O confronto entre a polícia e os rappers é de longa data. Como gênero musical que comumente expõe as ações do governo contra o povo, não é raro ver letras e clipes que criticam aqueles que supostamente deveriam defender os cidadãos.

Escancarada na música “Fuck the police” (“Foda-se a polícia”, em tradução livre), do estadunidense N.W.A., a relação conturbada entre os rappers e os policiais se multiplicaram pelo mundo e pelo Brasil, incontáveis vezes. Mais recentemente, Emicida foi detido após show em Belo Horizonte por, supostamente, incitar violência aos policiais que estavam no local na música “Dedo na ferida”.

Entretanto, parece que tem gente querendo mudar essa situação, pelo menos lá no Distrito Federal. No dia 9 de junho, durante a Batalha do Museu, batalha de MCs que é realizada costumeiramente aos domingos, em frente ao Museu Nacional da República/DF, um acontecimento bastante peculiar chamou a atenção: alguns policiais da PM local, mais especificamente do GTOp (Grupo Tático Operacional), aproximaram-se do evento e, ao invés de expulsarem os participantes do local, pararam para apreciar.

“A principio quando os vi, eu fiquei meio apreensivo, pois o rap ainda é mal visto pelos olhos da sociedade. Achava que os Policiais (GTOP) iriam nos expulsar do local. Mas me impressionei com a situação, pois, eles desligaram a viatura e ficaram apreciando as Batalhas que estavam acontecendo no momento”, contou MC Kamorra, um dos organizadores da batalha, através do Facebook. “Disponibilizaram o som da viatura para colocar o pendrive dos beat’s e obviamente nós deixamos, e eles pra complementar ligaram o giroflex para iluminar o local da Batalha. Confesso que amamos a atitude. Teve até um jovem que pediu para que eles voltassem no próximo domingo. Isso nunca tinha acontecido lá!”, afirmou.

Além de destacar a boa ação dos policiais em ajudar na realização da batalha, Kamorra também comenta sobre a rixa entre a polícia e os integrantes do RAP. Embora não faça ideia de quando ela acabará, o MC mantém-se positivo: “Existem Policiais errados sim como existem Manos e Minas do movimento Rap errados também. O certo é ambos se respeitarem, e certeza, que tudo sairá bem. Como sempre um dos lados tem que ceder seu lado pra que tudo saia bem, creio que se os outros Policiais seguirem esse exemplo que os Policiais da GTOP fizeram, a mudança poderá ser revolucionária.”

No fim, os policiais até tiraram foto com os presentes (foto abaixo). Se este foi apenas um pequeno passo para a “Batalha do Museu”, talvez tenha sido um salto gigantesco pra relação entre o RAP e a polícia.

Abaixo você confere a entrevista com MC Kamorra na íntegra:

Policia respeita Batalha do Museu em DF

Antes de mais nada, gostaria de saber um pouco mais sobre a história da Batalha do Museu. Como, quando e onde começaram e se desenvolvem os encontros?

A Batalha do Museu foi criada (dia 22 de Abril de 2012) devido a carência de Batalha de Mc’s no Distrito Federal. O nome ainda não seria esse, chamava-se “Evento do Mc Zen”, fundador da Batalha que logo se chamaria “Batalha do Museu”. O nome “Batalha do Museu” foi devido ao local onde a Batalha foi criada, no Museu Nacional da República – Brasília – DF.

A Batalha do Museu que hoje em dia é considerada um dos ícones de Batalhas de Mc’s do Brasil, não teria sido criada com esse objetivo. O objetivo era mas um encontro entre amigos, onde seria ali um ponto de descontração. O nosso plano inicial foi um pouco difícil, pois no tempo não tinham Mc’s suficientes para as Batalhas. Os espectadores muitas vezes eram os próprios Mc’s, poucas vezes pessoas convidadas frequentavam o evento. O efetivo era de mais ou menos 10 pessoas onde 8 eram Mc’s.

Com o decorrer do tempo e com o meio de divulgação pela Vato Vídeos (empresa criada por Marcos Kamorra, atualmente um dos coordenadores da Batalha do Museu), a Batalha do Museu foi expandido pelo Brasil. Batendo recorde pessoal de 26 Mc’s para batalhar em um único domingo. No entanto a Batalha do Museu hoje tem 1 ano e 2 meses de existência, e mais de 50 encontros de Mc’s realizados todo domingo as 16:00 horas, no Museu Nacional da República – Brasília – DF.

Coordenadores da Batalha do Museu: Mc Zen, Mc Biro-Biro, Mc Kamorra.

No último domingo, um acontecimento bastante peculiar no evento: PMs prestigiaram e ainda forneceram luz e o som para que a batalha continuasse. Como aconteceu essa aproximação? Já havia acontecido em outras ocasiões?

