Quando o Racionais surgiu, no fim da década de 80, o rap, que ainda engatinhava, foi completamente transformado. Aqueles que viriam a ser “os quatro pretos mais perigosos do Brasil” instauraram naturalmente um estilo de se comportar e fazer música; quem não se enquadrasse nesse “estilo”, era praticamente desconsiderado pelo público como rapper.

Hoje, esses mesmos “quatro pretos” são cobrados por esse mesmo público por terem mudado certos aspectos do seu comportamento; por terem mudado certas opiniões. Mano Brown costuma dizer que antes era necessário e que agora, pro Racionais e talvez até pro rap, não é mais. Muita coisa mudou, é bem verdade. Não consigo acreditar em alguém que consiga defender exatamente as mesmas coisas durante 30 anos, não com o fluxo de informação que temos. Até mesmo Malcolm X mudou significantemente de opinião. Afinal, parafraseando o poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller, não há vergonha em mudar de opinião porque não há vergonha em pensar.

Então, o que exatamente queremos dos rappers? “Queremos que eles protestem contra os problemas do nosso País!”. Mas, na década de 90, o Gabriel o Pensador lançava um protesto atrás do outro e mesmo assim o “público do rap” praticamente o excluiu. Será que a gente sabe o que é protesto? O Brown pediria pra cês lerem os versos dele “e protesto é show”; Marechal diria que a gente fala muito em revolução, “mas nem sabe o que tá sabendo”.

No final das contas, somos todos extremamente hipócritas, como ressaltaria o Kendrick Lamar. Cobramos um monte de coisa, reclamamos um monte de coisa, mas no fim é tudo da boca pra fora, nem sabemos exatamente de quem cobrar, nem tamos lá muito preocupados de verdade na solução, só queremos que todos saibam que tamos ali, existimos, infelizes. “Por que eu chorei quando o Trayvon Martin tava na rua quando as gangues me fazem matar um cara mais negro que eu?”.

Perguntei uma vez pro Emicida, baseado em um verso dele com o Inquérito, por que as pessoas cobram dele (e dos MCs em geral) o que não cobram nem dos prefeitos. “Porque temos coração”, ele respondeu. “Em parte é por nos mostrarmos sensíveis a esse tipo de coisa, em parte é porque vagabundo transfere a responsabilidade pra quem tá aparecendo mesmo e quer mais é que se foda, joga a batata quente no colo do outro”, continuou.

Do ponto de vista do público, acho que isso fez sentido por muito tempo. Vamos voltar até antes da popularização da Internet. Você, morador da periferia, toda vez que olha qualquer veículo de comunicação, sente como se perdesse um pedaço de si; só porrada. Aí, chegam uns caras como você, pé-no-barro, botando os boy pra correr. É óbvio que você vai esperar uma explosão toda vez que esses caras tiverem o microfone em qualquer programa daqueles de grande audiência. Era praticamente o único momento que a periferia tinha pra mostrar qualquer coisa, momento raríssimo.

Hoje, embora muita coisa tenha mudado e a condição financeira da maioria seja melhor, a situação continua ruim. Mas, hoje, há muito mais vazão; muito mais oportunidades de comunicação. Hoje, a periferia não precisa ficar esperando esse ou aquele rapper; existem ferramentas ao alcance da maioria pra fazer sua própria revolução. Como eu escrevi em “Abaixe as armas, assaltante não é guerrilheiro (e vice-versa)!“:

Por mais opressor que sejam os dias de hoje, não existe nem o começo de uma comparação [com as épocas de guerrilheiros como Malcolm X e Marighella], por favor. Até porque, se for o caso, hoje em dia cê consegue até tirar a grana pra revolução com uma campanha no Catarse. VOCÊ TEM OPÇÕES. A maioria é uma grande merda e ninguém parece que ajuda, mas elas tão aí. Tem muita gente com uma cabeça ótima comentando revolução armada e fazendo pessoas com uma cabeça não tão preparada assim pegar em arma por qualquer coisa.

A questão é: não faz sentido cobrar um rapper pra dizer algo por nós quando nós temos meios para ter tanta voz quanto qualquer rapper ou até mais. Aliás, surge um rapper novo por dia com equipamentos e estrutura melhor que muitos dos mais cobrados tiveram por muito tempo. Se você não concorda com o que um está dizendo, você com certeza vai achar outro bem próximo das suas crenças. Em vez de cobrar que aquele mude de opinião, por que você simplesmente não apóia e trabalha pra que a mensagem deste se espalhe? Você e o rap têm muito mais a ganhar com isso!

