Todo ano é a mesma coisa. Marechal anuncia que vai lançar seu CD; o CD não vem. Ano passado não foi diferente, este ano também tá no mesmo caminho. O suposto anúncio pra “1º de abril” feito na página dele deu a entender que viria o trampo. Geral passou o dia todo esperando, comentando, ansiando por qualquer coisa. Até que surge uma prévia e, na madruga do dia seguinte, o link oficial pro som completo. Nascia então a música “Primeiro de abril”.

E mesmo com data marcada, “estilão Quinto Andar” anunciado, prévia mostrada, mesmo com tudo isso, Marecha ainda conseguiu surpreender. E não surpreender naquelas de não esperávamos que ele poderia mandar algo tão bom; ele simplesmente foi além.

A real é que eu to desde o lançamento tentando escrever algo e parece difícil encontrar as palavras pra começar. É muito complicado encontrar uma forma de descrever de maneira apurada uma música que você escuta várias vezes em seguida e não enjoa ou não sente vontade de parar. É quase como o próprio lançamento do disco do Marechal: é um desafio gigantesco criar algo quando você sente que aquilo precisa atender à determinada expectativa.

Porque esse é o provável motivo dos adiamentos. Hoje, Marechal não precisa lançar um disco, se você for pensar em carreira, imagem e financeiro. Ele tem tudo isso muito bem orquestrado sem qualquer compilação. Como ele mesmo descreve: “vivo de som sem ter disco ou ser cantor”. Mas, ao mesmo tempo, existe toda uma expectativa criada, alimentada em grande parte por ele próprio, que eu tenho certeza que ele quer alcançar. É uma mistura de grande desafio pessoal com respeito pelos fãs.

É óbvio que demora não significa qualidade, mas um cuidado a mais com a sua arte tende a resultar nos sons atemporais que tamos acostumados a ouvir dele. Pensa que a gente escuta as mesmas 10 músicas há mais de 10 anos e não cansamos! E é bem provável que “Primeiro de abril” seja um daqueles sons únicos que ele vai lançar no ano e que não vamos ficar “uma semana sem ouvir”.

Mas, nessas de não saber o que escrever ou como escrever, separei alguns pontos de destaque que to desde sábado repetindo pra mim mesmo:

  • Piadas: muita gente conecta o discurso do “rap de mensagem” do Marechal com um daqueles “sem sorrisinho”, cara fechada sempre. Nada a ver. Ele sempre foi bastante brincalhão. Aliás, enquanto alguns de seus fãs se doíam com as piadas do lançamento do disco, o próprio rapper as apreciava (também porque são um ótimo marketing pro seu trampo, claro). Mais do que isso, ao trazer algumas dessas piadas e acrescentar outras num “clipe de slide” completamente certeiro, ele realmente saiu por cima, naquelas de realmente transformar o Primeiro de Abril no dia do “puta que pariu, tu viu Marecha fez som, gravou e lançou”;
  • Cutucadas: ah, sim, não tem como falar do som sem falar nas alfinetadas que ele distribui: “trap de quem nunca trepou”, “o último que tentou nem tá”, “só existe um tipo de mc”. Não é uma diss, não é nem uma baita crítica, é mais um “escutei o que cês tão falando, legal, mas essa é minha opinião”, normal;
  • Respeito: em menos de 24 horas, você viu quantos rappers tavam divulgando/comentando o som? O Noisey fez até um post focado nisso. Marechal definitivamente não é um dos rappers mais populares, mas o respeito que os outros hip hoppers têm por ele e pelo seu trampo é quase imbatível;
  • Modernização: é bem verdade que ele não tem CD e poucas vezes aparece com versos novos, mas pra alguém que tá há tantos anos nessa, lançar algo tão moderno é inspirador. Penso a mesma coisa dos versos do Mano Brown. É muito fácil pra esses caras “consagrados” continuar fazendo o mesmo que os consagrou há 10-20 anos. Mas, Marechal e Brown, pra citar dois, não aceitaram isso e se adaptaram muito bem a esse “novo jeito de fazer rap”.

A verdade é que, neste momento, as piadas sobre o lançamento do disco do Marechal parecem muito velhas. O CD não veio, é real, mas o que você vai falar hoje? Saiu um trampo que deixou geral sem palavras; saiu um single que vale pelo disco da maioria dos caras que tão lançando hoje em dia. Ele mesmo deve ter se sentido um pouco mais relaxado porque havia prometido não publicar mais até o lançamento do disco e tem publicado várias logo antes e depois da música ir pra rua.

Existe uma expressão no inglês pra quando você fala algo tão completo que deixa a outra pessoa sem resposta, a “drop the mic” ou “mic drop”. Literalmente, significa “derrubar o microfone”, aquele gesto de simplesmente falar algo foda, largar o mic e sair com cara de mau do palco; quem já viu os especiais do David Chapelle e do Chris Rock tá ligado.

Marechal fez exatamente isso no dia primeiro de abril com a “Primeiro de abril”. O dia que eu mesmo intitulei de “Dia do ‘Este ano sai o disco do Marechal'”, vai passar a ser lembrado pelo lançamento da música. Agora, sempre que pensar numa piada pra fazer, vou lembrar que saiu a música e saiu foda. Ano que vem, no dia 1º de abril, vou primeiro lembrar que faz um ano do lançamento do som, pra depois pensar em qualquer outra brincadeira. Marechal reverteu tudo; ele mais uma vez provou que não precisa lançar disco algum.

A barra foi lá em cima.  Em alguns minutos de som, Marecha desacreditou as cobranças sobre o lançamento do seu disco. As piadas ainda vão existir, mas, hoje, elas não são mais tão engraçadas assim. Aliás, ele mesmo alertou sobre o ditado de quem ri por último… Marechal dropou o microfone após a música e é quase como o martelo de Thor: cê vai precisar de muita manha pra segurar essa parada daqui pra frente.

Não perca mais nenhum post!

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