Das Ruas à Floresta, da Floresta às Ruas

Maio de 1998, Bretanha, região administrativa do oeste da França, três jovens fascinados pelas lendárias histórias Celtas, inspirados depois de lerem o livro “A Épica Irlanda Céltica“, de Jean Markale, decidem se juntar e formar um grupo que daria início a um inovador e diferente estilo musical que em poucas semanas estaria dominando o topo das paradas musicais, ruas e florestas da França.

http://www.youtube.com/watch?v=4NRqSrPTPv8

Manau, este foi o nome do grupo escolhido pelo trio Martial Tricoche, Cédric Soubiron e Hervé Lardic, todos de nacionalidade bretã. O nome “Manau” veio por causa de seu significado em gaélico, que no idioma de Galícia, significa “Ilha do Homem“, que é uma região do Reino Unido situada no centro das Ilhas Britânicas, sendo um dos primeiros territórios Celta desde a pré-história. A Ilha do Homem é uma das seis nações Celta, por isso a escolha do nome pelos integrantes do grupo.

Início

Em 1988, dez anos antes de comporem o grupo Manau, Martial Tricoche e Cédric Soubiron se uniram para integrar parte do elenco de uma rádio, e foi lá onde conheceram Hervé Lardic, outro futuro integrante do grupo. A paixão dos três pela música era clara, tendo muita influência de músicas ocidentais que começavam a surgir naquela época, mais particularmente o RAP, um estilo musical de discurso rítmico de poesias nascido no final do século XX, nos Estados Unidos, tendo raízes jamaicanas. Além do amor pela música, os três amigos também tinham uma devoção imensa por suas raízes, sendo todos de origem bretã. A Bretanha é uma região da França onde povos Celta se estabeleceram por anos, o que faz dos três integrantes do grupo descendentes diretos dos povos célticos.

A soma do amor pela música e a devoção por suas raízes já dava pistas do que futuramente poderia surgir, e Martial Tricoche durante a época, através de um amigo de seu irmão mais velho descobre o livro “A Épica Irlanda Céltica“, de Jean Markale, o que foi o impulso inicial para tudo. Martial, fascinado pelas épicas lendas históricas de seus antepassados, escreve um relatório sobre tudo que leu, falando dos “druidas que voavam nas nuvens“, e logo apresenta ao seu amigo Cédric, apresentando também um trecho da harpa de Alan Stivell, um conhecido cantor e compositor da época, e propõe então a Cédric e Hervé formarem um grupo e trabalharem em um projeto totalmente inovador que mesclaria o RAP e a Música Celta.

Primeiro Projeto

Diante da proposta e do entusiamo de Martial, Cédric e Hervé aceitam e assim dão início ao primeiro projeto do grupo que por eles foi intitulado de Manau. Todos trabalham bastante, tentando buscar uma forma totalmente inovadora de ritmo, e assim lançam o primeiro single do grupo, “La Tribu de Dana“, misturando as batidas de RAP com instrumentos da Música Celta. Era algo que não era profissional, afinal era o primeiro trabalho do grupo e não tinham um grande conhecimento sobre o mercado e sobre o mundo musical, porém isso não impediu o imprevisível por eles. “La Tribu de Dana” despencou na primeira posição de músicas mais ouvidas e baixadas em toda a França e em diversos locais da Europa, ficando em primeiro por 12 semanas e por 23 semanas no top 3 das mais baixadas e ouvidas, se tornando então a música mais ouvida daquele ano e uma das mais ouvidas e compradas em toda a história da França, dando assim, o início ao que os próprios integrantes e ouvintes intitularam de Celtic Rap, um estilo musical que misturava batidas de RAP e com instrumentos da Música Celta, abordando principalmente temas da Mitologia Céltica.

