Nesta sexta-feira (20), Max B.O. e Wzy lançam mais uma música em parceria, intitulada “Favela”, que terá versos do primeiro e produção do segundo.

Para Wzy, a parceria, que já resultou em várias músicas e vai gerar ainda tantas outras, dá certo por causa do respeito de um com a opinião do outro.

“Muitas vezes compomos nossas canções juntos, um interfere no trabalho do outro. Não vejo problemas em trampar com o mesmo produtor, mas é bom ressaltar que entrosamento é fundamental”, explicou Max.

Assim como lançou uma mixtape inteira com o Green Alien, B.O. deve soltar uma inteira com o Wzy, intitulada “#FumaSomVol.1”, que era pra ter apenas quatro músicas, mas hoje já passam de dez escolhidas.

A música “Favela” é uma delas. A temática atrai o RAP Brasileiro desde os primórdios; Max fala sobre suas origens e também sobre o trânsito de sair e entrar na favela, poder ir e vir.

“Eu gosto muito das minha origens, mas eu sei também que muita coisa foi forjada com maldade dos outros”, comentou. “O RAP foi uma força pra seguir, mas não por nada errado que eu tivesse feito. Foi uma força pra seguir os exemplos de honestidade aprendidos com os meus pais”, contou.

Entretanto, mesmo sendo um tema próximo ao RAP Brasileiro, muito tem se falado sobre uma distância entre o momento atual do gênero e a quebrada.

“O Rap não se distanciou da favela, mas sim a maioria dos artistas. Dificilmente vejo grupos novos, essas celebridades instantâneas, em eventos da quebrada”, disse Max. “E pra favela consumir essa galera só mesmo pela internet, um ou outro programa de radio ou pelas baladas fora da quebrada, onde pelo alto custo, nem todo mundo pode colar. Ai vem o conflito: quem tá na favela, acha que é balada de boy, mas tá longe de ser”, explicou.

Confira abaixo a entrevista completa:

Max B.O. e Wzy
Foto: Eric Garcia

Você tem gravado vários sons com o Wzy, como é que surgiu esse contato e a ideia da mixtape “FumaSom Vol.1”, ainda tá de pé?

Max: Salve rapa, muito obrigado pela idéia, consideração e pelo que vocês fazem pelo Hip Hop. O Wzy apareceu com os uns beats, ele já trabalhava com isso a um tempo, lá em São Roque, cidade onde ele morava. Aí gostei de muitos beats e sempre que conversávamos ele dizia que queria ampliar seu leque de trabalho, montar algo com mais possibilidades. Pra mim, sempre achei que seria muito bom ter um estúdio em casa, pois sempre perdi muito com locomoção, horas, sessões, atrasos. Ele se mudou ora SP estamos montando o Lil Castle Studios, nosso primeiro espaço para criação e produção. A idéia da MixTape #FumaSomVol.1 Surgiu pq estávamos fazendo uns sons mais lentos, com versos e batidas entorpecentes. Mas aí, a MixTape também veio com umas mais pesadas, tipo “Essa Noite”. “Favela” é uma bem pesada, mas “Essa Noite”, vai pegar mais os que gostam de mais peso.

Como é feita a produção das músicas: o Max diz um tema e o Wzy produz algo específico pra isso ou o Wzy mostra pro Max uma lista de beats e ele escolhe e rima em cima? “Favela” é um tema que deve acender várias luzes na cabeça de um produtor de RAP, não?

Wzy: No início eu enviava alguns beats para ele por email e ele desenvolvia na casa dele. Hoje, como mudei meu estúdio para a capital paulista, ele entra no estúdio e ouve alguns beats que estou fazendo na hora e indaga: “Esse tem dono?” Após eu confirmar que está livre ele se senta (enquanto eu ainda estou fazendo o beat) e praticamente termina a letra alguns minutos depois de eu terminar o beat! E nos próximos minutos gravamos a música. O Max é muito talentoso.

