A relação entre o RAP e a escola sempre foi conturbada. “Problemas com a escola, eu tenho mil”, já rimava Mano Brown milianos atrás. Os motivos são diversos, mas a rigidez da estrutura educacional é provavelmente o mais agravante.

O que as crianças e adolescentes aprendem na escola está, na grande maioria das vezes, bastante distante do que eles veem fora dela no dia a dia. Enquanto a sociedade muda a toda hora, a escola, por ter todo um processo burocrático, leva décadas pra se atualizar.

A gramática é, talvez, o principal exemplo disso. Imagine o susto de uma dessas crianças ao ter que fazer textos gigantescos sobre temas que elas não se importam com palavras que elas nunca usaram, quando estão acostumadas a escrever “vc”, “msm”, “blz”, etc. Não vou entrar no mérito do que é correto ou não, apenas  ressalto como é compreensível o desgosto por certas matérias.

É isso também que as aproxima do RAP. O RAP não só traz temas relevantes (independente de qual é o tema relevante pra você, sempre tem um rapper que fala daquilo), mas também o apresenta de maneira que você consiga se relacionar, como se aquilo tivesse sido feito pra você mesmo, diferente do que é ensinado na escola, que parece coisa pro seus pais. O Emicida tem uma frase que resume bastante desse assunto: “a língua culta não tem suingue”.

Aliás, falando no cara, ele apareceu nesta tarde (18) em uma matéria do Jornal Hoje, da Rede Globo, comentando sua relação com a língua portuguesa. A parada girou quase que inteiramente em cima das suas letras, o motivo pelo qual muitas delas fugiam à concordância verbal, a maneira como as pessoas as compreendiam. Curiosamente, foram citados os versos de “Rua Augusta”, assim como na entrevista do mesmo pra Marília Gabriela, quando também falou do assunto.

“Eu não acho [difícil o português] agora, depois de 29 anos, depois de ter lido todas as coisas que eu li. Muito pelo contrário. Mas, na época, na escola, eu demorei pra ver a beleza da nossa língua. Porque a escola, mais do que a Academia, precisa saber fazer essa ligação [da linguagem popular com a linguagem culta] com urgência porque você conecta o mundo de fora com o mundo de dentro da escola. Quando a escola começa a funcionar como uma bolha, onde tudo que acontece fora dela fica fora dela, os alunos passam a ver com um certo ceticismo o que é ensinado na escola”, analisou ele.

Emicida ainda conclui o pensamento atentando pra uma terceira linguagem: “Ele aprende o de lá, mas guarda o daqui. No final das contas, eles vão montando uma terceira [língua], e hoje tá pior do que quando eu comecei. Porque hoje, com a Internet, com as redes sociais e com os smarphones, tudo se adéqua à necessidade de escrever usando a menor quantidade de caractere possível. O ‘mesmo’ que a gente só tinha tirado o ‘s’ vira só ‘msm’ e acabou. Aí, a gente tem que começar a entender o que que é essa nova língua. E tem que entender também como essa nova língua vai se conectar com a norma coloquial da rua e da Academia.”

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2 Comments

  1. Tenho 16 anos e hoje na escola já é muito “normal” ver geral errando na hora de escrever um texto dissertativo, ou coisa assim, muitos não querem nem saber se escreveu certo ou não, é meio que tanto faz tanto fez. Eu já fui assim, não ligava muito pra essas coisas mas depois que eu comecei a me interessar pelo o RAP NACIONAL isso mudou totalmente, a cada som que eu escutava me interessa bastante pela a visão do cantor e pá, e eu percebia que todos falavam para a nova geração estudar, se informar porque o negócio é sério, é tipo pra vida inteira, aí então comecei a me dedicar mais e observar mais tudo isso só que o foda é que as escolas as vezes passam informações distorcidas ou até mesmo algumas mentiras, como por exemplo o descobrimento do Brasil, que era uma puta mentira de Pedro A. Cabral ter “Descoberto” e pá, demorou muito para os professores desmentir essa ideia errada, AINDA TA FODA ESSA EDUCAÇÃO QUE NÓS RECEBEMOS NAS ESCOLAS ..

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