Rappers brasileiros falam à MTV gringa sobre protestos no país

Atualizado em 04/01/2014

Nesta quarta-feira (19), a MTV Iggy, uma espécie de MTV estadunidense sobre músicas pelo mundo, apresentou a opinião de “12 de seus artistas brasileiros favoritos” sobre os protestos que acontecem no país; entre eles, cinco rappers.

A relação do RAP com protestos em geral é enorme, visto que o gênero é conhecido por essa temática. Não à toa, muitos foram vistos durante as manifestações pelo Brasil. Um destes, Criolo, descrito pelo site como cultivador de fortes opiniões políticas na cena underground do Hip Hop paulista, antes de estourar com “Não existe amor em SP”, disse:

O movimento tem acontecido desde sempre, na verdade. Sempre tiveram pessoas se encontrando para discutir, pensar, para procurar maneiras de melhorar o dia a dia dos cidadãos brasileiros. As passagens foram apenas uma fagulha para as manifestações. A passagem de ônibus é extremamente abusiva comparada com o serviço que nos é oferecido. Se o transporte fosse realmente público, não teríamos que pagar qualquer coisa, mas, ao invés disso, temos que pagar uma alta quantia. Então, as pessoas decidiram ir às ruas mostrar suas indignações. Eles disseram que ‘nós somos a sexta maior economia do mundo, mas as coisas ainda não estão boas para o nosso povo’

Um estudo recente mostrou que o bairro que eu cresci [Grajaú] é o pior lugar de São Paulo para se morar. De onde eu venho, as pessoas protestam do dia que elas nascem, o protesto é parte do cotidiano para as pessoas que sofrem de violência institucionalizada.

Eu estive nos protestos de segunda-feira à noite, mas não como um artistas – como um cidadão. Não é sobre se colocar no meio disso como “um artista”. Este é um movimento em que todos nós somos protagonistas.

Em meio aos protestos, Marlon Bishop, autor da matéria, encontrou Rodrigo Brandão, também conhecido por Gorila Urbano e MC de carreira solo e do grupo Mamelo Sound System, com a Lurdez da Luz. O rapper comentou:

É um momento realmente poderoso. Pela primeira vez – gerações depois dos tenebrosos dias da ditadura militar – a sociedade brasileira como um todo está confrontando a violência. Isso mostra um efeito positivo desta era da Internet. Apesar das tentativas da mídia de massa de maquiar os fatos e rotular os protestantes como ‘vândalos’, a verdade apareceu nos vídeos e imagens postadas pelas pessoas no olho do furacão.

Da perspectiva do hip-hop, realmente mostrou a verdade sobre as pessoas, pois um monte de gente agia como se nada estivesse acontecendo e simplesmente tentava se promover com a parada do “baixe esta música” – em uma mediocridade pobre e corporativista. Mas para aqueles que realmente vivem e respiram a cultura de rua, não era nada menos do que uma experiência histórica, energizante e empolgante pra caralho. A qualquer momento que alguém encontrava um amigo no mar de cabeças, havia um sentimento de amizade que crescia mais e mais instantaneamente.

Mesmo fora do Brasil, Emicida deixou uma nota oficial em seu Facebook apoiando as manifestações e cobrando o prefeito Haddad, do qual ele é eleitor. Mas, ele ainda tinha outras coisas pra falar:

A gente talvez esteja vivendo um momento histórico – eu não consigo lembrar nenhuma outra situação em que minha geração foi às ruas e reivindicou seus direitos dessa forma. Essa revolta é muito importante.

Eu não acho que o ‘povão’ – a classe de trabalhadores – está representado lá de maneira real. Talvez alguns grupos estejam lá lutando pelos direitos daqueles que não tem direito de demandar qualquer coisa. Já que o movimento cresceu tanto, com certeza as pessoas tão lutando pelo ‘povão’. Mas, saca: nas favelas, as pessoas veem a polícia fazendo esse tipo de coisa todos os dias, agora eles só foram pegos fazendo para uma fatia maior da sociedade.

Parafraseando Wilson das Neves, eu acho que “o dia que as pessoas das favelas saírem para as ruas sem ser pelo carnaval”, vai ser guerra civil. Eles não estarão protestando com cartazes dizendo “menos corrupção” ou qualquer coisa do gênero. Eles estarão pensando sobre o primo que foi morto pela policia no dia anterior, que o lar deles foi demolido pelo governo, sobre as geladeiras e panelas vazias. Aqueles que passam fome não dialogam, seria um erro ignorar isso. Então, entrar na questão do “é pelo preço do ônibus” é infantilidade. Claro, a manifestação pela passagem foi o sinal de que muitas coisas ruins estão acontecendo e que não estamos mais ignorando as intenções podres de nossos políticos.

Estou muito feliz que os jovens estão indo às ruas, mas eu temo que a mídia esteja distorcendo tudo e fazendo com que eles pareçam vilões. Ou pior – usando o poder desses protestos para propósitos partidários. O artista precisa ser sincero, mas é importante não ser maior que a causa. Nós estamos falando de liberdade, não marketing, e algumas pessoas veem isso como uma oportunidade de conseguir atenção. Para aqueles que apoiam a causa de maneira sincera, eu ofereço meu respeito e admiração; a gente está lutando do mesmo lado!

Descrito pelo site como “a voz dominante na história do hip-hop carioca”, MV Bill também respondeu de forma positiva às manifestações:

É um momento histórico! O movimento sem partidos políticos, sem líderes, compartilhando indignações coletivas. Na realidade, eu acho que o despertar começou há anos, mas só explodiu agora. Mas, não são todos brasileiros que estão ligados… ainda tem muita alienação por aqui.

Os protestos são contra a corrupção, por educação, melhor saúde pública e mobilidade urbana, segurança para todos. É uma aglomeração de diferentes causas. Eu sinto que minha vida e minha música esperaram por este momento, no qual as pessoas são mais do que massa de manobra – elas estão criando a mudança!

Pra completar a opinião dos protestos na visão dos rappers, a publicação ainda apresentou a opinião do Rael:

Eu penso que já era tempo disso acontecer. As pessoas estão cansadas e isso está demonstrando que nós estamos no caminho da mudança – é ótimo, é o incentivo que a gente precisava para colocar um fim nessas injustiças. Nós queremos colocar políticos corruptos atrás das grades. Eles abusam, iludem e enganam o gigante e agora ele acordou e ganhou força vinda da Internet.

Como sempre, estou participando, trazendo essas questões nas músicas e nos shows. Um artista influencia as pessoas com suas ideias e atitudes. Neste momento, estou usando a influência que tenho para dar minha visão sobre este delicado momento no qual a democracia está se mostrando de verdade – estou tentando ajudar dessa maneira, fazendo as pessoas questionarem e irem às ruas.

*Textos acima traduzidos de forma livre a partir da matéria original, em inglês.

LEIA A MATÉRIA COMPLETA (EM INGLÊS).

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