EU: Mascote se divide em versos para multiplicar sua poesia

Atualizado em 14/01/2014

Quando você lida diariamente com seus sentimentos, principalmente para artistas que precisam constantemente se expressar através de sua arte, muitos dos problemas pessoais acabam atacando de forma mais forte.

Nestes momentos, a sua força interior, seus amigos e sua arte talvez sejam as únicas fontes de paz e inspiração para dar a volta por cima. Para Mascote, do Contra Fluxo, a inspiração foi tanta que originou uma trilogia, intitulada “Eu, meus amigos e minhas rimas”.

Se definir-se nunca é uma tarefa fácil, o rapper dedica o primeiro volume inteiro a versos e histórias mais pessoais; a própria primeira faixa do disco é composta por colagens que parecem passar ao ouvinte algumas de suas opiniões e parte de sua trajetória nas rimas de alguns de seus colegas.

Mascote vai de uma apresentação direta na “Quem é?” até uma amostra da sua percepção das coisas ao seu redor na previamente lançada “Ninguém“; vários problemas do dia a dia das ruas são transmitidos destacando o consagrado entendimento do rapper como auto-falante da quebrada.

A situação começa a mudar na belíssima voz da Nina Simone informando que “é um novo dia, é uma nova vida”. Entretanto, “E.G.O.” não é bem sobre a positividade de uma nova fase que se inicia, mas sobre aqueles que “na penumbra de sua tumba, múmia quer ficar”. Enquanto o novo surge com várias oportunidades, ainda há quem tenha o ego superinflado e prefira ser atrasa-lado.

Tão comum ver isso hoje em dia no RAP quanto a insônia dos MCs, retratada na “Clube da insônia“; inúmeros versos do RAP Brasileiro já foram destinados a noites em claro ou poucas horas para dormir no dia a dia. Não à toa, Mascote cita o “Noite de insônia”, do MRN, como um dos que mais ouviu.

A ideia é essa, é ser e se manter “Relevante” a ponto de influenciar tantos outros através dos seus sons e não parar enquanto se tem algo a dizer; o rapper ainda compara, meio que nesse quesito, alguns nomes gringos da atualidade com lendas, como se mostrasse que se destacar não é nada perto de entrar pra história.

Porque, embora na sociedade que vivemos hoje o dinheiro seja necessário, não deve ser o principal motivo pelo qual devemos viver nossa vida. Como Mascote mostra na “Quem vive $em“, quando a grana passa a ser um fim e não apenas um meio de produzir algo de valor real, problemas como a especulação imobiliária, a corrupção e a pressão descabida das empresas sobre seus funcionários são apenas consequências.

O rapper acha seu refúgio e dá uma relaxada na bela parceria com sua mãe na “Dançando no escuro“, na qual relembra momentos de infância e assume uma dívida perante ela, comum na relação mãe-filho quando este percebe tudo que recebeu daquela que o criou. Interessante disso é que na seguinte, “Coração de pedra“, Mascote meio que mostra a pessoa que se tornou, com todo ceticismo de quem já passou por uma pá de coisas, mas sem desistir, sem matar a esperança de que as coisas melhorem.

A mesma positividade é encontrada na ótima chave-de-ouro com a qual o CD termina; mesmo recebendo uma notícia tão grave, o rapper consegue mostrar otimismo e a vontade de seguir em frente.

No último vagão” se destaca por, no mínimo, dois grandes motivos: primeiro, a simplicidade/facilidade em contar uma história quase que literal em forma de versos; segundo, a maneira como a notícia da doença grave casa com estar no trem e todo o jogo de palavras de descer naquela parada ou seguir em frente.

Mascote termina o trabalho sendo questionado, mas garantindo os próximos volumes. “Meus amigos” já ganhou sua primeira música, com participação do Kamau; além de parceiros de longa data, os dois dividem a paixão pelos scratches e colagens, que marcaram tanto esta produção quanto o “…ENTRE…“.

“Eu” é a proposta de contar mais sobre o próprio Mascote; proposta atingida. Embora muitos critiquem a ideia de um rapper “falar muito de si mesmo” em suas letras, pra mim isso não existe. Não existe o “eu” na poesia e este CD é uma grande prova disso; mesmo quando o som fala de uma situação tão pessoal quanto receber a notícia de uma doença no vagão de um trem, a identificação por parte do ouvinte é perfeitamente possível.

Mascote conta sua história e, por tabela, conta também parte da minha, da sua, leitor, e de tantos outros espalhados pelo mundão. Poesia é exatamente isso; quanto mais de você pode ser encontrado em seus versos, mais as pessoas poderão se encontrar neles também.

 

Eu, Meus Amigos & Minhas Rimas: Volume I – EU – Mascote

  1. Intro – Eu (prod. DJ Crick)
  2. Quem é? (prod. Henrique Jonas)
  3. Ninguém (prod. Renan Samam)
  4. E.G.O (Eles gostam de opinar) (prod. DJ Crick)
  5. Clube da insônia (prod. Leleco San)
  6. Relevante (prod. Dario)
  7. Quem vive sem? (prod. Thiago Pródigo)
  8. Dançando no escuro (part. Maria Selma | prod. Dukes)
  9. Coração de pedra (part. Grupo Vox Black Minutes | prod. Leleco San)
  10. No último vagão (prod. Leleco San)

Todas as músicas foram gravadas, mixadas e masterizadas no Studio Kasa por DJ Crick e Leleco San.

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