Muito pouco se sabe realmente sobre a vida de Sabotage. Sua história é daquelas de artistas cinematográficos, cheia de intrigas e mistérios.

Literalmente, afinal, em breve devemos ter um documentário e um filme oficial sobre o Maestro do Canão; no ano passado, já teve o lançamento do livro da biografia oficial.

Aliás, o próprio autor da obra, Toni C, revelou que, mesmo depois da intensa pesquisa, muita coisa ficou em aberto. Você sabia que Sabotage faz hoje (03/04) 41 anos? Pois é, o biógrafo explicou essa já no ano passado; até a lápide do artista está errada!

Mas, ainda assim, mesmo com tantas dúvidas, o melhor lugar para encontrar informações sobre Sabotage é sua biografia e de lá tiramos algumas passagens que revelam novidades que nos surpreenderam (além da sua data de nascimento, que foi um pré-bônus e 12 versos do Sabotage que você nunca tinha lido).

Todas as citações foram retiradas do livro “Um bom lugar”, a biografia oficial do Sabotage, escrito por Toni C.

1. Ele começou ruim e chato

Alguns que assistiram a sua performance naquele tempo [1988, Sabotage tinha 15 anos] afirmam que ele era ruim e não demonstrava nenhum talento, além disso era “chato”, estava sempre nos bailes pedindo pra cantar. “O Sabotage já era muito avançado”, diz Rappin Hood em sua defesa, “era incompreendido, estava à frente do seu tempo”. (p. 46).

2. Conheceu o Mano Brown através de uma namorada em comum

Mano Brown revela que já conhecia uma outra fama de Sabotage, a de mulherengo. “Conheci ele namorando uma mina que eu namorei. Na adolescência. Isso em 88, na Vai-Vai” [Retirado da edição nº 6 da revista Rap Nacional]. Cibele era o nome da namorada em comum, que morava no luxuoso bairro do Morumbi, filha de delegado só dava desgosto à família italiana andando com os manos dos bairros pobres. (p. 46).

3. Perdeu os dentes nas mãos da polícia

Diferente do que imaginava, a maneira imediata de comer e viver de música foi através de um rádio toca-fitas… “Aí, na delegacia, o dente dançou…” [Estação Hip Hop, nº 11], é como Maurinho explicou a ausência dos dentes superiores arrancados a frio pela agressão que sofreu de policiais aos 15 anos de idade. (p. 48).

4. Sua primeira letra composta foi “Rap é compromisso”

Cantaram os Rap’s Tiroteio Verbal, Na City. E a primeira letra que Sabotage compôs do começo ao fim sozinho chamada Rap é Compromisso [versão diferente da que viria a integrar o CD de mesmo nome]. (p. 57).

5. Sua primeira letra gravada oficialmente foi uma música do Ndee Naldinho

Num baile da Chic Show na zona sul, Sabotage encontro um de seus ídolos [Ndee Naldinho], se apresentou dizendo curtir suas músicas antes de entregar um papel […].

Sabotage contou que havia escrito aquela letra para o Ndee Naldinho cantar. Naldinho argumentou que o seu primeiro disco solo já estava completo, prestes a sair, mas considerou acrescentar a estrofe em uma música que estava quase pronta. A música foi batizada de Nosso Rap e integrou uma das oito faixas do disco Menos Um Irmão, Chega Disso lançado em 1991.

“Du caralho! Ficou louco!”, foi o que Sabotage falou para Ndee Naldinho quando o reencontrou após ouvir suas rimas gravadas na voz do ídolo.

Nosso Rap entrou imediatamente para o repertório dos shows […]. A primeira gravação fonográfica com composição de Sabotage foi um grande sucesso!

(p. 58-59).

 6. Não aceitava doar seus órgãos

A segunda via de seu RG apresenta o carimbo no alto da foto com a sua decisão: “Não doador de órgãos e tecidos”. Aos mais próximos dizia que temia parar num hospital e no momento entre a vida e a morte desligassem os aparelhos para surrupiarem um de seus órgãos vitais. (p. 77).

