A capa do single pode retratar o colorido nascer do sol, mas não se engane: Kamau é um amante da madrugada. Quando tá todo mundo batendo ponto pra entrar, ele tá batendo de saída. Embora não exista essa rigidez toda, afinal, ele faz parte daqueles que escolheram “não trabalhar de uniforme”.

Sim, Kamau faz do trabalho, música, à la “Música de trabalho“. Por si só, isso já seria motivo suficiente pra viver na noite, mas a questão vai além: transformou-se em um habitat natural (“O silêncio em volta soa como música”), um ambiente de potencialização, mesmo que os cientistas digam o contrário. A relação tá tão próxima que ele até montou uma lista no Spotify pra “Depois da meia-noite” (sabe aquelas mixtapes que cê dá pra sua amada? Kamau fez uma pra madruga, olha só, rs).

E essa é uma parada antiga, lá da época do skate. “Sempre gostei mais de andar de skate à noite e era nesse horário também que eu tinha o computador livre pra produzir e que eu pagava mais barato na internet discada. E naturalmente fui migrando pra esse horário”, ele me contou pelo Facebook.

Embora tenha surgido quase que como consequência de outras atividades, passou a caminhar em destaque ao seu lado. Sem querer esticar muito, mas cês lembram qual foi a participação dele na “Remixtape”, do Emicida e DJ Nyack, né? Aliás, se você for ver, todo o conceito de “Só” (não só mostrado na faixa homônima) que ele desenvolve na sua lírica (de lyrics, não canto-lírico) tem muito a ver com como a gente vê/retrata as pessoas na madruga: pessoas reservadas, seguindo seu caminho conversando com seus próprios pensamentos.

“Fuso” é o outro nível de todo esse diálogo. É pegar a linha “Eu trabalho no seu horário de lazer” e destrinchar em um novo capítulo inteiro (mais uma vez, eu e o meu spin-off musical).

Não sei se foi um caso particular ou se acontece ao dar play no som mesmo, mas ouvir o Kamau descrever o que tá na TV, as coisas que tá fazendo, me lembrou daquele sentimento de urgência em escrever alguma rima que, mesmo quando cê não tem uma temática clara, cê começa a incluir as coisas ao seu redor. Isso geralmente acontece na madruga. Até a hora entrou na rima (conheço poucas músicas que colocam a hora na rima e a grande maioria acontece na madrugada; afinal, “4:20, depressão presente“)!

Ainda mais quando você soma a isso a capa do single e a capa do EP “Seis sons”. Sério, a música pode ser toda pessoal dele, mas pintou uma imagem bem clara na minha mente.

O que nos leva ao novo CD, que finalmente teve o nome revelado: “Licença Poética (Experimentos pessoais)“. Kamau é um cara que tem uma escrita bastante diferenciada no RAP; ver ele nomear um trampo de “Licença Poética” é esperar coisas realmente boas. Embora eu não goste muito do “experimentos pessoais” no título, a expressão traz toda uma nova expectativa, ainda mais quando cê reflete que este trampo o fez colocar o (possível) álbum “Mosaico” no pause.

Parece que ele tinha alguns botões que precisava apertar nesse meio tempo. Ainda não há muitas infos sobre o “Licença Poética (Experimentos pessoais)”, mas cê pode ficar tranquilo que ele tá todo gravado e até já tem uma lista de músicas confirmada.

Não perca mais nenhum post!

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