aqui e ali não parece mais ser um grande negócio. Você passa a ser um cliente pagante. (Chris Anderson. Free: grátis. O futuro dos preços.)

Fica claro nessa questão que até mesmo a pirataria pode ser benéfica. A utilização dos produtos pirateados e toda a problemática que eles carregam, faz com que muitas pessoas pesem os prós e os contras e acabem, em algum momento, optando pelo pago.

Em 98, na Universidade de Washington, dado o problema absurdo da pirataria na China, Bill Gates disse que “embora três milhões de computadores sejam vendidos a cada ano na China, as pessoas não pagam por nosso software. Mas, um dia eles pagarão e já que eles vão roubar de qualquer jeito, queremos que eles roubem de nós. Eles vão se viciar e, de alguma forma, descobriremos como ser pagos em algum momento na próxima década.”

Pode demorar, mas a tendência é que isso aconteça. Ou seja, no longo prazo, o grátis disponibilizado pelo artista ou até mesmo o pirateado tendem a se transformar em lucro. E não é no longo prazo que deveríamos pensar?

É foda pro artista ver seu trampo compartilhado de graça na Internet, longe dos seus canais oficiais que lhe dão uma grana. Eu mesmo quando vejo que subiram um áudio no Youtube de um som que o artista tem divulgado oficialmente no seu canal, fico puto (se o artista tem isso disponibilizado, é cuzonisse baixar e disponibilizar NO MESMO espaço, transmitir da mesma maneira).

Mas, mesmo isso, pode vir a render. Às vezes, essa “pirataria” é mais ampliadora do que o seu canal grátis. Por exemplo, quando alguém cata seu som/vídeo no Youtube e disponibiliza no Twitter ou Facebook, você talvez vá perder alguns reais de pessoas que não irão até o seu canal pra assistir, mas poderá ganhar muito mais se isso viralizar.

A grande dica é fazer o seu, trabalhar o conteúdo das suas músicas das mais variadas maneiras possíveis, lucrar com esses outros formatos, mas manter o seu conteúdo principal, sua música, gratuita e ao alcance do maior número de pessoas que você conseguir.

E eu gosto de ressaltar isso principalmente no caso dos livros. A gente fala tanto sobre como os livros são importantes na formação das pessoas, mas eles continuam muito caros. É claro que o livro digital é, de maneira geral, mais barato que o impresso, mas ainda não o suficiente.

Por que não distribuir o conteúdo do seu livro de graça? Não to falando pra você imprimir milhares de exemplares e sair distribuindo por aí, o custo seria absurdo. Mas, você pode distribuir o conteúdo do livro na Internet quase sem custos pra você e, além das vantagens morais de estar disponibilizando informação gratuita para “todos”, ainda existe uma grande chance de você ter um ótimo retorno.

Se você realmente acredita que a informação é fundamental para educar as pessoas, você precisa entender a importância do grátis nisso. Toda grana que deixa de ir para indústrias nesse processo, não se perde, ela acaba se tornando informação que chega fácil pras pessoas. Uma das ideias do livro em questão (Free: grátis. O futuro dos preços) é que talvez em alguns anos tenhamos PIBs que aumentem por esse acesso grátis à cultura e conteúdo.

É algo quase impossível de correlacionar, mas você consegue entender as possibilidades disso. E essa me parece a verdadeira revolução: levar a maior quantidade de informação, de conteúdo de qualidade, para o maior número de pessoas possível.

Não perca mais nenhum post!

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