Projota já havia anunciado: “Depois da ‘Projeção Pra Elas‘, esta vai ser uma mixtape mais pesada”, e não foi dito à toa. Veio uma mixtape realmente pesada! Mas não somente um peso alusivo, foi uma peso em forma de verdade, muita verdade nas letras para retratar a realidade mesmo. Esse é o Projota: músicas que retratam quase que literalmente o que vê.

Outra parada que eu lembro até hoje que ele falou antes de lançar a mix é: “A ‘Projeção‘ foi pra mostrar a necessidade de superação, minha luta. Agora as coisas mudaram, quero buscar a ‘projeção’ dos meus”. E em várias músicas da “Não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar” ele retrata isso. Pra deixar bem claro, é só escutar “Em Volta da Fogueira (prod. Mr. Break)“, na qual ele fala no refrão: “Meu sonho é ver os meus irmãos em um bom lugar”.

Impossível fazer um post sobre a nova mixtape do Projota sem falar de “Pode se envolver (prod. André Laudz)“, mas eu já falei sobre ela no post “Projota envolve o Brasil todo com clipe da música ‘Pode se envolver“, então podem conferir lá.

Faz todo sentido a mixtape ter começado com a “Desci a Ladeira (prod. DJ Caique)“, afinal “Eu desci a ladeira, pra ver o que tinha por lá. E voltei (…) Não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar“. É meio que um resumo em poucas palavras do que a mixtape fala: Projota viajou o Brasil todo, lançou vários sons, cresceu, melhorou, aprendeu, e agora está de volta “ao seu lugar”, não físico, mas em música. Tirando o amadurecimento, a mixtape “Não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar” é mais parecida com “Carta aos Meus” do que qualquer outra do rapper.

Quando Projota diz que essa é uma mixtape pra que olhem pros “seus”, ele não se refere aos amigos somente, mas sim a todos que nasceram e viveram nas mesmas condições que ele, trabalhadores sofredores do Brasil todo. As músicas “Resident Evil (prod. Projota | Instrumentos: André Maini)” e “RAP do Ônibus (prod. DJ Caique | Part. Terra Preta)” falam sobre o problema das drogas, da cracolândia e da dificuldade dos trabalhadores com o sistema de transporte urbano, respectivamente. Problemas esses que são vistos pelo Brasil todo e precisam ser retratados.

O RAP sempre foi uma música de protesto, e o que o Projota fez foi pegar sua fama, o seu reconhecimento, e reapontar pra todo mundo os problemas já sabidos que muitos fingem não ver. E isso se repete em várias outras músicas: “Ninguém acha talento do basquete sem tabela”, que ele retrata em “Nós Somos Um Só (prod. Mr. Break)“, mostrando que não adianta esperar o melhor dos muleque da quebrada se ninguém oferece nada de bom a eles. Uma puta de uma boa metáfora pros problemas estruturais do país, não acham? Eles querem encontrar Einstein, mas não oferecem educação. Querem Usain Bolt, mas não oferecem estrutura esportiva. Os que vencem nessas condições são muito mais do que talentosos, são esforçados, superadores, duplamente vitoriosos.

E se o cd é pesadão, para pra ouvir “64 linha (prod. DJ Caique)“. Sei que você já ouviu, mas para pra escutar e sentir… Se você conhece a “história da música”, você vai entender o que eu tô falando. Uma resposta do artista aos que tanto falam deles, no caso, do Projota pros faladores que sempre têm algo pra criticar no trabalho do cara, mesmo sem embasamento. “Dentro de um portão qualquer chihuahua late!“. Uma das músicas mais pesadas do cd e talvez do Projota!

A música “A Cama (prod. Laudz)“, que talvez seja a mais “tranquila” do cd, mesmo que disfarçadamente também possui uma mensagem maior: a dificuldade em formar uma família, mobiliar uma casa, obter condições vivíveis quando se vive de ínfimos salários mínimos.

Enfim, esses foram apenas alguns destaques e o cd tá cheio deles. Vale a pena baixar, comprar e ouvir. Projota mais uma vez mostrou que pode transitar facilmente entre os temas, saindo de uma “Projeção Pra Elas” pra algo tão pesado quanto “Não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar“. O rapper mostrou que ainda tem muita coisa pra falar, muitas verdades pra mostrar. Fica muito mais fácil dar um tapa na sociedade quando se coloca tanto sentimento na música. E mais, o “novo RAP” que muitos julgam existir, é mentira. A geração é nova, mas a ideologia segue forte, pois a revolta ainda existe. Projota está aí pra provar, é só parar pra ouvir e pensar.

Parece que sentem vergonha de se render à beleza do RAP, por isso chamam de “Novo RAP”, como se fosse desculpa pra poder gostar. Vai vendo…

Não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar – Projota

  1. Desci a ladeira (Prod. Dj Caique)
  2. Pode se envolver (Prod. Laudz)
  3. Nós somos um só (Prod. Mr Break)
  4. Mais do que pegadas (Prod. Projota)
  5. Resident evil (Prod. Projota / Violão, baixo e guitarra: André Maini)
  6. Rap do onibus (Prod. Dj Caique / Part. Terra Preta e Laudz)
  7. Vai clarear (Prod. Hand)
  8. Pode correr (Prod. Phill)
  9. Ordem e desordem (Prod. Zap San)
  10. Azz veizz (Prod. Dj Caique / Part. 3F’s)
  11. Carrinho de feira (Prod. Black Bone / Violão: Cassius)
  12. A cama (prod. Laudz)
  13. Pra não dizer que não falei do ódio (Prod. Dj Caique)
  14. 64 linhas (Prod. Dj Caique)
  15. Em volta da fogueira (Prod. Mr Break)
  16. Creditos (Prod. Dj Caique)

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