Desde que conhecemos o som do Kamau, já o colocamos num patamar diferenciado. Não somente porque seu som é de alta qualidade, mas também porque se hoje o RAP leva a mensagem ao maior número de pessoas possíveis, ele é um dos responsáveis.

Seu vasto conhecimento, tanto de vida quanto de música, e a aplicação do mesmo no seu RAP influenciou diversos outros MCs que vieram. Sua paixão desde criança pelo skate e pela rua resultaram em todo o aprendizado retratado em seus sons, que serve de aprendizado para todos que dão o play.

Nossa intenção com a entrevista era aproveitar essa visão diferenciada do rapper e saber o que ele pensa sobre o momento que vive o RAP Brasileiro, o RAP Gringo e também sobre o seu próprio momento, após o lançamento do seu EP “…ENTRE…”.

Abaixo cê confere e a entrevista na íntegra:

Kamau
Foto: Jess Penido

Em “Sing for the moment”, o Eminem diz, de uma maneira bastante crua: “Música é uma reflexão de nós mesmos. A gente só explica e então recebe o cheque pelo correio”. Principalmente em “21/12“, você faz versos extremamente pessoais. Ainda assim, muita gente se identificou. Por que você acha que isso acontece? Você busca deixar seus versos mais abrangentes para que mais pessoas se conectem ou não há essa preocupação?

Eu acho que o melhor jeito de nos conectar a outras pessoas é sermos nós mesmos. Eu quis contar minha história e as pessoas se viram nela. E geralmente é assim que escrevo. Acho que é como meus versos soam melhor.

Pra gente, “Lágrimas de Palhaço” é a melhor do EP e uma das melhores do ano (no RAP como todo). Sabemos que, como um “pai”, você deve amar todas suas “filhas” de forma igual, mas por acaso não teve aquela especial? Seja pela qualidade, pela temática ou alguma outra peculiaridade.

Gosto muito dessa música. Ela nasceu quando eu já tinha a ideia do EP quase toda pronta e eu achei muito importante que entrasse (no EP). Cada uma das músicas do EP me dá uma satisfação diferente. Me orgulho muito de todas elas. Se eu penso numa razão pra uma delas ser favorita, me vem outra na mente. É tudo muito conectado.

Com a ampla facilidade no compartilhamento via internet, muitos rappers têm aproveitado para disponibilizar seus cds gratuitamente, com intuito de maior alcance de seus sons. Você, não. Por quê?

Acho que os sons vão chegando às pessoas naturalmente. Quem compra o CD leva pra casa algo que realmente quer. Nunca vou dizer pra comprarem o CD pra ajudar o artista. Mas o dinheiro dos CDs é o que paga toda a estrutura dos bastidores pra que a música aconteça. E esse dinheiro tem que voltar pra que a música continue com a qualidade da anterior. É nisso que acredito pro meu trabalho. E tem funcionado. As primeiras 2000 cópias se esgotaram em menos de 1 mês. E ainda chegaremos a mais lugares.

Você é uma das referências da nova geração do RAP Brasileiro e ao mesmo tempo é amigo pessoal de muitos deles, como Rashid e Emicida, por exemplo. Como se iniciou essa amizade e como funciona essa relação recíproca de amizade e referência musical?

Conheci o Emicida numa “batalha” que arranjaram pra gente. Quando soube que ele morava perto da minha casa eu o convitei pra colar na Galeria Olido no centro de SP, onde fazíamos sessões de microfone aberto com a Central Acústica. E então ele chamou os amigos e através dele conheci o Rashid, o Projota entre outros. Pra mim eles são referência também e isso renova minha fé no que faço e meu jeito de fazê-lo. Acho que aprendemos bastante mutuamente e isso fortalece o trabalho como um todo.

De vez em quando, vemos você recomendar sons gringos ou conversar com outros rappers sobre esse ou aquele som, principalmente através do twitter. Em meio a tantas letras que, se traduzidas, seriam rebaixadas completamente, o que você consegue tirar de melhor do sons dos caras para melhorar no seu som? O que você tem escutado de fora recentemente e tem gostado?

Tenho escutado muito Kendrick Lamar desde o Section 80 até o Good Kid, M.A.A.D. City. Ele inclusive influenciou bastante no “… ENTRE …”. J – Live lançou um ótimo disco recentemente chamado S.P.T.A., Phonte lançou o Charity Starts at Home, Nas lançou o Life is Good. Tenho escutado bastante Slaughterhouse também, o disco do House Shoes chamado Let it Go. As letras boas estão por aí esperando pra serem ouvidas e descobertas pelos ouvidos interessados. E escuto muito as batidas também. A música como um todo está aí pra ser apreciada.

No VMB, muita gente cobrou um discurso do Mano Brown. Você comentou em seu twitter que quem ainda cobra discurso dele é por que não ouviu as músicas. O que você acha dessa cobrança aos rappers como se fossem líderes, revolucionários, militantes e não apenas artistas?

Alguns nascem pra ser líderes. Outros nascem pra obedecer e seguir. Então fica mais fácil pra alguns cobrar de outras pessoas atitudes que elas mesmo não tem. O rap fala pra muitos e por muitos. Acho que cada um pode ser sim um líder, um revolucionário e um militante. Mas tudo isso vai da pessoa que é, em primeiro lugar, alguém igual a nós. O Brown mesmo responde essa pergunta na música “Mil faces de um homem leal”: “O show é protesto e o protesto é show, prestenção que o sucesso em excesso é cão”. Colocou uma letra dessas na casa de milhões de pessoas que discordam ou que nem mesmo sabiam quem é Marighella. Se isso não é revolucionário então eu entendi errado quando cheguei. Concordo com o Fight the Power do Public Enemy e o Pimp the System do Dead Prez. E isso se resume no “Usar os meios sem deixar os meios usar nóiz” do Emicida. Entendam e se movam como quiserem. Já é um bom começo.

Se quiser deixar um recado ou falar algo que não perguntamos, sinta-se à vontade.

Cada um que escuta e consome a música, fortalece pra que ela continue. Então vida longa e próspera à música que nos move. Sejam bem-vindos.

Não perca mais nenhum post!

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