7. Conseguia ser um grande cuzão se quisesse

“Me lembro de quando estávamos jogando bola lá no alojamento, de repente Maurinho aparecia empunhando uma calibre 12 ou uma PT e parava o jogo, dava tiro na bola e nos fazia continuar o jogo com a bola furada. E ficava encostado no canto da quadra sorrindo da nossa cara”, conta F. E. [nome preservado], em depoimento ao autor.

[…] O próprio Maurinho reconheceu… “Eu dava trabalho para esse pessoal aqui da área [Favela da Paz], era terrorista, andava armado, ninguém chegava perto de mim”, revelou em 2002 para o jornal O Estado de S.Paulo.

(p. 85).

8. Tinha, literalmente, um Pit Bull por ele (ou algo assim)

Maurinho arrumou uma solução doméstica pra entreter seus filhos: os presentou com um cachorro e deu o nome ao animal de Sabote. As crianças adoraram. Esta seria uma saída razoável, caso Sabote não fosse um filhote de Pitbull prestes a crescer muito, sendo criado dentro do barraco de dois cômodos sem janela, junto com toda família. (p. 95).

9. Seu desenho favorito era “Gato Félix”

Mas às vezes ele gostava de sentar ao lado de seus filhos para ver desenhos. Seu preferido era o Gato Félix. “Taí um desenho com herói negro e um professor vilão”, ele pensava. Gato preto, símbolo de azar para os mais supersticiosos, no clássico dos desenhos animados é um divertido, simpático e inteligente gato, munido de uma bolsa mágica. (p. 96).

10. Usava o RAP gringo como molde para suas composições

A técnica, para compor as músicas que ativaram o turbo, consiste em encaixar as palavras na métrica de um Rap cantado em inglês, semelhante à quadriculação na reprodução de uma gravura. Assim, a figura é reconstruída pedaço por pedaço. Na composição musical transcreviam uma nova música com outras palavras, novo tema, mas com a mesma sonoridade da canção original.

A música Affirmative Action, do Nas, com participação de AZ, Foxy Brown e Cormega, do grupo The Firm, foi a base para a reconstrução de Um Bom Lugar. […] Na música Incentivando o Som, Sabotage utilizou King Toast Queen do Wu Tang Clan. No Brooklin Sabotage se inspirou em Naughty by Nature.

(p. 104).

A letra de Dama Tereza começou utilizando a música The Way I Am, de Eminem, como referência, mas para se aproximar das palavras inglesas terminadas com o som de “i” foi necessário mutilar palavras e mudar a construção de frases para manter a sonoridade. (p. 212).

11. Acrescentou um improviso do Max B.O. à música “Cocaína”

Sabotage confessou depois: “Eu tava bem louco na rádio, comecei a errar a letra e ele começou improvisar um free for bidden…”. No final do programa Sabotage, aliviado e agradecido, declarou a Max B.O: “Cara, eu vou usar essas palavras que você inventou na hora pra pôr na minha música. Não tinha isso, mas agora vai passar a ter” [Revelada em entrevista para o site Manuscrito]. (p. 107).

12. Sua mulher escolheu o instrumental de “Um bom lugar”

Depois daquilo a música produzida por Zegon e Ganjaman ganharia novos acordes, mas a base de Um Bom Lugar, indicada pela esposa, permaneceu e se tornaria mais tarde um de seus maiores sucessos. (p. 116).

13. Não conseguia gravar a mesma letra mais de uma vez

Após todo mapeamento, regravavam – agora pra valer. Só que Sabotage gravava com novas palavras, improvisava, virava a página de seu caderno e, enquanto não se achava, ia colocando letras que surgiam na hora. “Porra, Sabotage, não é assim”, interrompiam a gravação. Readequavam as marcações e quando iam gravar novamente Sabotage criava uma “terceira versão” para a música, cheia de gírias, neologismos e onomatopeias. (p. 120).

