Hoje, 22 de abril, uma das lendas do RAP Brasileiro (na minha humilde opinião, a maior) completa 43 anos. Como bem ressaltou a Paula Farias, no portal RAP Nacional, hoje também marca o dia do “descobrimento” (invasão) do Brasil. Coincidência que exatamente esse homem seria uma das referências atuais da luta das minorias por igualdade no país?

Através da palavra, do ritmo, da poesia, Mano Brown levou conhecimento, informação e autoestima aos excluídos; armas necessárias para a luta. E sim, há ainda muita luta. Porque mesmo 513 anos depois, parece que todos os dias temos que nos defender dos “portugueses” que invadem nossas terras e nos exploram.

Se a música do Brown (e de todo Racionais) tem influência inquestionável no desenvolvimento do RAP Brasileiro e possivelmente até de muita gente da periferia, ainda há quem queira discutir mazelas como esta que destaquei no vídeo, acima do texto. Pra algumas pessoas, a aparição do Brown num clipe de um conterrâneo funkeiro ultrapassa qualquer pensamento anterior do rapper.

Pior: eles realmente acreditam que essa aparição é amostra inquestionável da mudança de ideologia dele. Seria cômico se não fosse trágico. Primeiro, vamos aos fatos: ano passado, Mano Brown gravou a música “Mil faces de um homem leal” especialmente para aquele que é considerado por muitos como o “Che Guevara brasileiro”; mês passado, deu uma entrevista completíssima à revista Fórum questionando sobre as mortes na periferia e mostrando tudo que o velho Brown sempre mostrou (talvez ainda mais direito).

Onde está a mudança de ideologia?

“Pobre é o diabo, eu odeio ostentação”

Ah, é verdade, a maior crítica em relação à aparição do Mano Brown no clipe do seu conterrâneo funkeiro é porque ele diz os versos acima na “Vida Loka parte 2“. Primeiro, a pergunta: ele aparecer em um clipe que mostra ostentação, mesmo que em um contexto totalmente diferente (podemos ver claramente que ele não está na cena com carros e tudo o mais), significa que ele está defendendo ostentação? Se sua resposta é “não”, pronto, resolvido esta parte.

Se sua resposta é sim, continuamos o pensamento. Bom, a cena em que Brown aparece é totalmente diferente de qualquer coisa no resto do clipe; ele aparece apenas dando um apoio a um MC local, como sua assessoria disseATUALIZAÇÃO (23/04, às 12:03): aliás, se for pra fazer uma análise profunda sobre criticar ostentação e simplesmente aparecer em um clipe que ostenta, mesmo que em um contexto diferente, então temos que olhar para nós mesmos e pensar em nossa postura diária: somos contra as leis da nossa sociedade, mas mesmo assim as seguimos; somos contra a maneira como os bancos operam, mas mesmo assim temos conta lá. Isso significa que somos vendidos? Que somos ainda mais hipócritas? Que nossa ideologia é falha?

Brown nunca foi contra o funk, como o portal RAP Nacional mostrou lembrando sua entrevista à revista:

O errado é os que não são do funk não protestar pelos os que são do funk. Tem que protestar por eles e eu já ando falando em alguns lugares também. A gente sabe que na verdade ali é racismo puro, isso é racismo puro, porque nos anos 80 o rock falou o que quis e pregou o sexo abertamente (…)

É o mesmo povo, é a mesma cor. Eles não estão diferenciando se canta funk, rap ou samba. É favelado falando, eles não gostam (…)

Acho uma cena sincera, diversificada. É necessário diversificar, é necessário que tenham vertentes, é necessário que os mais antigos entendam os mais jovens, acolham eles e interajam. Não fechar as portas como alguns antigos fizeram com a gente, porque choque de geração é uma coisa ultrapassada, tem que acabar com isso. A gente tem que entender os jovens, porque senão eles vão atropelar a gente. Ou entende ou será atropelado, porque o novo é o novo (…)

A mesma ideologia se mantém. E isso é sério! É bastante assustador o quanto as pessoas conseguem acreditar na conexão de uma coisa com outra quando essas não têm nada a ver. A frase de “Vida loka parte 2” que todo mundo se abraçou pra criticar o Brown não justifica merda nenhuma de mudança de ideologia.