La Tribu de Dana

A Tribo de Dana

O vento sopra sobre as planícies da Bretanha armórica,
Lanço um ultimo olhar sobre minha mulher, meus filhos, meu domínio,
Akim, o filho do ferreiro acabou de me procurar, eles decidiram que vão efetuar o combate no vale,
Lá, onde nossos grandes antepassados, gigantes guerreiros celtas, travaram grandes
Batalhas, impuseram-se como mestres, lutaram defendendo
Nossa terra contra um exército de simerens dispostos a cortar-se a ferro,
Toda a tribo está reunida ao redor de grandes Menhirs, para invocar os deuses,
Afim de que possam nos abençoar, após esta oração com meus irmãos, sem se referir
A Zelé, os chefes deram-nos todos os incentivos táticos para a
Coragem, para que não haja falha,
Para continuarmos a sermos grandes e orgulhosos,
Quando em batalha, será a minha primeira vez que saio em
Combate, espero ser digno da Tribo de Dana.

REFRÃO:

No vale de Dana la lilala
No vale de Dana posso entender os ecos
No vale de Dana la lilala
No vale de Dana ouço os cantos de guerra perto dos túmulos

Após alguns encantamentos mágicos druidas, toda tribo, a arma
Em mãos, corria contra o inimigo, a luta era terrível, eu via apenas as
Sombras, lutando com o inimigo que retornava sempre em maior número,
Meus irmãos caíam um após outro diante de meu olhar, sob o peso das
Armas que possuíam todos os bárbaros, das lanças, dos machados, da
Espada no jardim do Éden, escorria sangue sobre as verdes planícies,
Como este dia de pena que um homem se arrasta ao limite do reino
Do mal e do ódio, era preciso continuar o combate já perdido
Mas esse era o orgulho de toda a tribo, a luta continuou até o sol se deitar,
A ferocidade extrema e além disso, era necessário defender a terra
De nossos antepassados enterrados lá pelas leis da Tribo de Dana.

Na extremidade do vale estendia o som de um chifre, de um chefe inimigo que
Chamava sua tropa,
Tinha compreendido que lutaríamos mesmo no inferno e que
A Tribo de Dana pertencia a estas terras. Os guerreiros patriotas, já não
Compreendia todo caminho que tinha feito até ali, quando
Olhei ao redor de mim
Era o único de pé da tribo, eis o porquê:
Meus dedos estavam separados no formato das armas, e por todo o
Meu rosto, corriam lágrimas, nunca compreendi o porquê
De os deuses me haviam poupado deste dia negro de nossa história que contei.
O vento sopra sempre sobre a Bretanha armórica, junto-me de minha mulher,
Meus filhos, meu domínio
Eu reconstruí tudo com minhas próprias mãos para chegar lá,
Tornei-me rei de Tribo de Dana.

VÍDEO:

http://www.youtube.com/watch?v=4NRqSrPTPv8

A canção “A Tribo de Dana“, do grupo Manau, narra a feroz batalha de um guerreiro da tribo ficcional de Dana. Na música podemos ver claramente a abordagem de aspectos da cultura Celta, como a menção a deuses, ao paganismo, à magia, dentre algumas outras coisas. Apesar da narração da música ser ficcional, Dana realmente é uma deusa, ela é conhecida na cultura Celta e se assemelha à Deusa Mãe, que é conhecida em diversas culturas pagãs.

Dana, ou “Danu“, também como pode ser chamada, significa “conhecimento“, e segundo a mitologia Celta, ela é a maior deusa dentro da cultura. O nome “Dana“, ou “Danu“, foi escolhido através de sua avó, que se chamava Kaila e era uma sacerdotista do clã.

De acordo com a lenda, Danu nasceu de um clã de dançarinos que viviam ao longo do rio Alu. Ela teve um sonho com um barco carregando seu povo através de mares e rios até chegar em uma ilha, onde sua missão era construir um templo, onde a paz e a abundância fosse estabelecida. Quando Danu acordou, ela relatou seu sonho ao conselho, e assim toda a viagem começou a ser planejada.

Essa rica história contada/cantada pelo grupo Manau através da música “La Tribu de Dana” teve um enorme sucesso em toda a Europa, o foi que os incentivou a assinar com a gravadora Polydor e assim lançar seu primeiro álbum oficial.

