Lembra quando essa história dos “justiceiros” estourou e a Rachel Sheherazade, do SBT, defendeu os caras ao vivo no programa e deu a maior polêmica?

Depois ela tentou colocar panos quentes, disse que não tinha defendido, mas apenas compreendia a revolta e toda aquela ladainha que a gente já tá acostumado.

Muito do que aconteceu depois tem provado que ela tava, definitivamente, errada: inúmeros casos de “justiceiros” matando inocentes foram noticiados nas últimas semanas e muita gente até a cita como contribuidora.

E pensar que tudo isso poderia ser evitado se ela fosse fã do Racionais. Um pouco porque teria uma consciência social bem maior, mas principalmente por causa da música “Pânico na zona sul”, que, em 1988/89, fazia uma leitura da situação bem melhor que a dela.

Mano Brown, no alto dos seus 18/19 anos, sem a Internet pra buscar informações, definiu tudo de maneira primorosa. E sim, no fim da década de 80, quando Rachel Sheherazade, apenas 3 anos mais nova, provavelmente nem devia saber o que significava “justiceiros”.

Justiceiros são chamados por eles mesmos
Matam, humilham e dão tiros a esmo
E a polícia não demonstra sequer vontade
De resolver ou apurar a verdade
Pois simplesmente é conveniente
E por que ajudariam se me julgam delinquentes
E as ocorrências prosseguem sem problema nenhum
Continua-se o pânico na Zona Sul.

Só como adendo, essa parada da polícia é muito bem representada no filme de 2003, “O homem do ano”, do José Henrique Fonseca, quando o personagem do Murilo Benício mata o personagem do Wagner Moura depois de uma briga no bar e acaba aclamado pela população e autoridade locais.

Assim como Sheherazade, ninguém no filme para pra pensar quem é realmente aquele cara pra julgar alguém e decidir quem vive ou quem morre. Ninguém pensa que, já que ele matou X, por achar conveniente, o que impede ele de matar Y e Z também? Que é o que ele acaba fazendo, mas enfim.

Uma jornalista que apresenta um programa de notícias transmitido para o Brasil todo deveria ter, no mínimo, um pingo de ponderação. E quando você pensa que um rapper, adolescente, com toda mágoa de vários ao seu redor já terem morrido e que ele poderia muito bem ser o próximo, descarregaria tudo em suas letras e atacaria todo mundo, Mano Brown sobe a barra de novo:

Eu não sei se eles
Estão ou não autorizados
De decidir quem é certo ou errado
Inocente ou culpado, retrato falado
Não existe mais justiça ou estou enganado?

Afinal de contas, e se esse tal “justiceiro” disser que seu filho deve morrer porque olhou torto pra ele? E se eu inventar uma mentira sobre você e um bando de “justiceiros” acreditar e quiser te matar, como provavelmente aconteceu no litoral de São Paulo há uns dias?

Ah, aí a situação é diferente, certo? Mano Brown sabia que você diria isso.

O sensacionalismo pra eles é o máximo
Acabar com delinquentes, eles acham ótimo
Desde que nenhum parente ou então é lógico
Seus próprios filhos sejam os próximos

(…)

Mal te conhecem consideram inimigo
E se você der o azar de apenas ser parecido
Eu te garanto que não vai ser divertido

Se você acha que a resposta pra qualquer erro é punível com a morte, afinal, “bandido bom é bandido morto” e acredita que tudo se resolverá atacando o primeiro que você vê pela frente que parece suspeito, você cria mais uma máquina de matar.

E mesmo que você não mate, você “apenas” humilhe, imagina o precedente que você cria com isso. Imagine se resolverem fazer o mesmo com você quando, digamos, furar a fila, estacionar na vaga para deficientes não sendo um, ou etc?

Você acha que o problema acabou?
Pelo contrário ele apenas começou
Não perceberam que agora se tornaram iguais
Se inverteram e também são marginais

No final das contas, temos de um lado aqueles que nos roubam, do outro lado aqueles que nos batem porque acham que foi a gente que roubou eles e no meio temos as autoridades que fazem o que quiserem com a gente.

Quem faz algo de errado, precisa ser punido. E fazer algo de errado com alguém só porque esta pessoa supostamente fez algo de errado com outra pessoa não parece a saída.

Temos leis e juízes pra isso. Nosso legislativo e nosso judiciário não são dos melhores? Temos que lutar para melhorá-los então! Agora, dizer que o povo já se cansou da impunidade e por isso é compreensível os “ataques justiceiros” nada mais é do que tirar a culpa das autoridades e colocar no outro que tá tão na merda quanto você.

Afinal, quando você abre as portas do “justiça com as próprias mãos”, nada impede que essa “justiça” acabe se tornando tão defeituosa quanto a nossa, tão arbitrária e corrompida quanto.

Sem contar que, puta merda, se achar no direito de julgar alguém e taxá-lo de culpado, ainda mais sem provas, como tem acontecido, soa tão ditatorial que parece até nojento chegar perto.

A mudança estará em nossa consciência
Praticando nossos atos com coerência
E a consequência será o fim do próprio medo
Pois quem gosta de nós, somos nós mesmos
Te cuide porque ninguém cuidará de você
Não entre nessa à toa
Não de motivo pra morrer

Não perca mais nenhum post!

Qual a sua opinião?

7 Comments

  1. Caraaaaa, adorei esse pot, disse tudo e um pouquinho a mais. Não conheço muito de Mano Brown, só sei o que a maioria dos leigos no assunto rapper sabe. Mas, gostei da perspectiva que você adotou o tema e justificou seu ponto de vista. Foi exatamente nessa declaração da Rachel que ela perdeu minha admiração, saiu da crítica para o sensacionalismo, o showzinho midiático que traz audiência pro Silvio!
    Parabéns pelo texto!!

  2. Mandou muito bem… a relaçao dessa musica é algo bem elucidativo mesmo da nossa sociedade. Dos anos 80 pra ca nada mudou… OS problemas e os preconceitos so ganhan mais visibilidade com as redes sociais. Mas ele sempre esteve aí. Salve racionais!!! Aprendo muito com esses caras…. vida longa ao mano brown!!!!

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