14. Filmou “Um bom lugar” com os óculos do Thaíde

Durante as gravações, Sabotage aparece com um estiloso par de óculos de sol – aquisição feita em caráter de empréstimo com Thaíde no show que fizeram no Vale do Anhangabaú. Thaíde emprestou as lentes advertindo para que tivesse cuidado com os óculos – figurino de seu vestiário, utilizado no videoclipe Senhor Tempo Bom, onde aparece caracterizado com trajes da década de 1960.

15. Não gostava que falsificassem seus produtos

Um dia, deu o troco: se vingou da grife que confeccionou roupas com seu rosto estampado sem autorização e nenhuma contrapartida ao artista. Sabotage junto de KL Jay e Pixote entraram na loja, retiraram das araras e mostruários todas as camisetas com sua face ou seu nome, e antes de sair pediu para o vendedor dar o recado ao dono da marca: “Diz que o Sabotage veio aqui pegar umas roupinhas”. (p. 156).

16. O personagem Nego Preto, de “Carandiru”, era baseado em seu tio

Eles falavam do Velho Monarca que, no livro, o médico [Dráuzio Varela] trata como Nego Preto. Com a descrição, descobriram que era tio de Sabotage. “Tem personagens aí que representam meus parentes, o Nego Preto é baseado no meu tio, o Velho Monarca que está lá há 28 anos. […]”. (p. 165).

17. Não só atuou como foi consultor dos filmes “O invasor”e “Carandiru”

Após o encontro que garantiu a consultoria e uma ponta no filme, o diretor também pediu, ou foi convencido por Sabotage para incluir uma música para compor a trilha. Foi aí que surgiu Aracnídeo. (p. 138).

Como no filme O Invasor, Sabotage voltava a participar como consultor técnico, indicando atores e falas para algumas cenas [do filme Carandiru]. (p. 167).

18. Oficialmente corintiano, torcia pro Flamengo no Rio de Janeiro

♫ Tá bom de lembrar no Rio sou Flá,
Canão Mengão Corintiano 100% no ar! ♫

[Anotações de acervo familiar] (p. 204).

 19. Não tolerava desperdício

No restaurante do hotel comemoravam. A sobre de comida no prato de seu DJ foi a pauta da lição do dia:

“Você já passou fome?”, repreendeu Sabotage. “Eu já comi comida do lixo. Se você não estava com fome não deveria ter pegado tanta comida, seu puto”.

(p. 209).

20. Andava armado nos shows

O que Mauro melhorou neste período [início dos anos 2000] foi sua defesa pessoal, voltou a andar armado nos shows. Brincava com os amigos mais próximos mostrando o revólver no camarim. “Se algum puto mexer com nóis terá que se vê comigo…”, esbravejava, num misto de deboche e valentia. Seus amigos achavam que era marketing.

[…]. Para os mais íntimos o tom era outro. Maurinho desconfiava de uma vizinha que foi morar em frente à sua casa, e, preocupado, confessava: “Mano, acho que a mina é olheira dos meus inimigos”.

(p. 216).

 21. Abandonou a cocaína/o crack por um “milagre divino”, literalmente

A devoção de Sabotage era maior que seu vício. Certa vez, escondeu uma pedra de cocaína debaixo de uma santa em sua casa. Com dificuldade dizia a si mesmo que deveria largar o vício. No dia seguinte a pedra havia derretido e ele concluiu que tinha sido um milagre, um sinal de que deveria parar mesmo. Decidido, nunca mais fumou pedra. (p. 224).

*Como muitos leitores notaram, existe uma pequena confusão neste tópico. Embora cocaína possa ser transportada como pedra, ela é consumida como pó; “fumar pedra” é uma gíria para o crack (ambas drogas derivadas da folha de coca).

22. Recusou convite para posar nu

Meses antes havia recebido um convite para posar nu para uma revista masculina. Fez do convite uma piada para todo mundo.