Primeiro Álbum

Com o contrato com a gravadora Polydor, o primeiro álbum do grupo é lançado, e o nome não poderia deixar de se relacionar aos assuntos envolvidos em seu primeiro single. O nome do primeiro álbum do trio é “Panique Celtique“, ou “Pânico Céltico“, quando traduzido. Assim como a música “La Tribu de Dana“, o álbum foi um sucesso em vendas em toda a Europa, o que impulsionou o ritmo “Rap Céltico” criado por eles e os fizeram percorrer diversos países lotando shows.O álbum era composto por 11 faixas e nele o grupo evocava aspectos da Bretanha e da Cultura Celta, sempre mesclando RAP.

Dentre algumas canções que se destacaram no álbum, estava a própria “La Tribu de Dana“, “L’avenir est un long passé” (O Futuro é uma Grande História) da qual fala da extrema-direita, “La Confession” (A Confissão), que fala da inadimplência dos seres humanos em relação ao outro, e “Mais qui est La Belette?” (Mas Quem é a Doninha?), que na época atingiu um enorme sucesso e acabou virando uma brincadeira entre crianças da qual se perguntavam “Quem é a doninha?”, principalmente pelo seu clipe, considerado bem divertido.

O álbum “Panique Celtique“, apesar de seu foco principal ser a Cultura Celta, também aborda outros temas, porém sempre prezando por pequenas relações com o assunto central. Devido a grande originalidade do grupo, da mescla de ritmos locais já conhecidos e bem aceitos e dos temas abordados, o álbum é lembrado até hoje como um grande clássico da música francesa.

Panique Celtique II – Le Village

Depois do grande sucesso do primeiro álbum, Manau sofreu algumas mudanças, como a saída de alguns membros, mas a cabeça principal, Martial, sempre permaneceu na formação. Devido as saídas e projetos solos, um novo álbum oficial do grupo demorou bastante a ser lançado, mas em 2011 essa espera é finalmente cessada. Manau lança seu novo álbum, “Panique Celtique II – Le Village“, mantendo o estilo original do grupo de mescla entre RAP e Música Celta.

Em seu novo álbum, através de cada música, Manau conta a história de uma aldeia e seus habitantes, aldeia esta que como ele mesmo diz, é bastante sombria, “tingida com sombra e luz sagrada, paganismo, mística, luz às vezes provocante, com um sabor de superstições e fofocas vendidas, disparates que não tinham dúvidas de que todas as pessoas boas lá reunidas, sob a sombra do campanário…“, em suas próprias palavras. Como é possível perceber, o álbum é bem simbólico.

O novo trabalho é composto por 11 músicas, sendo cada uma delas uma parte da história central do álbum, ‘a vila’.

Em seu novo álbum a presença forte da Cultura Celta é clara, porém podemos ver também uma nova abordagem de uma cultura de fora, a do Cristianismo.

Durante a Idade Média, com o Império Romano deixando o Mitraísmo de lado, ou melhor, fundindo-o com crenças cristãs, o Cristianismo foi estabelecido religião oficial do reino, logo romanos passaram então a espalhar a crença e a cada conquista de territórios, tentar cristianizar povos. Não foi diferente com os Celtas. Com as conquistas romanas, muitos Celtas foram cristianizados, dando origem então ao Cristianismo Céltico, um ramo do Cristianismo adotado pelo povo Celta, da qual era Cristão-Pagão.

No álbum “Panique Celtique II – Le Village“, de Manau, podemos ver a evocação do Cristianismo na música “Le curé et les loups” (O Sacerdote e o Lobo).

TRECHO:

Ouvimos-os,
Mas nunca os vemos à noite,
Contra o vento,
Eles olham para a frente,
Loucos de raiva com sede de sangue,
Na procura de qualquer corpo que esteja enfraquecido,
Agora é o momento de pendurá-los novamente aqui,
No clã,
Sempre em formação bem definida,
Pronto para preencher o apetite inebriante que eles têm desde o inverno que não definiu o seu ninho,
Um sentimento engraçado invadiu todos os locais,
Ore! É sem saída quando a noite cair,
Não gosto da morte, Ankou vai encontrá-lo,
Além da decoração de mesa que não é estranha,
Você conhece bem os meus irmãos! Eles voltam a cada ano,
E cada um a ir para casa não irá para casa sem uma tocha acesa,
Para que eu possa ver o topo da minha campainha,
Eu sou apenas o pai, o filho do país, o padre,
Eu não deixo que os animais tenham um pastor divertido.

