Há alguns anos, passei por uma fase da minha vida de muita racionalização. Deixei o aprendizado cultural adquirido de lado para questionar e entender a verdadeira raiz de certas coisas. Você praticamente renasce e aos poucos vai acrescentando novos e, principalmente, reais conhecimentos.

Entre tantos benefícios, havia um problema: era impossível racionalizar o preconceito. Eu costumava me perguntar: “por que o ‘poder negro’ é algo que referencia a luta e o ‘poder branco’ seria preconceito?” ou “por que existe o ‘dia da mulher’ e não existe o ‘dia do homem’?”.

Eu continuava me perguntando. Ninguém parecia dar uma resposta válida, apenas um lado da resposta atacando o outro. Os “sim” xingavam os “não”, que devolviam à medida. Por fim, desacreditado de que a resposta apareceria, acabei encontrando uma resposta própria. Destaco aqui que não houve uma pesquisa, não li os grandes teóricos no assunto, apenas liguei os pontos e vi a grande figura por trás.

A resposta para ambas as perguntas era simples: não devemos racionalizar o preconceito. A complicação vinha no “por quê?”. Primeiro, é preciso entender que o preconceito é algo estritamente cultural. Ora, ninguém tem preconceito contra negros por causa da cor preta; os brancos sempre utilizaram o lápis de cor preto e a caneta preta sem problema algum. O preconceito contra negros é histórico, é cultural.

“Ah, mas a escravidão já acabou faz tempo”, diria o outro. De fato, a escravidão foi abolida, mas a maneira como os negros eram tratados está espalhada por todos os lugares pra quem quiser ver. Ok, existem pessoas que veem o racismo como nojento, mas também existem aqueles que passam adiante fazendo graça, perpetuando a ideia original da escravidão. Por isso, piadas racistas (e preconceituosas num geral) são tão perigosas, como bem ressaltou o Gabriel o Pensador, na “Racismo é burrice“:

E de pai pra filho o racismo passa
Em forma de piadas que teriam bem mais graça
Se não fossem o retrato da nossa ignorância
Transmitindo a discriminação desde a infância
E o que as crianças aprendem brincando
É nada mais nada menos do que a estupidez se propagando

Aqui citei o racismo, mas o mesmo acontece com todos os tipos de preconceito: pessoas são julgadas e inferiorizadas pelo que possuem, parecem ou de onde vêm, nunca pelo que são. Inferiorização essa que dura séculos e não tende a acabar cedo; esconde-se, atua de forma velada, mas sem parecer terminar algum dia.

Voltando às perguntas: por que o “poder negro” é algo que referencia a luta e o ‘poder branco’ seria preconceito? Por que existe o “dia da mulher” e não existe o “dia do homem”? Agora parece um pouco mais claro. Vou tentar deixar o mais claro possível transformando o material da analogia em dinheiro, que é o que todos entendem. Se seu avô pegar 50 reais emprestados do banco e falecer antes de pagar, seu pai assumirá a dívida; se ele também morrer antes de pagar, você assumirá e assim por diante. Independente de você querer ou não. Assim também funciona com o preconceito, que é algo histórico e cultural, como havíamos esclarecido.

Historicamente falando, o branco deve muito ao negro. Novamente, quando falo em branco e negro me referencio aos diversos tipos de preconceito. Os poderes da sociedade sempre estiveram na mão dos brancos pelo simples fato de serem brancos e mais nada. A consequência não foi apenas a inferiorização, mas muitos ataques diretos à pessoa. Claro, não serei cego a ponto de dizer que nenhum negro revidou e que não existe preconceito por parte do negro, pois existe. Entretanto, aqui não falo de indivíduos, falo de uma sociedade e a sociedade sempre foi branca (sempre foi masculina; sempre foi heterossexual).

É preciso ser muito preconceituoso para não notar o quanto os brancos devem aos negros; o quanto os homens devem às mulheres; o quanto os heterossexuais devem aos homossexuais; e assim por diante. Novamente, ressalto: não estou falando de casos individuais, estou falando de uma sociedade.

Por que o “poder negro” é sinônimo de luta e o “poder branco” é sinônimo de preconceito? Ora, enquanto aquele lutava pelo direito de ser uma pessoa como outra qualquer, este lutava para manter sua suposta superioridade. Ambos cometeram diversos crimes, de fato, mas é muito fácil perceber a diferença de tais crimes; as palavras do pacifista Martin Luther King nunca pareceram fazer tanto sentido: “temos o dever moral de desobedecer a leis injustas”.

Por que existe oficialmente o “Dia da Mulher” e não existe o “Dia do Homem”? Enquanto muitas mulheres deram sua vida para que fossem mais do que meras acompanhantes, os homens já nasceram com o direito de escolha assegurado. Mais do que poder decidir o que fazer da sua vida, eles também podiam decidir o que fazer da vida de suas mulheres. Aquela resposta clichê, “porque todo dia é dia do homem”, de fato, faz bastante sentido!