No caso da música “Favela” eu fiz o beat e não imaginava a temática! O jeito que o Max escreveu nao necessitou que eu alterasse muitas coisas no beat! Então mesmo com várias luzes na cabeça, não foi necessário eu iluminar o trabalho… o Max se encarregou bem disso (risos)

Você tem também um trabalho com o Green Alien no mesmo esquema. Como é trampar um CD inteiro com o mesmo beatmaker? O entrosamento acaba influenciando no resultado ou é o mesmo que trampar com mais produtores?

Max: Bom, são processos diferentes, pra cada cara e situação. Com o GreenAlien, recebi um pac de beats, selecionei em duas fases e estamos estudando a execução da segunda fase. Reconheço que demorei demais, de forma que essa segunda parte acabou se deslocando da primeira. Muitas coisas aconteceram, algumas prejudicaram outras fizeram muito bem. Na primeira etapa da “Antes Que O Mundo Acabe” foi gravada no estúdio do Nego E, outro grande parceiro. Agora que faço os bangs em casa, saio do quarto sentindo um cheiro de café e ouvindo um Beat novo… Muitas vezes compomos nossas canções juntos, um interfere no trabalho do outro. Nao vejo problemas em trampar com o mesmo produtor, mas é bom ressaltar que entrosamento é fundamental. A #FumaSomVol.1 eram só 4 musicas, já passam de 10 sons, isso sem contar as musicas que temos feito aleatoriamente, além de outros projetos e parcerias, como a recém lançada “Ndrangheta” que fizemos em parceria com a Rebeca Salomão. Esse som com a Rebeca também era um, já estamos andando com novo projeto. E observando por um outro angulo, eu ainda trabalho com vários produtores, mas com cada um eu tento fazer um Ep ou algo do tipo. DJ Caíque, Babão, Apolo TDL, Skeeter Beats, entre outros são lições de vasa pra entregar. Tô correndo.

Wzy (sobre trabalhar com mesmo rapper)Acredito que o entrosamento independe do trabalho ser apenas uma faixa ou ser um disco, entende? Acho que o entrosamento é proveniente da personalidade dos artistas. O Max e eu nos damos muito bem! Acho que isso facilita o entendimento fazendo com que o trabalho flua mais. Respeitamos muito a opinião um do outro, acho que esse fator é determinante no resultado. Você pode notar tanto as minhas quanto as características dele nos sons que trabalhamos juntos. Poder produzur diversas faixas faz com que você esteja mais “dentro” do projeto. Gosto mais de fazer várias faixas com o mesmo artista.

Sobre o som, você fala muito em entrar e sair da favela. Muitos que estão lá, principalmente os jovens, pensam em sair algum dia, mas é incrível o quanto existe de alegria mesmo com tantas mazelas. Já que cê pode até sair do gueto, mas o gueto nunca sai de você, conta pra gente as lembranças que você tem da sua quebrada e dessa alegria diferenciada que se tem por lá. Você também pensava muito em sair fora?

Max: Bom, nem acho que a idéia é sair de onde se vive, mas trazer condições de se viver melhor. Eu gosto muito das minha origens, mas eu sei também que muita coisa foi forjada com maldade dos outros. Tipo: eu gosto da favela mas eu nao pedi pra morar lá, foi o que deram pra gente. É fundamental trazer coisas boas pra quem tá na favela e nao tem condição de ir buscar e levar o que é produzido de bom na favela, mas que pouco se mostra. Acho que falo no som, mais de uma questão de transitar mesmo, entrar, sair, ir e vir… Geograficamente, acabei me afastando da favela, morava no morro, vim pro Pery, depois pro Limão, agora nem tô na ZN, mas sou cidadão do mundo, sou da ZN de SP, sou do centro do Rio, sou do Pelourinho, sou do Recife Antigo… Nós somos o Brasil. Nunca pensei: ah, quero sair daqui. Sempre pensei no que faltava e como podia ter, já que fazia falta.

E teve alguma inspiração ou acontecimento específico que te fizeram escrever ou “quem vem de lá” não precisa de motivo especial pra falar sobre a quebrada? É uma ligação forte!