REFRÃO:

Perdoe meus pecados, eu que nunca ouvi,
Qualquer diferença,
A fim de melhorar a si mesmo,
Perdoe o silêncio, minhas palavras não contadas,
E se é violência, ela irá passar.

VÍDEO:

No vídeo podemos perceber claramente que o personagem, integrante do grupo, aparenta estar em um lugar em que se assemelha a um monastério cristão, e ao que parece é um sacerdote, padre ou pastor, onde teme um lobo que pelo contesto, simboliza o “mal”.

Na bíblia, podemos encontrar diversas menções ao lobo, e uma delas é em ATOS 20:29, que diz “Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho“. Neste trecho é bem evidente a relação do lobo com o “mal”, e no clipe vemos isso, enquanto o personagem aparenta estar arrependido de seus erros e pede perdão por seus pecados.

Neste trecho a relação com o Cristianismo é bem clara:

Muitas vezes, quando penso no meu rebanho e em nossa comunidade,
Eu só tenho sentimentos de felicidade e amizade,
Eu que nunca ouvi grandes segares pescadores, mesmo correntes não foram suficientes para me afastar,
Ave Maria, que cada um de nós seja abençoado por sua mente,
O desagradável entenderá que ele não está em casa aqui,
Ele lembrará a seus cães sua mochila e desejos,
Sob a proteção dos santos, esta aldeia não será amaldiçoada,
Por isso, não tenha medo meus amigos destes lobos errantes,
Esses saqueadores da noite vieram devorar os nossos filhos,
Se há um perigo, é a colina para baixo, vantagem destes tempos tão tristes,
Assim o meliante.

A música evidencia fortemente a influência do Cristianismo neste trecho, algo bem diferente do que foi tratado no primeiro álbum de Manau. Apesar dos temas, a sonoridade no álbum continuou a mesma.

Já na música “La rumeur“, Manau aborda o tema de traições, de mentiras, de rumores (rumeur) que levam a prejudicar outra pessoa. Apesar do tema aparentemente leve e “normal”, o clipe da música traz mais uma vez características do Cristianismo Medieval. Mediante à traições, decorrente de *rumores, o acusado é queimado vivo na fogueira pelo que aparenta ser sacerdotes.

VÍDEO:

http://www.youtube.com/watch?v=XpHRfV8Eu0g

Durante a Idade Média, com a forte teocracia que se estabelecia, a Igreja possuía um enorme poder. Ela ditava a fé, e quem fosse suspeito de feitiçaria, de práticas que subvertiam a fé cristã daquela época, mesmo que por *rumores, era submetido à fogueira e queimado vivo. A clipe “La rumeur” evidencia isso.

Caça às Bruxas

Durante a Idade Média, com o estabelecimento político da Igreja Católica, uma grande perseguição social e política é decretada, perseguindo então qualquer seita pagã, com a acusação de práticas de Satanismo. Estas seitas eram acusadas também de conspirar politicamente através de magias para tentar se estabelecer no poder e então derrubar a Igreja.

Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras)

Escrito em 1484 e publicado em 1486, o Malleus Maleficarum, ou O Martelo das Feiticeiras, foi um manual de diagnóstico para caça às bruxas, sendo o mais famoso manual da prática. Durante cerca de duzentos e cinquenta anos, os inquisidores utilizaram amplamente o livro até o fim da Santa Inquisição. O manual era dividido em três partes. A primeira ensinava aos “juízes a reconhecerem as bruxas em seus múltiplos disfarces e atitudes“, a segunda a “identificar os malefícios causados por elas e como desfazê-los“, e a terceira a como “julgá-las e condená-las perante às suas acusações“. É incerto o número de mortes decorrente da caça às bruxas, mas é um número que vai de 12 mil à 9 milhões de pessoas condenadas acusadas de bruxaria.