A música é ruim…

Outro argumento foi o fato de o Mano Brown aparecer em uma música “ruim”. Primeiro, eu, particularmente, não gosto do funk que tão fazendo hoje em dia, realmente não é minha praia. Mas, prefiro acreditar no que diz o poeta periférico Sérgio Vaz: “música boa é aquela que a gente gosta”. Se a música é ruim ou não, foda-se. Isso não significa nada em relação ao Brown e sim em relação à carreira do MC Pablo.

Se ele fosse vizinho do Renan Calheiros, ia gravar também?

Sério, esse pensamento foi o mais idiota, mas pelo menos deu pra rir. Sim, porque um cara que faz funk é tão ruim pro Brasil quanto um Renan Calheiros, né? Exatamente o pensamento que os “fãs modinha” da cultura de rua têm. Uma vez, Sany Pitbull, um dos DJs monstrões do Brasil no quesito, falou: “o funk de hoje é o reflexo do que acontece nas favelas” (talvez não nessas palavras, mas mais ou menos isso aí). Mesmo considerando que o funk de hoje seja um mal pra sociedade, ele é apenas um reflexo dos problemas maiores; convenhamos, há muito mais pra se fazer e acabar com o funk de hoje não seria nunca a primeira atitude (não uma sensata, pelo menos).

Quanto à questão inicial: apoiar alguém que tem um sonho e está numa carreira honesta e trabalhadora é infinitamente diferente de apoiar um criminoso do porte do Calheiros.

Entendam a lógica: quando Mano Brown (ou sua assessoria) diz que apoia alguém que é da sua quebrada, ele não diz que é este exclusivamente o motivo. É o motivo diferenciador, mas é bastante provável que tenha sido levado em consideração o fato de o cara não ser o Renan Calheiros ou qualquer outro político supostamente (né) corrupto.

Parabéns, Mano Brown

Este foi uma das publicações mais inúteis que já fiz na história do Vai Ser Rimando. Por quê? Primeiro, porque se a integridade do Mano Brown tivesse realmente em jogo, não seria eu quem poderia defender. Segundo, porque se você realmente questionou a ideologia do Mano Brown após ver o clipe, então você não terá inteligência o suficiente pra ler este post inteiro e parar pra refletir. Terceiro, porque é só mais lenha numa fogueira que era muito melhor apagada.

É triste perceber como o sistema acabou com o pensamento da maioria das pessoas. Ninguém mais para pra pensar; ninguém mais reflete sobre o que fala. As pessoas reclamam de rappers que mudam de ideologia, mas basta uma frase jogada ao léu que elas já se agarram pra criticar; fazer algo de bom, ninguém quer.

43 anos depois de tanta luta e tanta dedicação por pessoas que nem mais tinham forças para se defender e tem gente que já colocou esse fato isolado à frente de todos os outros de Brown. Não estou dizendo que ele não deva ser criticado quando fizer algo errado, pois deve sim. Já falei outras vezes: a crítica e o RAP andam lado a lado, não há como negar. O RAP nos ensina a sermos críticos.

Entretanto, ele também nos ensina a pensar, a refletir, a medir palavras e ações. A crítica deve existir, mas ela deve ser construtiva. Criticar o outro porque ele possui uma opinião diferente da sua não é o que o RAP ensinou. Pelo contrário, é o que tentou abolir com rodas de conversa e chamadas para discussão (aquelas de verdade).

Aliás, se existe um cara que merece o benefício da dúvida (por mais que eu ache que esse nem é o caso), esse cara é o Mano Brown. É o tipo de cara que você deveria pensar ainda mais vezes antes de criticar; certificar-se mesmo da sua opinião. Mesmo se fosse um grande erro de julgamento, há poucos com tanto crédito quanto ele. Mano Brown é o Pelé do RAP Brasileiro? Desculpa, mas o Pelé vai ter que jogar muita bola ainda…

Não perca mais nenhum post!

2 Comments

  1. parabens pelo texto , tive esse mesmo pensamento kuando li os primeiros komentarios sobre o fato , kerer julgar o Brown por isso , kerer apagar tda uma historia imensa de luta por um fato q nem pararam pra analisar direito eh no minimo besteira .

    outra coisa q acontece mto esses ”fãs” q tanto julgam os rappers de se venderem e tal , sao os mesmos q tds os dias abaixam a cabeça pro patrão no trampo, mudam suas atitudes conforme os ‘ amigos ” moldam.

  2. Engraçado é que no programa do MV bill “as voz das periferias” na rádio roquete pinto , onde uma quantidade de pessoas do brasil todo vieram para conhecê-lo ele não veio. baita vacilão.

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