O rap nacional, desde seu inicio no final dos anos 1980, esteve ligado ao momento político e econômico em que se apresentara, assim como qualquer movimento artístico. Dos anos 80 para cá, a economia e política sofreram diversas mudanças e isso refletiu diretamente nas construções líricas, instrumentais e filosóficas dos mc’s que, tendem a se reinventar de acordo com os cenários atuais pensando também como empresa.

Diversas fases políticas marcaram o rap, mas neste artigo destaco quatro importantes acontecimentos que modificaram o cenário do hip hop e se transformaram em verdadeiros divisores de águas.

Em 1993, a presidência era conduzida por Itamar Franco, que, um ano depois, lançara o plano real onde modificou toda a estrutura econômica dos cidadãos brasileiros. O Brasil vivia um dos momentos mais difíceis de sua história: recessão prolongada, inflação aguda e crônica, desemprego, etc. Em meio a todos esses problemas e o recém Impeachment de Fernando Collor de Mello, os brasileiros se encontravam em uma situação de descrença geral nas instituições e de baixa autoestima.

No mesmo ano, Racionais Mc’s lançou seu álbum “Raio X do Brasil” que retrata a realidade difícil das favelas em meio a violência, falta de emprego e a imagem do negro nos anos 90, de reclusão e forte discriminação sem censura. Assim, Facção Central lançou seu álbum “Família Facção” no mesmo ano. A forma como os versos eram criados, de uma lírica simples e objetiva, ilustram esta fase do rap que servia como manual das ruas e se distanciava de algo fantasioso, buscando alcançar o êxito máximo da realidade. Era acima de tudo a transmissão da “responsa” para quem quisesse receber, um instrumento de denúncia em uma época que, o mc, era o grande informante da massa.

Em 1996, Mv bill lança seu álbum “Traficando informação”, Racionais em 1997 lança “Sobrevivendo no inferno”, Consciência humana também lança seu álbum “Enxergue seus próprios erros”. Discos contemporâneos ao governo de Fernando Henrique Cardoso, assim como do Xis, Face da morte e Cirurgia moral foram lançados. E o que eles tem em comum? A narrativa pesada e realista que era capaz de reproduzir o momento difícil do negro e do pobre favelado, que eram conduzidos pelo governo em que oferecia poucos empregos para os desfavorecidos. O rap até então se manteve um pouco parecido em alguns pontos em relação ao último governo, uma hipótese para poucas mudanças seja o fato de que o governo pouco mudou, o atual nasceu do anterior, o desemprego seguiu em alta, principalmente no segundo mandato do governo FHC, inflação demasiada, e baixos investimentos de estrangeiros no país.

Já em 2003, com o governo Lula, e a ascensão da “classe C”, o rap tomou outro rumo.

O governo Lula foi caracterizado pela “classe C”, que emergia das favelas e periferias e ganhava os grandes centros. Uma classe com o poder de consumo elevado, que abriu mercado para empresas de vendas de celulares, Tv’s de LCD, maior inclusão a internet e computadores em muitas casas. O carro popular se tornou mais popular, assim como o rap.

A condução política do PT, pelo menos em seu auge, conseguiu fazer com que o poder de consumo fosse tanto, que o pobre passou a viajar de avião e frequentar restaurantes antes elitizados. E isso obviamente refletiu no cenário do rap.

O Rapper Emicida soube aproveitar bem esta brecha do sistema, com seu discurso voltado não da favela pra dentro da favela, mas sim da favela para fora dela. Justamente seguindo a filosofia Lula, pondo o rap e o negro em espaços que jamais eram frequentados anteriormente. As líricas eram construídas no sentido de que tudo era possível. Já não era a oratória que estava “foda” e sim de que “é possível” e isso está estreitamente ligado ao governo que deu oportunidade (sem propagandas) aos desfavorecidos.