No clipe de Manau, ele deixa claro que a sua punição é dada mediante a um rumor, o que na época ocorreu bastante, ocasionando mortes de milhares de inocentes, pois a Igreja tinha um poder, propagava os seus ensinamentos, as pessoas eram extremamente devotas, e em uma histeria, qualquer simples rumor de bruxaria era levado fortemente adiante e muitas vezes dada a sentença sem nem haver um julgamento, o que poderia então ter gerado muitas mortes na época.

A Bruxa

http://www.youtube.com/watch?v=bQcRTZJqKl0

Caminhando dentro da “vila” de Manau podemos perceber outra música onde é mesclado assuntos de Paganismo e Cristianismo. “La sorcière“, ou “A Bruxa”, pode ter sido a bruxa que o *rumor na vila citou, porém de forma errônea condenou um inocente.

O clipe e a música falam de uma bruxa, seus feitiços e arrependimentos, arrependimentos que no final a fazem buscar uma paz para sua alma, e isso sendo feito pela Igreja, evocando novamente a Cristianização.

Entre outras músicas no álbum temos, “O Amigo“, “O Amante“, “O Pagão“, “O Desconhecido“, “A Draga” e mais as já citadas, todas remontando a história de uma vila e seu lado sombrio, composto de Paganismo e Cristianismo, oscilando entre o “bem” e o “mal”.

E este é o irreverente estilo musical do grupo Manau, que deram origem em 1998, de forma totalmente independente a um novo ritmo nunca antes visto no mundo da música, mas que em poucas semanas tornou-se extremamente aceito na Europa e ao redor do mundo. Preservando suas raízes nunca esquecidas e influenciados por músicas de polos extremos se comparados à mistura feita, o trio Martial Tricoche, Cédric Soubiron e Hervé Lardic é extremamente lembrado na França como verdadeiras lendas, principalmente pela mente daqueles jovens daquela época que de forma totalmente inocente brincavam se perguntando “mas quem é a doninha?”. Manau com toda a certeza tornou-se um verdadeiro clássico e através da incerteza atingiu o topo das paradas musicais europeias com a narração da épica batalha do valente guerreiro Celta da Tribo de Dana, criando então, o RAP Céltico, e como bom bretão, se tornou um grande contador de lendas e saberes históricos através da música.

Das Ruas à Floresta, da Floresta às Ruas

O que leva a união de ritmos tão distintos como o RAP e a Música Celta? É estranho até se perguntar o ‘porque’ de tal união. Não que seja proibida uma união, pois mesclas musicais acontecem há anos, principalmente depois da grande capitalização da indústria musical e do surgimento de grandes gravadoras que buscavam sempre o lucro, e muitas das vezes surpreendendo os ouvintes com ritmos novos originados de mesclas. Porém até mesmo na inovação há sempre um “limite” entre fronteiras, e a fronteira entre o RAP e a Música Celta são de polos extremos. A Cultura Celta sempre foi bastante conservadora em relação às suas raízes, outro fato dificultador para uma possível mistura até com sonoridades próximas, mas ocorreu.

O que motivou a mistura dos ritmos?

RAP, estilo musical de discurso rítmico de poesias nascido no final do século XX, nos Estados Unidos, tendo raízes jamaicanas. Nascido nos guetos americanos, nos subúrbios das cidades, proeminente entre povos negros de classe baixa, com batidas pesadas e vozes consideradas agressivas, os primeiros RAPs surgiram tratando de temas como a violência policial, pobreza, violência entre gangues, racismo contra os povos negros, falta de moradia, de educação, sempre discutindo como sobreviver em meio a todos estes problemas, tendo uma forte crítica ao Sistema e sua omissão aos povos da classe baixa. A missão do RAP era clara: críticas, críticas ao Estado à espera de que sejam ouvidos e uma mudança seja acarretada, tanto pelo lado estatal, quanto pelo social através das mensagens que eram bastante prezadas por aqueles povos. No RAP as raízes dos povos negros eram extremamente presadas, onde incluíam principalmente descendentes de jamaicanos e africanos, da qual eram os povos pilares do estilo que se estabelecia por volta da década de 70.