Max: Acho que é uma coisa de caracterizar minha turma, e as outras. Uso “Quem vem de lá” ou “quem vem de onde eu venho”, ou outras dessas expressões por que todo mundo sabe que a origem também faz parte da formação do indivíduo. Quem vem de onde eu venho, tem menos estudo, menos condições… Mas quem vem de lá , faz com vontade, mesmo com tantas dificuldades, fazemos amor, determinação. Quem vem de lá sofre mas é feliz… Sente. 

Na música, você diz: “Sou do gueto e não é por isso que carrego as quadradas / Não vou falar de um passado que não valeu de nada” pra em seguida falar dos benefícios que o RAP te trouxe. Você é mais um salvo pela cultura Hip Hop? Independente de você sempre ter recusado o crime ou ter entrado e saído, como foi esse momento de dizer “não” e achar no RAP a força pra seguir? É muito difícil pra um jovem enxergar o longo prazo quando o curto prazo do crime pode te render tantas coisas, não é?

Max: Bom, eu já tive algumas ranhuras na minha vida, como todo mundo. Acho que não foi realmente o Rap que me salvou, ele me deu um norte, mostrou pra onde eu queria ir. Com certeza, o Rap foi uma força pra seguir, mas não por nada errado que eu tivesse feito. Foi uma força pra seguir os exemplos de honestidade aprendidos com os meus pais. É difícil enxergar essas coisas, por que eles se espelham em quem ta mais perto, né? As vezes os pais trabalham, tem pouca relação com os filhos, os meninos ficam na rua, perto de qualquer exemplo. E nem acho que seja por essa coisa de rendimento a curto prazo, por que eles sabem também que vem fácil, vai fácil. Assim como sabem das tretas, da cadeia, policia, etc. Entra quem quer. Eu deixo a seguinte pergunta: Por que a pressa em ter as coisas, se nao se tem pressa pra morrer? Nao quer viver muito? Evita confusões, trabalhe. Tudo virá no seu momento certo. Os caras que tiveram dinheiro em curto prazo, a maioria ficou sem nada, nao soube aproveitar. Os que souberam, nao tem a alegria que “quem vem de lá” tem. Sabe assim? Coisa de equilibrar os valores éticos e monetários.

Pra terminar, o RAP se distanciou da favela ou a quantidade de espaço e artistas que surgiram com a Internet apenas colocaram em evidência também outros temas que já existiam antes, mas eram “abafados”?

Max: O Rap não se distanciou da favela, mas sim a maioria dos artistas. Dificilmente vejo grupos novos, essas celebridades instantâneas, em eventos da quebrada, festas comemorativas, festivais de várzea, etc. Muitos fazem falta porque são bons, outros não tem compromisso mesmo, não espere por eles. Mas nem todo mundo na quebrada entende essa informação. E pra favela consumir essa galera só mesmo pela internet, um ou outro programa de radio ou pelas baladas fora da quebrada, onde pelo alto custo, nem todo mundo pode colar. Ai vem o conflito: quem tá na favela, acha que é balada de boy, mas tá longe de ser. Essas baladas muitas vezes, são de uma turma do próprio rap e o publico dessas festas hoje, em sua maioria é uma galerinha parecida conosco, mas que ainda mora com os pais, não tem contas pra pagar, ai banca de playboy no instagram, torrando sua grana e ostentando sua roupa e sua garrafa. Aí, como parece que o rap de hoje em dia é isso, ficou longe favela, né? rsrs. P’

Wzy: Eu acredito que a internet tenha, de certo modo, tornado o rap mais “democrático” (não que isso seja necessariamente positivo). Os aspirantes a MC se sentiram mais incentivados a seguir carreira. Como toda massificação, a probabilidade de se obter resultados negativos ou longe das raízes aumenta. Mas não acredito que o rap tenha se distânciado da favela. Talvez o movimento tenha novos lugares/temas a serem explorados, ou alguns novos exploradores. Mas acredito que a maioria ainda é proveniente das favelas como eu sou, como o Max também é e tantos outros. Muitas vezes não estou rimando sobre a favela, mas estou falando para/com moradores dela. Talvez essa mudança de linguagem passe essa imagem de distância, mas é apenas uma impressão. 

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