“Que cê acha deu mostrá o cabo da vassoura? Veja bem. Nessa altura do segundo tempo o que você acha?”

Apesar de tirar uma onda, não levou a sério a proposta. Talvez por influência dos conselhos que ouviu enquanto fazia as brincadeiras, ou por princípio, não aceitou o convite, e recusou o cachê de R$ 70 mil reais. A proposta da revista é algo que a família não confirma.

(p. 233).

23. Ouvia TODO tipo de música

“Em 1985, eu escrevi uma música e ensaiei, mas só pra mim mesmo. Eu usava o solo de uma música do Leo Jaime pra cantar a minha […]. Eu ouvia Malcolm MacLaren, Afrika Bambaataa, Barry White. Me identifiquei muito com o White, por que, como ele, eu também perdi meu irmão para o crime.” [Publicado em 2011, no With Lasers!]. (p. 42).

“Quando tinha uns 16 anos, eu tava na Febem do Tatuapé. Já tava bem desligado do mundo do Rap e era tipo o seguinte: eu escutava um rádio, curtia um Racionais, um GOG, um Naldinho, um Ataliba e a Firma.” [Publicado no Estação Hip-Hop em 2001]. (p. 48).

O integrante dos Racionais MC’s se surpreendeu com as referências que conheceu no Boqueirão. “Ele ouvia música que eu não ouvia, música de rico, não perdia tempo, ouvia poesia”, elogiou Mano Brown. (p. 119).

“Eu gosto de uma Bossa Nova antiga e renovar ela agora, tipo um trabalho de reciclagem. Você tá entendendo? Você escuta um Eminem, um Jay-Z lá fora, um Nely e escuta um Chico Buarque aqui, um Pixinguinha. Tá entendendo? É coisa de louco!” [Publicado no Showlivre, em 2002]. (p. 212).

Embora não tenha encontrado essa passagem exata no livro, em uma entrevista ao Yo!, da MTV, mais especificamente ao Kamau, Sabota comenta um de seus gostos bem peculiares: “Sandy & Junior, cara. Escuto pra caralho os backvocal daquela menina…”.

[BÔNUS] Por que “Sabotage” e “Maestro do Canão”

“Alguém mexeu em minha carteira?”, perguntou irritado.
“Oh Deda, fui eu mano”. Maurinho caçou no bolso da calça. “Tá aqui ó, peguei o RG pra poder entrar no baile”.
“Cê hein…”. Deda não sabia se punia ou elogiava: “isso é sabotagem… você é um terrorista”. Deda achou melhor contar para sua mãe: “Ele tá saindo escondido, tá fazendo sabotage” [Publicou a Cineweb em 2003].

Sem se dar conta, e pela repetição, Deda acabava de batizar seu irmão: Maurinho passaria a ser conhecido por todos como Sabotage.

Maurinho arrumou uma explicação para o neologismo “Sabotage” sem o “M” no final: “Sabotagem é o ato. Sabotage é o cara que pratica o ato” [Contou à Carta Capital em 2002].

(p. 38).

Sabotage recebeu o batismo na família RZO ganhando um segundo apelido, o que mais sabidinhos chamariam de epíteto, quase um slogan – coisa comum entre os integrantes da sigla. Sandrão, por exemplo, é “o braço direito da favela”, DJ Cia é o “Vilão dos toca-discos”. Coube a Helião, “o Presidente”, o batismo. De tanto ouvir as letras de Sabotage se referirem com maestria ao Canão, se tornou dali em diante o “Maestro do Canão”. (p. 103).

Todas as citações foram retiradas do livro “Um bom lugar”, a biografia oficial do Sabotage, escrito por Toni C.

Não perca mais nenhum post!

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2 Comments

  1. Aí quem quiser deixar seu Facebook para botar na página fanáticos por sabotage ou quem quiser pedir para entrar, ta aí meu face douglas Silva.

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