Um dos primeiros grandes RAPs a ganhar notoriedade foi a música “Fuck Tha Police“, de 1987, do lendário grupo N.W.A. A sigla no nome significava “Niggaz Wit Attitudes“, ou “Negros Com Atitude“, quando traduzido. Suas músicas consideradas bastante violentas abordavam a verdadeira realidade das periferias e dos povos negros americanos, todas através de letras consideradas bastante pesadas. “Fuck Tha Police” é um exemplo. Com uma letra que relata a violência policial contra povos os negros, a música resultou em uma carta do FBI alertando para que o grupo nunca mais falasse sobre o assunto.

VÍDEO:

Apesar do aviso, o grupo não deixou de abordar os temas e compuseram cada vez mais músicas que abordavam os temas da violência nas periferias e contra os povos negros, se tornando então verdadeiros hinos nas ruas. Desde então o ritmo só cresceu, recebendo uma grande atenção e ganhando um espaço na mídia que antes se negava a apoiar.

Vimos até aí que o RAP era considerado um ritmo bastante agressivo e de pouca aceitação devido ao seu dispor a abordar certos temas de forma bem direta. Mas e a Música Celta?

Música Celta, a expressão nasceu durante o século XIX com uma óptica pan-celtista, centrando sonoridades caracterizadas como de origem Celta. Pelo fato de ser uma vertente do Celticismo, a Música Celta funde tradições bem diferentes, tanto na forma, quanto nos instrumentos utilizados, ocasionado pela variação cultural entre as seis nações Célticas. O contesto do nome vem de comunidades folclóricas formadas no seio de cada povo Celta, da qual quando unidos formavam o conhecido “Círculo Celta“, uma associação cultural transmissora e cultivadora de danças, literatura, saberes populares, teatro, arte e canções, da qual originou a Música Celta.

O cultivo cultural está ligado ao conservadorismo, o que deixa claro que estes povos prezavam muito por sua cultura ancestral. Apesar dos diversos instrumentos utilizados, as música produzidas por estes povos sempre tiveram um objetivo: o de transmissão de saberes, da cultivação através da abordagem de sua cultura nas músicas, de evocação de crenças religiosas e da descrição da história de seus próprios povos.

A Música Celta está ligada à classe das Músicas Folclóricas. “Folk lore“, ou também “Folclore“, para nós, quer dizer “sabedoria popular“, o que claramente a comunidade Celta aborda através de suas músicas. A sabedoria de seus populares, que geralmente são restringidos ao campo, à florestas, distantes desta comunicação em massa e da comercialização da cultura. Seus conjuntos de tradições geralmente são transmitidos de forma oral, o que é registrado nas canções.

Apesar de polos extremos e suas diferenças bastante perceptíveis, ambos os estilos possuem uma certa semelhança: o cultivo de suas tradições, de suas identidades. Os rappes procuravam através de suas músicas fazerem o “pensamento embranquecido” de jovens negros mudarem e assumirem suas naturalidades sucumbidas pelo mundo ilusório e padronizado vendido pela mídia. Os povos Celtas através de suas canções reforçavam a sua identidade e cultura que por serem bastante isolados, não sofriam com influências de fora, porém isso não os impedia da alta preocupação em reafirmar a identidade e prezar para que suas tradições fossem hereditariamente passadas.

A causa da Música Celta ser extremamente resistente à influências, é o fato de seus povos viverem em locais isolados de toda essa comercialização da cultura e da comunicação em massa. Outro motivo é o próprio orgulho e honra dos povos que prezam pela naturalidade. Apesar do conservadorismo, foi justamente a “massificação” de informações, de conhecimentos, a globalização que rompeu com este paradigma do ritmo e fez o grupo Manau fazer uma mescla tão radical.

Os integrantes do grupo, descendentes diretos do povo Celta, devido à influências do mundo atual, já não eram tão conservadores, e devido a mistura de paixões, resolveram prezar as raízes, porém procuraram misturá-las a ritmos oriundos de culturas totalmente diferentes, e surge aí o RAP Céltico. Por isso os contos antigos que nossos avós nos contavam, as histórias antigas, os saberes populares estão se perdendo, pois o foco da nova geração é outra, e ela não é conservadora. É uma verdadeira afronta a um universo tão rico e espetacular.