Consequentemente, as reações das classes altas, foram adversas, principalmente as pessoas que se sentiram constrangidas por dividir acomodações em aviões com pessoas de classe econômica inferior, e espaços em restaurantes, hotéis, cinemas e teatros. Então surge o discurso do negro (e pobre) que venceu. E daí emerge a imposição da aceitação dos mesmos em hotéis, bares e restaurantes considerados de classe alta.

Emicida soube se aproveitar também deste momento como poucos. Junto dele surgiu uma quantidade enorme de mc’s com variados discursos, mas, algo em comum entre eles era a acentuação, no que diz respeito, a suas respectivas classes econômicas, a forma como as informações se disseminavam nos grandes centros e subúrbios, e a capacidade de invadir a janela de grandes coberturas de apartamentos – favorecidos pelo momento tecnológico atual que permitiu o compartilhamento de informações de forma instantânea – o que foi fator determinante para aquecer a economia dentro do rap, ou seja, uma vez que o rap transpassa a barreira da favela, mais pessoas o consomem e mais capital de giro entra no “game”.

Assim também nasce a figura do rapper Criolo, esquecido por anos na cena, como se esperasse pacientemente o momento político ideal para sua filosofia atual. E dele eu destaco algumas coisas, entenda: O governo Lula, além de ascender á economia proporcionando um poder de consumo maior dos pobres, também modificou todo um cenário acadêmico. A implantação do Enem e o sistema de cotas.

Em 1997, apenas 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil. O baixo índice indicava que algo precisava ser feito. Em 2004 foi implantado o sistema de cotas, que destina uma porcentagem a mais nas notas dos candidatos a vagas em universidades públicas á estudantes que se declarassem negros e optassem por essa vantagem em suas avaliações.

Através do Enem e das cotas, as universidades ficaram um pouco menos elitizadas, embora a predominância seja branca e de classe media/alta. A universidade se tornou um solo fértil para a diversidade, de gêneros, etnias e classes, o que fortaleceu para o crescimento de diversas lideranças de resistência como o movimento feminista, afro, vegetarianos e veganos, LGBT, entre um amontoado de filosofias e estilos de vida, todos sendo confrontados no espaço da universidade.

Toda esta teia de movimentos, ações e reações, foram reflexos de um governo que abriu as portas, promoveu a diversidade, “misturou” as pessoas de fato. Criolo, com seu discurso intelectual, protestante e ao mesmo tempo diverso, encostando um pé no mpb, reggae e samba, com estilo alternativo a outros rappers o tornou um grande embaixador de alguns destes movimentos e uma figura da diversidade.

O rap finalmente se tornará um solo fértil para investimentos, e diversos rappers, de vários locais, sob os holofotes ou não da grande mídia, conseguiram seu espaço, desenvolveram discos que foram comercializados de forma independente e garantiram seus shows, uma ou duas vezes por mês. Era a ascensão da classe que tinha um poder de consumo de compra de ingressos para shows, discos e, talvez de quebra, levar uma camiseta do artista pra casa. Mas após essa avalanche, o cenário se modificou sutilmente.

Vale destacar que, a cena é muito ampla em todas as regiões do país, diversos artistas detém dos mais variados discursos, e eu optei citar apenas estas figuras que ganharam um destaque maior, sem limitar a cena, mas utiliza-los para destacar alguns pontos desta reflexão.

Em 2011 assume a figura polêmica do governo Dilma, se favorecendo do calor emitido pelo Lula, ela assumiu o poder. Entre altos e baixos da economia refletidas no rap, em seu primeiro mandato, algumas figuras saíram de cena de forma discreta, e o rap perdeu um pouco de seu vapor que queimava em nível acelerado.

Mas foi no inicio de seu segundo mandato, em 2015, que a cena se modificou. Após o declínio da economia, que rumava para um futuro prospero e de repente se viu em queda livre sem paraquedas, abrem-se as portas do rap para outra transformação.

