Capa da mixtape Muita Luz, do Projota

Às vezes, acho que o Projota é injustiçado. Tudo bem que, se você for olhar pra carreira dele, com tudo que ele já conquistou, cê vai me achar meio louco de pensar isso. Mas, quantas vezes não ouvi caras que se dizem “fãs de RAP de verdade” o xingarem por ele só fazer “música de amor”. Pior do que ser uma crítica idiota, é uma crítica falsa.

Mesmo no CD “Projeção pra elas“, que é um CD totalmente dedicado a elas, ele sai bastante do romântico e destaca a parte guerreira e lutadora. O grande lance é que três de suas músicas mais famosas, ainda em uma época que ele tocava mais na Internet mesmo, eram “de amor”: “Mulher“, “Acabou” e “Chuva de Novembro“. E é isso. A proporção de “músicas de amor” que ele tem na carreira em comparação com outras é ínfima, e isso é inquestionável!

Muita luz” não é diferente. De 19 sons, apenas 2 são “de amor”, sendo que 1 é a gravação oficial de “Mulher” que, até então, só tinha em uma versão antigona, sem nunca ter saído num CD. Mesmo assim, era cantada e reconhecida por tanta gente que precisava da versão oficial. A outra é “Tão muleque“.

Aí, os caras deixam que essas 2 músicas generalizem o CD todo e nem escutam o resto. Tão perdendo. Da “Muita luz” (que nem vamos falar porque já comentamos aqui) até a “Eu sou problema“, acho que temos o trabalho mais politizado do Projota. Na verdade, desde a “Não há melhor lugar no mundo que o nosso lugar“, tenho percebido um esforço extra dele pra destacar o lado da crítica social em seus sons.

Eu, particularmente, não tenho do que reclamar. Aliás, tem uma sequência de versos “abre-olhos” em especial na “Chapa” que valia sair do estádio e comprar o ingresso de novo (ou, no caso, ir na loja e comprar o CD de novo… é isso?):

A cidade segue dominada
Meus manos morrendo na Leste e na Sul
A torcida segue organizada
Derruba mais um em frente ao Pacaembu
Quebra buso, invade campo
Revoluciona sem rosto
Se Tiradentes fosse vivo, morreria de desgosto

Aliás, se é pra falar em “abre-olhos”, a “Palmas” é uma mistura de ironias e diretas pro gosto de qualquer ativista político; da percepção de uma melhora ilusória até os problemas mais drásticos em uma mesma música. Na “O Projota vai tocar“, a comparação genial de um povo controlado pelo governo como se fosse “bolado” igual baseado e a camisa de força escrita “RAP Nacional”… ia vender mesmo! Sem contar a incrível “Fatality” só com palavras que começam com “F”, algo que requer muito vocabulário e um ótimo aproveitamento do mesmo (no mesmo estilo da “Brasil com P“, do GOG, e “Mister M“, do Inquérito).

Se a crítica social é destaque, então o RAP Brasileiro tinha que ser enaltecido. Se na “Vocês vão ter que engolir“, a música inteira é praticamente dedicada ao momento do RAP no país, relembrando uma frase do Zagallo, na “Foco na missão“, o destaque é menor: “Pra mim, zica memo é RAP Nacional. Curto Jay-Z, mas prefiro Edi Rock e Marechal”. Uma rima super simples, mas com um peso enorme.

Esse tipo de citação da nova geração do RAP lembrando aqueles que foram base sempre será positivo. Aliás, acho que é o grande motivo de o RAP Brasileiro estar tão forte: por mais que exista um maior destaque aos novos nomes, nenhum deles está se colocando à frente dos que vieram nas antigas. Na “Fogo“, a mensagem, mesmo que diferente, é tão importante quanto: se Gandhi dizia que “Olho por olho e o mundo vai ficar cego”, Projota possui a solução: “A vida me deu fogo, mas não vou queimar você”. Mesmo com todas oportunidades, ele não vai devolver na mesma moeda. A única maneira de mudar o mundo mesmo é se o oprimido, quando tomar o poder do opressor, não se tornar ele, embora isso seja muito difícil.

Enfim, eu odeio falar diretamente sobre muitas músicas, mas o CD continha várias faixas que precisavam ser distinguidas. E isso que eu deixei de fora a loucura da parceria com o RET, na “O mundo é dos loucos“; a linda parceria com a voz foda da Drik Barbosa, na nova “Eu sou livre” e na “Silêncio“; além da emocionalmente pesada “Mataram um amigo meu“. Chega!

Claro que cada música faz seu papel para que o CD seja o que é, mas vejo como mais importante a mensagem por trás. Projota tem feito seu papel. Críticas sociais, valorização do RAP Brasileiro, diversificação pra chamar a atenção do maior número de pessoas, etc. Se pra maioria só o fato de fazer músicas de protesto não é suficiente, eu já acho que o RAP é igual os livros: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas” (Mario Quintana).

Muitos o criticam por, talvez, não ser tão atuante e contestador nas ações do dia a dia, mas será que ele já não faz sua parte ao levar a mensagem? Assim como os livros, será que é tão importante o autor se mostrar ativo no que fala ou a mensagem por si só já é válida pra causar uma reflexão? Será que não temos um cérebro que pensa o suficiente para receber a mensagem e refleti-la a ponto de tomar uma decisão ou é fundamental que o mensageiro a represente e nos dê as ações mastigadas?

Por mim, todos MCs deveriam ser engajados; todos MCs deveriam ser Tiradentes. Entretanto, não nos cabe cobrá-los isso; é algo que está dentro de cada um. Vários jogadores treinam diariamente, possuem estrutura, alimentação adequada, mas não podem cobrar que todos sejam Messi; entretanto,  determinação e vontade de vencer sim. Nesse sentido, não acredito que possamos cobrar dos MCs que sejam revolucionários, mas devemos cobrá-los por mensagens positivas: verdadeiras e fortes a ponto de abrir os nossos olhos, inspiracionais a ponto de nos ajudar a levantar quando nem nós mesmos cremos mais e cotidianas para que possamos encontrar alguém que esteja passando por situação parecida e mostre que é possível dar a volta por cima.

Quanto a isso, Projota está muito bem servido. Se tivesse vivo, Tiradentes ficaria, no mínimo, esperançoso…

Muita luz – Projota

  1. Muita luz (prod. DJ Caique)
  2. Fogo (prod. DJ Caique e Laudz)
  3. Foco na missão (prod. Skeeter)
  4. Você vão ter que engolir (Prod. DJ Max)
  5. Chapa (part. André Maini | prod. DJ Caique)
  6. Vagabundo trabalhador (prod. DJ Caique)
  7. O mundo é dos loucos (part. Ret | prod. Zap San)
  8. Eu sou livre (part. Drik Barbosa | prod. DJ Caique)
  9. Palmas (prod. Laudz)
  10. O Projota vai tocar (prod. DJ Caique)
  11. Tão muleque (part. André Maini | prod. Laudz)
  12. Mulher (part. e prod. de Marlos Vinicius)
  13. Fatality (prod. DJ Zala)
  14. Bola mais um (prod. DJ Caique)
  15. Garoa parte 2 (prod. DJ Caique)
  16. Mataram um amigo meu (prod. DJ Caique)
  17. Silêncio (part. Drik Barbosa | prod. DJ Caique)
  18. Cantei pra subir (prod. DJ Caique)
  19. Eu sou problema (prod. Projota)

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