Por que você vai criar o “poder branco” se você já tem todos os direitos pelos quais iria lutar? Por que você vai criar o “Dia do homem” se toda luta que você gostaria de deixar eternizada com essa marca é desnecessária? Eu entendo a vontade de equalizar as coisas, de usar o racional, a lógica, mas com o preconceito, como eu já disse, é impossível. Quer dizer, você até pode equalizar utilizando a lógica, mas então você precisa ir até a raiz: quer ter o “poder branco”? Torça pra existir uma outra vida e pra você nascer branco em uma sociedade negra e então reúna vários que pensam como você e lute pelos seus direitos (por mais que eu acredite que você não deva querer isso de verdade; você não pode estar falando sério quando clama pela necessidade de lutar para ter o direito de ser igual aos outros e não simplesmente nascer com ele)!

Esse esquecimento do passado, da cultura da sociedade, foi o que tornou aquela sempre lembrada resposta do Danilo Gentili em digna de aplausos na racionalidade, mas praticamente analfabeta na questão cultural. De fato, se esquecermos o passado, não faz diferença chamar um branco de girafa e um negro de macaco. Entretanto, a associação histórica que esta última remete é que a torna tão nojenta. Pra ficar mais claro, vamos supor que você me chame de “idiota”. Ora, não é algo legal, mas não é também um xingamento que eu deva me preocupar. Entretanto, vamos supor que meu pai me chamava de “idiota” quando eu era criança e isso me marcou seriamente; a probabilidade do seu “idiota” me remeter àquele “idiota” é grande e a probabilidade de eu reagir de maneira diferente do que reagiria se não houvesse esse passado é maior ainda. Claro que na suposição você será culpado apenas de ter me chamado de “idiota”, pois supostamente não sabia do meu passado; já quanto aos preconceitos em questão, o passado histórico é de conhecimento da nossa sociedade, é algo cultural e até lei (que não irei estender aqui, pois não as conheço tão bem assim e o texto já está ficando enorme).

E não me venha com aquela desculpa besta do “se eu te chamar de macaco e a carapuça servir, bom, então o preconceito está com você” poque não cola. É óbvio que o pensamento de preconceito está “na cabeça” dos que sofrem preconceito, pô, foi martelada lá todos os dias durante séculos. A sociedade em que vivemos passou séculos moldando esse pensamento, pode ter certeza que não passará de uma hora pra outra. Não é um dia sem preconceito que bastará pra limpar todo preconceito através desses anos todos!

Pense, se você apanhar todo dia que sair de casa, é óbvio que você vai começar a temer sair de casa e qualquer movimento suspeito vai lhe parecer que alguém quer lhe agredir! Será preciso muito investimento seu, nesse caso de tempo e coragem, para fazer isso passar e mesmo assim é muito difícil que passe por completo. O mesmo acontece com o preconceito! Você aprende desde criança que aqueles parecidos com você (diferentes do modelo da sociedade) foram hostilizados e inferiorizados por séculos, é óbvio que qualquer menção a isso assustará!

Também é óbvio que, assim como em tudo na vida, há quem se aproveite; há quem diga ter visto preconceito em certas ações em que ele não existiu, apenas para se beneficiar. Porém, aposto todas minhas fichas que o preconceito real ainda é MUITO maior que o falso. Com essa preocupação, também faço uma ressalva: é preciso tomar cuidado para não combatermos o preconceito com mais preconceito. As diferenças da sociedade estão todas divididas por gangorras, nas quais não queremos ver um lado acima do outro, seja qual lado for, mas sim em equilíbrio. São necessárias ações que equilibrem os direitos, não que o opressor mantenha-se opressor ou que o sofredor da opressão torne-se o opressor.

Enfim, esta é minha opinião. A opinião de um homem branco, de classe média e heterossexual. Se eu tivesse dito isso no começo, será que você não imaginaria que eu diria outras coisas? Não posso negar que o histórico de ações de pessoas “parecidas comigo” é realmente alarmante, mas também não posso imaginar que não há solução quando eu e tantos outros que pensam como eu são provas vivas de que as coisas podem sim ser diferentes. Se somos a exceção, pode ter certeza que não é o que queremos ser; assim como o RAP Brasileiro, queremos ser a regra!

O que fizemos de tão diferente? Ao invés de optar pela facilidade em seguir o que todos os outros estavam fazendo, paramos, refletimos e resolvemos seguir o nosso próprio caminho. Mais trabalhoso? Claro. Difícil? Talvez. Agora, muito mais valioso do que qualquer piada preconceituosa que faria uma roda de amigos rir, pode ter certeza. Aliás, aposto que você conseguiria também se tentasse; vamos lá.

Comece por este texto. Não aceite o que eu digo. Leia. Pare. Reflita. Pesquise se for necessário. Então, tire suas próprias conclusões… e aí, será que seu cérebro aguenta?

Não perca mais nenhum post!

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