Está cada vez mais difícil falar de RAP sem entrar no assunto da nova e velha geração, novos pensamentos e um monte de coisa nesse sentido que tão tentando te empurrar. Existe uma “nova geração do RAP”? Sem dúvida, mas é uma questão de tempo, não uma questão de ideologia.

A “nova geração do RAP” deveria ter o mesmo peso que a nova geração da seleção brasileira: em algum momento, antigos craques são substituídos para a chegada de novos. A única diferença é que no RAP você não precisa escalar apenas 11, ou seja, você pode continuar ouvindo e “escalando” todas as gerações.

A “nova geração do RAP” seria apenas uma quantidade grande de novos nomes surgindo pra somar ao que já havia sido criado até hoje, até que a mídia percebeu que poderia lucrar muito com essa mudança, resolveu “mexer seus pauzinhos” e fazer parte disso tudo. Uma benção e uma maldição ao mesmo tempo.

É inegável que a grande mídia pode ajudar a mensagem a chegar o mais longe possível e fazer com que o RAP Brasileiro seja ouvido por cada vez mais pessoas. Entretanto, eles não conseguiriam “vender” pro seu público artistas como Racionais, Facção Central, Realidade Cruel, Dexter, entre outros. Ao ler esses nomes e perceber que era sobre RAP, o público iria associar à música de favelado, música de bandido, como sempre foi.

Eles precisavam englobar todo o barulho que esses “novos rappers” estavam fazendo na internet para seu jornal, seu programa, sua revista, etc., mas precisavam fazer isso sem que o seu público original recriminasse. Então, o que que eles fizeram? Criaram o “novo RAP”. Não uma “nova geração”, mas praticamente um novo gênero.

Focaram na expressão de “novo RAP” e não largaram o osso até dizer que o RAP não era mais protesto e “violência”, que o “novo RAP” rimava só o amor e coisas boas da vida. De quebra, quando podiam, ainda acrescentavam a palavra “ideologia” aqui e ali, porque eles sabem que os fãs do gênero amam a expressão.

O RAP NUNCA FOI SÓ PROTESTO E “VIOLÊNCIA”! Antes mesmo do Racionais, Thaíde e DJ Hum abriram várias portas pro RAP e, por mais que houvessem críticas sociais aqui e ali, não eram focados nisso (aliás, Thaíde sempre defendeu o sorriso, o carisma, atitude que elogiava muito no Sabotage); é só ver o documentário do Black Alien pra perceber que ele não só fazia um RAP que transcendia o próprio RAP, tanto solo quanto com o Speed, como rimava em inglês, misturava estilos e nunca fez questão de se prender ao protesto; Speed mesmo disse em uma entrevista que música, pra ele, era diversão, esquecer um pouco dos problemas, que para protestos ele preferia uma entrevista; uma das músicas que o público do RAP mais gosta de ouvir, a “Tik Tak”, do Doctor MC’s, não tem protesto algum.

E poderíamos citar centenas de exemplos… O ponto é o seguinte: sempre existiram os rappers focados naquilo que chamam do “gangster” e outros que não eram tanto assim. Sempre! A diferença é que, principalmente por causa da internet e do maior acesso à tecnologia, o número de MCs multiplicou-se por mil, o número de aparições multiplicou-se por milhões.

Entretanto, depois que a grande mídia começou a ligar a “nova geração do RAP” exclusivamente a um RAP menos politizado, parece que é só isso que é feito. Depois que as músicas de mais sucesso eram, em sua maioria, menos politizadas, parece que só foram feitas músicas assim. NÃO VAI PRA GRUPO, IRMÃO!

Existe uma quantidade grande de RAPs menos politizados? Claro que existe, mas SEMPRE existiu! Aumentou o número de RAPs menos politizados? Com certeza, mas é preciso levar em consideração que o número de RAPs aumentou também, a proporção talvez seja até a mesma!

Outra coisa, só porque o RAP não diz “o policial me deu um tiro na cabeça” não quer dizer que não esteja protestando veementemente! Existem diferentes formas de criticar e atacar o sistema, precisamos conseguir compreender o que o RAP tá querendo dizer exatamente antes de julgar. Aliás, uma página no Facebook, chamada “Filosofia de Quebrada”, que adapta frases históricas ao RAP, trouxe à tona uma frase de Rabindranath Tagore (“Compreendemos mal o mundo e depois dizemos que ele nos decepciona”) adaptando para “Compreendemos mal o RAP e depois dizemos que ele nos decepciona”.

E isso contribui para o pensamento que a grande mídia quer implantar na sua cabeça: o RAP de hoje não tem a mesma ideologia de antes. Eles estão conseguindo alienar boa parte dos fãs de RAP dessa maneira. Eles focam apenas num lado do RAP, fazendo com que quem é fã, não olhe o outro lado da moeda e com que os fãs do RAP gangsta critiquem artistas que a grande mídia mostrou, como se eles fossem os grandes culpados de algo.

Existem artistas que só fazem música de protesto; existem artistas que misturam músicas de protesto com outros tipos de música; existem artistas que fazem música só pensando no entretenimento. Não podemos julgar uma geração inteira por um ou outro artista, assim como não podemos julgar um gênero por um ou outro artista, assim como nem deveríamos julgar artista algum por estar fazendo seu trabalho de forma honesta.

O “novo RAP” não existe. O RAP Brasileiro é e sempre será o mesmo. Temos sim uma “nova geração” e teremos muitas outras daqui pra frente.  Obviamente, temos artistas que agem, pensam e falam coisas diferentes, mas isso é positivo. Se muitos deles não são tão politizados, isso sempre existiu. Foi amplificado pela evolução natural das coisas, mas sempre existiu.

Enquanto os ídolos do RAP Brasileiro ainda forem Racionais, Facção Central, RZO, Realidade Cruel, Gabriel o Pensador, Sabotage, entre outros, podem ter certeza que a ideologia base de qualquer geração que vier pela frente vai se manter…

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4 Comments

  1. O Rapper C4bal quando estava na cena pregava isso e ao inves de receber criticas (construtiva com senso) era julgado e apredejado como cantor Pop e os mais extremos falavam que ele estava degredindo o Rap no Brasil; e hoje os mesmo que criticavam e outros Rappers estão usando a mesma idéia de maneira diferente. Obrigado pelo espaço.

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