O Peso e a Suavidade

Se tratando de sonoridade, qualquer um pode deduzir que a Música Celta e o RAP possuem melodias totalmente diferentes. Com instrumentos como flauta, violino, harpa, concertina, bardo, bodhrán, acordeon e alguns outros, a Música Celta cria uma sonoridade extremamente suave, calma, com melodias que sossegam e acalmam bastante, sons bem harmônicos com efeitos quase que hipinóticos para alguns, mas a caraterística clara, é sua suavidade. O RAP possui a maioria de seus sons produzidos quase que em sua totalidade através de instrumentos digitais, como por exemplo a MPC, aparelho capaz de produzir as batidas de RAP, que como todos sabem, são bem “pesadas”, agressivas, violentas. Ao menos em sua maioria eram no início. Se os dois ritmos forem colocados à postos, fica claro qual é o mais suave e qual é o mais agressivo.

EXEMPLOS DE RAP:

Me And My Girlfriend“, do lendário Tupac:

http://www.youtube.com/watch?v=xanbCoeQnT0

Tupac – Tradin War Stories

http://www.youtube.com/watch?v=D9tw8a3ZolE

É possível perceber bem a força das batidas e a “agressividade” das rimas.

EXEMPLOS DE MÚSICA CELTA:

Nolwenn Leroy – La jument de Michao

Nolwenn Leroy – Tri Martolod

Colocando os dois ritmos lado a lado, a enorme diferença fica bem clara, diferenças que vão desde vestimenta até os locais resididos pelos ouvintes e cantores do ritmo.

Apesar da grande diferença, isso não impediu que houvesse uma quebra e realizassem uma fusão radical e extremamente criativa dos estilos. A mescla foi bem aceita pelo público e acabou dando origem a um novo ritmo inovador no mundo musical. Apesar do resultado, nem tudo são flores. A mistura dos ritmos mostra claramente a perda do conservadorismo por parte dos ritmos. Não que isso seja proibido, pois inovações são sempre positivas, porém a deixa das raízes e o espaço aberto para novas misturas, pode acabar apagando as raízes tradicionais, e somado à comercialização da cultura, pode significar uma perda total para uma cultura. Isso já vem acontecendo com contos, histórias e saberes populares que antes eram contados por nossos avós. A não passagem dessas tradições nestas novas gerações deixa mais do que claro que o foco delas são outros e já mais não se importam tanto com os conhecimentos antigos, o que é uma grande perda para nossa sociedade.

Curiosidades

Na Cultura Celta tínhamos o bardo, um sujeito simples, que sempre andava acompanhado de seu alaúde, e ele era encarregado de através de seus cantos, transmitir saberes para os povos. Mais tarde ele seria designado Trovador, um sujeito culto, poeta especialista em romance e criador de letras, através de improvisos com seu alaúde.

Nas tradições Celtas, os povos cultivavam o costume de duelos de rimas e frases através de cantos improvisados somente a base de simples instrumentos, como por exemplo, o alaúde. Por incrível que pareça, o RAP também possui este estilo de “batalha” da qual cada MC (Mestre de Cerimônia) possui uma certa quantidade de tempo, normalmente 45 segundos para cada, e cada um tem que desferir rimas contra o outro a fim de melhor se sobressair nas rimas e no fluxo de palavras, nunca perdendo o ritmo. Quem se destacar mais, vence, em ambas as culturas.

Esta relação incrível entre os dois gêneros realmente vem de raízes antigas da Música Celta. Nos EUA imigrantes irlandeses e escoceses levaram a tradição de duelo quando deixaram suas terras, e lá estabeleceram sua cultura, preservando então as raízes. Lá começou a ocorrer duelos de country e de jazz de raiz, acabando por influenciar o RAP. No Brasil as influências vieram do repente, que chegou no país através de imigrantes europeus, no mesmo processo que ocorreu nos EUA.

Apesar das extremas diferenças, é possível encontrar uma curiosa semelhança única entre os dois gêneros.

“Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira” – Tolstoi

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