Então, afinal, o que realmente queremos dos rappers? Eu, definitivamente, não falo pelo público do rap. Mas, talvez, o mais racional seja querer que eles sejam verdadeiros com eles mesmos. O cara não precisa morar na quebrada pra falar dela ou passar fome pra falar do problema da fome no mundo, mas não faz sentido algum ele dizer que o legal é ser pobre quando tem milhões na conta ou bater no peito por algo que ele não tem de verdade no peito dele.

Se levarmos em consideração que cada um tem uma formação diferente nos mais diversos níveis possíveis, concluímos que cada um enxerga os acontecimentos de maneira diferente (o que leva, por exemplo, tanta gente a ver os policiais como heróis e também tanta gente a vê-los como bandidos). Ou seja, a verdade não passa do ponto de vista de cada um. A minha verdade é diferente da sua, consequentemente, o meu RAP será diferente do seu. No final das contas, RAP não deveria ser sobre falar isso ou aquilo, deveria ser sobre autenticidade, sobre transpor a sua verdade nos versos.

Se você não é apenas fã de um ou outro artista, mas fã de RAP, como eu, você concordará que o ideal seria termos rappers refletindo as questões sociais tanto em suas letras quanto em suas entrevistas; engajados nas ações que enaltecem a cultura de rua; e envolvidos com projetos de melhoria pra quem realmente precisa. Dada a origem do Hip Hop, que eles supostamente deviam saber e, de alguma forma, cultuar, esse seria o cenário ideal. Entretanto, não podemos, de forma alguma, cobrá-los para que sempre ajam dessa maneira. Não há explicação lógica para cobrá-los qualquer coisa além da autenticidade. Afinal, como escrevi, cada um tem sua verdade e é isso que deve aparecer nas letras e ações.

Acho que o Emicida, bastante cobrado por uma suposta mudança de postura após sua primeira mixtape, é quem explica essa situação da melhor forma. Na série “Histórias do Rap”, ele lembra: “Todo mundo ama a primeira mixtape; eu olho pra primeira mixtape, eu fico com fome, mano, porque eu tava com fome. Todo dia, eu tinha fome. Não tinha dinheiro pra comprar comida. Eu ia gravar o bagulho e aí eu tinha que esperar até umas 4h da tarde porque eu tava gravando de favor lá na casa do Tisha. A mãe dele fazia um lanche pra ele, 4h e meia da tarde… A minha barriga roncava e eu ficava tentando fazer minha barriga não roncar pra não sair no microfone. Olha a nóia que eu tinha. Não é um bagulho que eu vou sentir saudade daquele tempo. As pessoas têm saudade porque só chegou o CD pra eles.”

Em verso, ele já tinha resumido isso tudo da melhor maneira possível em “E agora?”, da mixtape “Emicídio”, de 2010: “Agora nóiz têm carro, casa, comida e vai cantar que não dá pra vencer na vida?”. A gente defende tanto que o rap seja verdadeiro, fale a verdade, então, não é possível que as pessoas não enxerguem o quão idiota é pedir pra um rapper cantar o que ele cantava há 10 anos. O quão verdadeiro pode ser isso? Como eu escrevi, um rapper que não mora mais na favela pode ainda assim escrever os problemas dela, óbvio, mas é impossível que a perspectiva dele não tenha mudado.

De qualquer maneira, a percepção do rapper, a sua verdade, é sua e de mais ninguém. Por isso, a questão do se vender é tão complicada. Como é que podemos afirmar que um rapper se vendeu? Vendo de fora, como podemos ter certeza que alguém fez algo por dinheiro e não simplesmente mudou de opinião?

É muita viagem entrar numas de discutir quem é rap e quem não é, discutir tipos de rap quando na verdade só existem dois: o bom e o ruim! Em meio a todas essas coisas, a tantas questões para serem consideradas, eu só torço pra que chegue o dia em que a gente só se sinta agraciado de tar ouvindo um bom rap, sem precisar cobrar ou julgar os caras. Amem.

Não perca mais nenhum post!

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