A principio quando os vi, eu fiquei meio apreensivo, pois o rap ainda é mal visto pelos olhos da sociedade. Achava que os Policiais (GTOP) iriam nos expulsar do local. Mas me impressionei com a situação, pois, eles desligaram a viatura e ficaram apreciando as Batalhas que estavam acontecendo no momento.

Mas o mais impressionante estaria por vir, ao decorrer do tempo. A nossa caixinha portátil onde nós colocávamos os instrumentais de rap para que os Mc’s pudessem rimar, estava com a bateria fraca. Então um dos Policiais perguntou: “Porque o som está baixo?” e um de nossos Mc’s chamado Van Lee respondeu: “Porque a bateria da nossa caixinha portátil está descarregando.” e o Policial respondeu: “Pega o pendrive lá, que eu vou colocar aqui no carro agora.”

Disponibilizaram o som da viatura para colocar o pendrive dos beat’s e obviamente nós deixamos, e eles pra complementar ligaram o giroflex para iluminar o local da Batalha. Confesso que amamos a atitude. Teve até um jovem que pediu para que eles voltassem no próximo domingo. Isso nunca tinha acontecido lá!

Li em algum lugar na página do Facebook da batalha uma sugestão de colar na base da polícia e fazer uma parada por lá; há alguma possibilidade disso? Os caras realmente curtiam RAP ou estavam ali mais por obrigação mesmo?

Amaria que os PM’s continuassem indo lá, pois isso ajudaria muito a evitar uso de drogas ilícitas perto do local de Batalha. E além de tudo seria um lance de onde “uma mão lava a outra”, eles fariam o trabalho deles de fazer a segurança do evento, servir a população, e nós faríamos a nossa que seria tocar a Batalha pra frente.

Não sei informar se todos curtiam o rap, mas presenciei que 1 deles curtiam o rap sim, porém, todos eles curtiram muito as rimas, conversei com alguns deles e pude ouvir isso.

Pra finalizar, todos sabem da situação tempestuosa entre o RAP e a polícia. Gostaria que você falasse um pouco mais como você vê isso e se, na sua opinião, ações de respeito como essas dos policiais, caso se espalhem, poderiam ser o início de uma mudança.

Infelizmente essa situação existe, e como muitos sabem, esse é um assunto muito delicado. Rap é cultura como qualquer outra, e em MEU ponto de vista, essa rincha entre Polícia e o Rap deveria acabar. Hoje em dia vejo que ambos os lados não se entendem por ignorância, mas logicamente existem exceções, como essa situação da Batalha do Museu.

1º Vejo que a mídia expõe mais erros da Polícia do que os acertos que elas comentem. Isso desvaloriza o lado profissional deles. Onde a população acaba os generalizando!

2º Da mesma maneira que a mídia expõe mais uma pequena porcentagem dos Mc’s e Rapper’s que ficam expondo droga e falando de crimes, e que não a outra maneira da Polícia os tratar, a não ser como mal exemplos a sociedade. E acaba nos generalizando! Ver como um é jogado contra o outro?

Nós não vivemos mais os anos 90, esse periodo já passou, creio que isso tudo seja um desentendimento entre ambos os lados, que não sei quando irá ter fim. Existem Policiais errados sim como existem Manos e Minas do movimento Rap errados também. O certo é ambos se respeitarem, e certeza, que tudo sairá bem.

Como sempre um dos lados tem que ceder seu lado pra que tudo saia bem, creio que se os outros Policiais seguirem esse exemplo que os Policiais da GTOP fizeram, a mudança poderá ser revolucionária.

Não perca mais nenhum post!

3 Comments

  1. É, enquanto o carro da PM está parado brincando DE SER RAP, o resto está morrendo e sendo assaltado nas ruas do DF. Parabéns polícia.

  2. Perae né galera. Não é pra ser contra o rap, mas ceder a viatura pra colocar o pen drive e fazer iluminação? Ta sobrando policiamento em Brasília? Essa não é a função da polícia militar.

  3. Facilmente, fácil julgar e criticar a atitude dos policiais, porém, tão difícil compreender… O nosso R.A.P sempre participou de ´´batalhas´´ um tanto peculiar contra o governo e até mesmo contra a própria sociedade, apesar das nossas lutas,das nossas diferentes maneira de lidar com a PM, eles conseguiram provar que a mídia não expõe por completo nosso R.A.P, e nos provou que não precisamos generalizar todos os policiais, e muito menos nossas rodas culturais, porque não somos só uma rodinha, arruaceiros, vagabundos, somos o futuro, somos o R.A.P.
    RESPEITO A ESSES FARDADOS.

Deixe uma resposta

Seu email não será publicado.

*