A parceria entre Marechal e Costa Gold, que trouxe o Luccas Carlos no dab, deu novas forças a uma grande questão do rap brasileiro: saber quem tava lá. A questão é antiga, mas por se tratar de um estilo musical que preza tanto por suas raízes, não é muito raro vê-la pipocar aqui e ali.

Mano Brown, na “Negro drama”, já questionava onde esses que falam da sua grana tavam “na época dos barraco de pau lá na pedreira”; o Emicida e o Kamau têm uma faixa toda rimando sobre “De onde cê vem?”; duas, se cê considerar que a “Komwé” traz versos como “nunca vi no rolê, no metrô, no busão, na função, no perrê” ou “pra opinar nas ação do Emicida, mais de mil; engraçado, Leandro quase morreu de fome, ninguém deu um piu”, e tantos outros exemplos cabíveis. Aliás, aquela eterna discussão de velha e nova escola, que é grande demais pra ser revista aqui, passa não muito longe.

Compreensível, afinal, o próprio hip hop como um todo sempre foi uma cultura que destacou o pertencimento. “Quem nunca teve voz, agora tem voz e é ouvido; pessoas param pra ouvir o que você tá falando. Mais que isso, esses jovens começaram a se sentir parte de um grupo. O crime é um grupo; o tráfico de drogas é um grupo; e a Batalha da Santa Cruz começou a fazer com que esses moleques fizessem parte de um outro grupo: não mais da estatística que morre antes dos 30, e sim da estatística que passa numa faculdade”, como bem observou o Marcello Gugu em seu incrível Talk, no TEDxBlumenau. Ou seja, “estar lá” sempre foi e sempre será importante.

Entretanto, onde é “lá”? Onde é esse lugar que eu deveria estar pra ser considerado alguém no rap? É aí que a música bate num ponto importantíssimo que muitas pessoas deixaram passar em meio a teorias sobre quem zoou quem: esse lugar não existe, nem no tempo, nem no espaço. Ou melhor, até pode existir, mas seria tipo uma Sala Precisa.

A questão verdadeira é: esteja lá; faça parte. Por isso, gostei tanto da “resposta” da Lívia Cruz. Embora ela tenha dado umas cutucadas, estas foram mais pelo machismo que os caras insistem em destacar nos versos. O foco das linhas era aproveitar o gancho e contar sua história, destacar o bonito trampo já feito. No caso dela, por ser mulher numa “brincadeira” erroneamente considerada masculina, a mensagem fica ainda mais forte: o já importante pertencimento do “eu tava lá” evolui pra representatividade; a mensagem empodera e as meninas que antes não tinham exemplos femininos na cena, passam a se ver representadas e a ocupar mais espaços.

É claro que a brincadeira é válida; tirar o coleguinha porque ele não tava em determinado evento ou porque o seu rapper favorito é “bebê” pode, sim, ser divertido. Mas, entender até que ponto isso é relevante vale mais. Ao mesmo tempo que é preciso compreender a dimensão da importância de alguém que fez rap numa época que os recursos eram tão escassos, é preciso também perceber que é possível impactar e criar algo grandioso na cena sem ter tanta história pra contar.

Eu não tava lá nas block parties do Kool Herc, nem tava lá ouvindo os primeiros scratches do Grandmaster Flash; eu acho que nunca nem ouvi a voz de Afrika Bambaataa. Não tava lá na esquina da 24 de maio com a Praça Dom José de Barros, nem tava lá na São Bento; mano, eu nunca fui nem na Batalha do Real, do Conhecimento ou da Santa Cruz. Eu não conheço pessoalmente o Nelson Triunfo, nunca vi de perto um graffiti d’Os Gêmeos, nem nunca pixei uma parede; acho que nem saberia segurar uma lata de tinta. Eu definitivamente não tava lá nas fotos do Luccas Carlos ou limpando os vômitos do Bacon no banheiro, muito menos tava lá na casa do Predella em 2008.

Mas, ainda assim, desde 2009, acredito que vi e presenciei muita coisa bonita acontecer no hip hop. Mais do que isso, ao me aprofundar na cultura, mesmo que, ao meu ver, de forma bem rasa, e compartilhar a mensagem através de opiniões e até mesmo o puro e simples passar adiante, sinto que impactei positivamente a vida de muita gente. É óbvio que eu queria ter estado em inúmeros dos momentos que, só de ouvir relatos, já me arrepiaram, mas, infelizmente, não foi possível e o que sobrou foi a vontade de estar lá no próximo.

Seja você um Mano Brown ou alguém que ouviu o primeiro rap ontem, conheça a história, compareça aos eventos, faça sua arte, compartilhe a do coleguinha, respeite, escute, debata. Contribua. Da sua forma, do seu jeito, no tempo que for, mas esteja “lá”, independente de onde o seu “lá” esteja.

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