É de suma importância para o leitor considerar alguns fatos sobre este artigo: Esta é uma escrita reflexiva onde o objetivo é demarcar alguns pontos históricos, que refletem diretamente no cenário do hip hop como um todo, pois acredito que a teorização de todo esse emaranhado de fatores que levam a este pensamento, seja importante em um mundo em que nada acontece por acaso, embora a maioria ainda pense que sim. Portanto, a intenção aqui é provocar a reflexão histórica acerca do pensamento sobre uma concepção de “embranquecimento” do rap nacional e suas principais hipóteses. Bem, vamos a elas:

Lembram que foi dito neste artigo que, o rap está conectado com o momento político e econômico? Pois bem, vejamos só o segundo mandato Dilma. Queda livre, escândalo mundial, falta de emprego e inflação em alta novamente. O pobre dando passos pra atrás em relação ao crescimento. Poder aquisitivo menor, menos shows, ok! Mas, menos shows pra quem?

Entramos definitivamente na era em que “Quem tem cash entra no game”. A figura folclórica do rapper negro – salve Sabotage – exemplo pra molecada, porta voz e “portador da esperança”, está extinto (Ou quase), e não é por falta de talento não, é por falta de “Cash”, dinheiro e produção, e outros detalhes da indústria de imagens que nem cabe entrar neste artigo.

Hoje, a indústria do rap, se caracteriza pelas produções audiovisuais de alto investimento e pelo tratamento musical de peso. Mais do que nunca, hoje, o rap esta nas mãos de quem tem dinheiro. E não é de se espantar que quase 90% dos artistas “mainstream”, que alcançam êxito financeiro, milhares de seguidores e agendas de shows lotadas sejam detentores de capital de giro para injetar no rap.

Baladas black que só tem brancos, o que está acontecendo? É complicado, mas, quando falamos em detenção de capital, a figura do branco se revela, e a do negro da um passo atrás, mesmo que este ainda seja a espinha dorsal do rap. Vale destacar que, ao longo da história, a imagem do branco no rap se manteve presente, caracterizados principalmente por seus contemporâneos políticos.

A figura do rapper detentor de capital invadiu as telas do youtube, os shows e estão lotando a cena com suas letras (infelizmente), pouco compromissadas. Como diz meu amigo e rapper da cidade de Pelotas, Zudizilla “Os mc’s atualmente não sentem necessidade de passar a responsa pra ninguém, pois não cresceram em meio a esta necessidade”.

Embora a falta de conteúdo lírico e comprometimento social que o hip hop se dispõe no momento, não cabe aqui generalizar a carência musical que o mesmo se encontra. Felizmente ainda temos grandes nomes de destaque que, ainda pensam o rap como arma para uma transformação social. E este desleixo e falta de ativismo não está ligada diretamente ao caráter racial, mas sim ao econômico. Desse modo, o grande câncer da cena atual que este artigo tenta abordar é o processo precoce de invisibilidade negra dentro da cena mainstream do rap nacional, ao passo em que, o dinheiro se tornou um fator decisivo dentro desta passagem histórica.

A cultura esta em movimento constante, ligado a fatores internos da economia política e social, e cada fase é uma página nova para este movimento emergente que sim, deve estar de braços abertos para a diversidade, pois desde sua constituição filosófica, prega a paz, a aceitação e, os valores morais. Mas é preciso defender a figura emblemática do negro com o microfone em punho, para que ele deixe de ser apenas um imaginário e volte a nos libertar, através de suas rimas, experiências, visões e pensamentos do mundo, pois alias, “O rap é compromisso, não é viagem”.

 

REFERÊNCIAS

http://www.infoescola.com/historia/governo-de-fernando-henrique-cardoso/

http://portal.inep.gov.br/web/enem/sobre-o-enem

http://sites.correioweb.com.br/app/noticia/encontro/revista/2014/04/16/interna_revista,1027/as-cotas-10-anos-depois.shtml

Rap no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre

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