Quando eu comecei a compreender e pesquisar o rap de forma mais profunda, muito além do só ouvir uns sons, eu comecei a perceber um tipo de pensamento muito parecido do que eu acreditava ser o certo. Muito do que eu tinha aprendido, lido e escutado de grandes pensadores, eu captava nas letras. Era a união perfeita do teórico e o prático.

Mas, as pessoas não viam isso, por algum motivo. Mesmo quem dizia querer revolução, que descrevia revolução como tantos outros rappers descreveriam, não conseguia compreendê-lo. Afinal, o rap sempre foi pra maioria violento, “música de bandido”.

Sempre pensei que se enxergassem além desse preconceito idiota, favoritariam boa parte das linhas e espalhariam as ideias. Um dos meus principais objetivos na criação do Vai Ser Rimando era exatamente esse. Eu queria que as pessoas vissem o que eu via no Hip Hop; queria disponibilizar um conteúdo fácil sobre o assunto; queria mostrar algumas conexões que se as pessoas também percebessem talvez sua percepção mudasse.

Não sei dizer até que ponto isso deu certo, mas ainda assim era um site com textos. Ainda assim, as pessoas precisariam superar seus preconceitos para acessar a página e ler de mente aberta; ainda assim, as pessoas precisariam deixar a preguiça de lado e realmente ler, o que tem sido cada vez mais difícil. A real é que as pessoas precisavam de um conteúdo que chegasse a elas com os dois pés no peito; precisavam de algo que chamasse sua atenção e alguém que as cativasse.

Em novembro de 2015, recebemos a primeira versão do texto do Marcello Gugu pra sua participação no TEDxBlumenau de 2016. Intitulado “Obrigado, James”, o escrito agradecia James Brown por ter inspirado Kool Herc, através da compra do CD “Sex Machine”, a “criar” o Hip Hop. Kool Herc é considerado o “pai do Hip Hop”. Sabe quem é considerado o “pai” do Hip Hop brasileiro? Nelson Triunfo. Sabe quem foi também uma inspiração absurda pra Nelson Triunfo? James Brown. Obrigado, James.

Foram pouco mais de quatro meses entre a primeira versão e a apresentação exposta no vídeo abaixo. Pela proximidade com a temática, acompanhei o processo de perto. Marcello Gugu não é apenas um puta letrista, mas um ótimo MC. Após o resultado final, deu pra ver que ele sabia desde o começo o que queria fazer com a sua ideia, embora ainda pudesse estar um pouco intimidado com o processo. Afinal, o TED tem certas regras. O grande desafio mesmo era manter o foco e apresentar da melhor forma possível uma cultura tão apaixonante e diversa como é o Hip Hop sem ultrapassar o tempo máximo de 18 minutos.

O público foi unânime: todo mundo aplaudiu de pé. Marcello seria chamado de volta ao palco pra interpretar “Indireta”, a spoken do CD “Até que enfim, Gugu”. O público aplaudiria de pé novamente. Os comentários eram os melhores possíveis. Mais do que os elogios ao rapper, que deu um show de presença, ouvi muitos elogios ao Hip Hop, como se as pessoas tivessem descoberto a cultura ali. E quem já conhecia, redescobriu como uma ferramenta educacional muito forte; uma ferramenta de vida muito forte.

Gugu foi impecável. Começou com uma ótima sacada pra fazer todo mundo entender o que era o Hip Hop, passeou pelo seu envolvimento na criação da sinérgica Batalha do Santa Cruz e as aulas na Fundação Casa, teve o complemento perfeito com a Gil Scott Heron, pra reforçar tudo que ele tinha dito. Isso tudo sendo transmitido pela emoção de alguém que foi, como ele mesmo anuncia, “salvo pelo Hip Hop”. Como eu falei: ele sabia desde o começo como queria passar sua mensagem e fez da melhor maneira.

E não é apenas um melhor entendimento da cultura Hip Hop e suas possibilidades ou uma possível abertura de portas para o Marcello Gugu, mas quem sabe outros rappers possam se beneficiar. No Brasil, acredito que só o Gugu e o Monge, de Belo Horizonte, já participaram de um TEDx; este falando especificamente sobre as dificuldades de organizar o Duelo de MCs na cidade. Muito além do TEDx, a percepção talvez mude a ponto de outros rappers começarem a organizar palestras e mais eventos, de qualquer escopo, os chamem para palestrar.

Marcello Gugu não é citado em meio aos grandes nomes da literatura periférica em “Poucas palavras”, do Inquérito. Também, o álbum “Mudança”, do qual a música faz parte, é de 2010. Mas, a eterna linha “se a história é nossa, deixa que nóiz escreve” não sai da minha cabeça desde o dia 3 de abril. Nesse dia, Marcello Gugu escreveu um capítulo importante da sua história; da história do TEDxBlumenau; e, ao meu ver, pela dimensão que a plataforma TEDx pode dar ao conteúdo, da história do Hip Hop brasileiro. Obrigado, Marcello Gugu.

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